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Patiño e Salazar. Uma noite de festa e drama, há 50 anos

Na mesma altura em que decorria a festa mais fabulosa de sempre em Portugal, Salazar estava a ser operado ao cérebro

Luís M. Faria

Jornalista

A festa Patiño e a operação a Salazar. A maior festa de sociedade jamais realizada em Portugal e o momento em que Salazar esteve entre a vida e a morte. Muita gente que identifica estes dois marcos dos anos 60 em Portugal e reconhece a importância de ambos - cada um ao seu nível, obviamente - não faz ideia de que aconteceram em simultâneo. Porquê? Fizemos a pergunta ao jornalista Miguel Pinheiro, autor de um livro que explora essas horas fatídicas da noite de 5 para 6 de setembro de 1968.

Alternando as duas narrativas paralelas e assinalando pontos de contacto entre ambas, "A Noite Mais Longa" (ed. Esfera dos Livros) foi publicado em 2014. É agora relançado no mercado, a propósito dos cinquenta anos que se cumprem sobre aquela data duplamente sigificativa. A conversa com o Expresso começou exatamente pelas razões que justificarão o esquecimento da extraordinária coincidência.

"Bem, normalmente não se juntam as duas coisas. Eu também só me apercebi pouco antes de escrever o livro", reconhece Pinheiro. "A coincidência foi uma das razões que me levou a escrever. Se não fosse isso, provavelmente não teria havido o livro. Eu estava à procura de um assunto que pudesse ser contado com uma grande compressão temporal e de espaço. Que tivesse acontecido em poucas horas. Era uma ideia que tinha na cabeça. Os dois acontecimentos foram acontecendo em paralelo, primeiro ao longo de agosto, depois de Salazar ter dado a queda, e depois em setembro. Ele estava a tentar evitar o confronto com a doença, escondendo das pessoas o que se passava. Criou-se um silêncio espesso em volta do seu núcleo duro: a governanta, D. Maria, o secretário Costa Freitas, o médico..."

"Uma necessidade de silêncio, por razões óbvias", continua. "Era o regime que ficava em causa se se soubesse que Salazar estava doente. Ao mesmo tempo, os jornais estavam cheios de noticiário sobre as preparações da festa Patiño. O Diário Popular fez edições atrás de edições, com uma cobertura completíssima. Porque aquilo não só era uma festa como nunca houvera em Portugal, mas tinha uma dimensão internacional. O número e a qualidade, entre aspas, das pessoas que vieram cá, desde estrelas de cinema, realeza europeia, grandes industriais com importância mundial, tinham de facto um peso grande. E depois Salazar é internado mais ou menos no momento em que começa a festa".

Distância e curiosidade

Os dois planos por vezes cruzam-se, nota o autor. "Pessoas do regime que tinham pedido autorização a Salazar saem do círculo do regime para ir à festa e depois vão diretamente de lá para a Cruz Vermelha, por terem entretanto sido avisadas do que se estava a passar. O Francisco Pinto Balsemão vai para casa e depois segue para o Popular para preparar a cobertura da cirurgia. Tudo isto tem um epílogo na mesma altura, quando amanhece e a Emissora Nacional dá a notícia sobre o Salazar. Foi o momento em que os portugueses tiveram pela primeira consciência dos seus problemas de saúde. Nessa altura estão os últimos convidados a sair da Quinta Patiño. A festa acabou, houve o pequeno-almoço, algumas pessoas ainda tomaram banho na piscina".

A relação de Salazar com a festa era ambígua, explica Pinheiro. Por um lado, o ditador tinha certa proximidade com Antenor Patiño e chegara a ter esperanças de o convencer a criar em Portugal uma fundação, à imagem da Gulbenkian. Por outro lado, numa altura em que a guerra colonial estava em curso e o exército lutava em três frentes, podia ser inconveniente aquela imagem da alta sociedade e divertir-se numa festa extravagante. Salazar disse a vários ministros que "não queria ter o desprazer de os ver lá" (a própria governanta, a Dona Maria, tinha um convite que ele não a deixou aproveitar). A outras personalidades, foram impostos alguns cuidados. Iriam à festa mas os jornais não poderiam mencionar que tinham lá estado, ou os cargos que ocupavam.

Em todo o caso, o ditador tratou de obter pormenores sobre o evento logo que pôde. "Politicamente, ele queria uma distância entre o governo e a festa. Mas a nível pessoal estava curiosíssimo. Adorava saber as tricas de sociedade. Havia uma série de senhoras que o visitavam e lhe levavam novidades das festa", diz Pinheiro. "Mesmo antes de ele entrar na sala de cirurgia - ainda estava no quarto, foram rapar-lhe o cabelo e tudo o mais - o médico foi informá-lo de que ia ser operado. E o Salazar disse-lhe: sei que as suas filhas foram à festa Patiño. diga-me uma coisa: sabe como está a correr?".

"Não estamos presos, pois não?"

A festa estava a correr muito bem, e a intervenção médica também seria um êxito, dentro do possível. Após grandes discussões entre o neurocirurgião Vasconcelos Marques e o médico pessoal de Salazar, Eduardo Coelho, realizara-se finalmente a operação. Para alívio geral, o que Salazar tinha sofrido era um hematoma e não uma trombose. No imediato, estava salvo. Mas o imediato não durou muito. Oito dias depois houve um acidente vascular grave, do qual o ditador jamais recuperou. Ainda viveria dois anos, mas o poder entretanto foi entregue a Marcelo Caetano, não havendo certezas sobre o grau de consciência que o homem de Santa Comba teve da mudança até ao fim.

O que é certo é que o regime, a partir da operação, não escondeu do público o que se passava. "Nisso houve inteligência política. Eles perceberam imediatamente que não dava para esconder. Quiseram foi serem eles a dar a informação, para controlar o seu tempo e a sua forma. No primeiro boletim clínico escrito pelos médicos, uma palavra é mudada (a "madrugada" da operação passa a "noite", por ser menos dramática) e outra suprimida ("intercraniano", referente ao hematoma). No segundo boletim clínico, já se lê 'hematoma intracraniano subdural".

O mais poderoso dos doentes já não tinha poder sobre a sua própria informação médica, nem sobre mais nada. "No dia 7, aquilo que devia ter sido motivo de conversa, a festa Patiño, acabou por ser substituído pela cirurgia a Salazar", conta Pinheiro. E a primeira pergunta que o ditador fez ao subsecretário de Estado da Presidência do Conselho depois da operação foi simplesmente: "Não não estamos presos, pois não?".