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O fim das lâmpadas de halogéneo: “A proibição obriga a escolhas mais responsáveis”

foto Mike Sergeant

Entrevista a Francisco Ferreira, Presidente da Associação ZERO

O fabrico de lâmpadas de halogéneo acabou e a partir de hoje apenas poderão ser vendidos os produtos em stock. A maior eficiência energética da tecnologia LED levou a União Europeia a proibir um produto que se mantinha nas lojas há seis décadas. O próximo passo é acabar também com as lâmpadas fluorescentes compactas.

O que está em causa no fim da lâmpadas de halogéneo?
As lâmpadas de halogéneo têm vindo a ser progressivamente retiradas do mercado e esta fase até já estava programada para há dois anos. Só que depois os vários países, pressionados também por algumas empresas do sector, passaram o fim da produção e comercialização de 1 de setembro de 2016 para 1 de setembro de 2018, embora ainda seja permitida a venda dos stocks remanescentes. Quando eu digo que este é um processo progressivo é porque estamos a falar das lâmpadas que representam a maioria do mercado, as omnidirecionais, cujo formato é mais aquele que nós conhecemos das antigas lâmpadas incandescentes. Aqueles focos que há em muitos locais já tinham saído do mercado. Agora estamos a falar das lâmpadas, é isso que agora está em causa.

Porque é que estas alterações estão a acontecer?
Há uma área de atuação na União Europeia que se dedica ao ecodesign e à etiquetagem energética e no âmbito desta área há uma série de produtos como eletrodomésticos ou lâmpadas que têm sido sucessivamente obrigados a adaptar-se, com o objetivo de reduzir os consumos de energia, entre outros fatores. Há várias linhas, mas a eficiência energética é a bandeira principal. Este tipo de proibições que a UE introduz é uma forma muito efetiva de conseguir resultados, porque deixa simplesmente de ser possível adquirir os produtos.

A proibição é a melhor forma de levar os consumidores a agir?
Sim e não. Há algumas lacunas. É um sim porque a proibição obriga os consumidores a fazer escolhas enérgica e ambientalmente mais responsáveis. Agora quando digo que há algumas lacunas é porque a escolha também implica alguma literacia. O problema das lâmpadas de halogéneo é consumirem 6,6 vezes mais e durarem 7,5 vezes menos. A melhor demonstração de que a informação não chega ao consumidor é que tivemos de chegar à proibição para garantir que a medida era efetiva.

Os portugueses já estão sensibilizados para esta realidade?
Eu diria que não. Muitas vezes, as escolhas que fazemos, de muitos produtos que têm a etiqueta energética associada — como máquinas de lavar roupa ou de loiça, aspiradores, lâmpadas, televisões, entre outros —, não são feitas de forma ponderada. E depois há pequenas coisas, em termos de informação ao consumidor, que são vitais. Por exemplo, o que devem fazer com as lâmpadas de halogéneo que têm.

E o que deve ser feito?
Aí há uma recomendação simples: as lâmpadas que consomem mais devem estar nos locais que se usam menos. Faz toda a diferença. Depois há sempre um efeito de retorno que é fundamental ser contrariado. No caso dos carros é bastante conhecido — eu tinha um carro que consome muito, troco por um que consome pouco e começo a andar mais — e no da iluminação também acontece. O desejável é que as pessoas também contrariem essa tendência. Os comportamentos corretos na gestão da iluminação têm de continuar, mesmo quando se vai ganhar em termos de consumos.

Depois da UE, a medida será alargada a outros mercados? Há o risco de as pessoas começarem a comprar lâmpadas de halogéneo, mais baratas, através da internet?
O alargamento global não está previsto, mas basta as pessoas fazerem as contas para perceberem que não compensa. Os cálculos feitos por colegas de outras associações ambientalistas na Europa, que foram ver os valores em sites como o [de compras online] eBay, mostram isso. Já não há lâmpadas de halogéneo cujo preço, face à durabilidade em causa, compense essa compra online no mercado extraeuropeu.

E quanto ao processo de fabrico, as lâmpadas LED são também mais ecológicas? Ou é do lado da poupança de resíduos que o ganho se fará?
No fabrico não há propriamente ganho em relação às de halogéneo, mas ele existe em relação às florescentes compactas (CFL) uma vez que estas levantam alguns problemas pela presença de mercúrio, apesar de extremamente diminuta. Nos resíduos estamos a falar de uma poupança que tem que ver com a duração do produto, que é quase oito vezes maior (15 mil horas em vez de 2 mil).

Quando é que os resultados do fim das lâmpadas de halogéneo serão visíveis? Há novos passos a dar em breve?
A mudança já está a ver-se, uma vez que tudo isto já faz parte de uma transição, mas não acredito que tenhamos uma queda de consumo de um dia para o outro. Há muitos consumidores que ao longo do tempo fizeram principalmente a transição para as CFL e que vão fazer para as LED. Já há um draft que aponta, à partida, para o fim das fluorescentes compactas em 2020.

FRANCISCO FERREIRA

Professor na área de ambiente na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, tem marcado presença nas principais conferências das Nações Unidas sobre alterações climáticas e desenvolvimento sustentável nos últimos anos. Na ZERO, acompanha as áreas de alterações climáticas, energia e mobilidade