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Faça turismo, pela sua saúde

O francês Xavier de Maistre escreveu uma das grandes obras da literatura 
de viagens sem ver para lá das quatro paredes a que esteve confinado durante 
dois meses. Para os turistas de saúde, um quarto de hospital é também, 
mais do que um ponto de partida, o centro de toda a viagem

Carlos Esteves

Carlos Esteves

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É raro o dicionário emocional de um viajante incluir palavras como médico, hospital, cirurgia, anestesia, seringa. Quase tão raro como um vídeo promocional de um país preferir a oncologia e a obstetrícia à praia ou ao clima, sobretudo se for costeiro e ameno o país de que se fala. Numa altura em que Portugal bate todos os recordes de turismo, há um segmento que permanece desconhecido para a maioria dos estrangeiros. “Se perguntar a um alemão se os cuidados de saúde em Portugal são bons, ele não faz ideia”, alerta Joaquim Cunha, diretor executivo da Health Cluster Portugal (HCP), associação responsável pelo vídeo “Portugal, Um Destino Privilegiado de Turismo Médico”. O filme, que pode ser visto no site Medical Tourism in Portugal e a bordo dos voos de longo curso da TAP, é uma das formas de contrariar aquilo a que Joaquim Cunha chama a “não-imagem” sobre a medicina em Portugal, principalmente entre europeus.

“Nós sabemos que a nossa oferta é análoga a qualquer país da Europa, mas eles não. E não adianta nós sabermos enquanto eles não souberem”, insiste o responsável da HCP. “Eles” são os cerca de 14 milhões de pessoas que todos os anos marcam viagem com o principal, por vezes único, objetivo de receber tratamento médico, um número que cresce à razão de 25% ao ano. Não que a ideia seja nova, mas o que antes se limitava a um grupo restrito de pessoas, as endinheiradas, e a um certo tipo de tratamento, em Spas e estâncias termais, é hoje um enorme, mais acessível e lucrativo mercado, que obrigou a distinguir conceitos. O turismo de saúde passou assim a designar uma espécie de chapéu, onde cabem o turismo de bem-estar, ligado às termas e à harmonia física, mental e espiritual, e o turismo médico, de que aqui se trata. Para isso muito contribuíram as companhias aéreas low cost, e a democratização das viagens em geral, às quais Joaquim Cunha acrescenta outra variável: “Um fenómeno, que aparentemente estará para ficar, é a saúde tornar-se um bem transacionável, algo a que não estávamos habituados.”

Em 2011, a União Europeia parecia dar um passo nesse sentido, ao publicar uma diretiva que ambicionava criar um mercado único da saúde, que daria aos europeus liberdade para escolher o país em que preferiam ser tratados. “Se os espanhóis estão melhor numa especialidade, porque não irmos lá e o contrário também acontecer?”, pergunta Joaquim. A ideia era prometedora, mas não resultou, na opinião do responsável porque “os países tiveram medo, foram protecionistas.” A fatura, que deveria ser paga pelo país de origem do utente, levou a que os estados tivessem “receio de desequilíbrios na balança de pagamentos”, tendo por isso criado “medidas restritivas”.

Foi o que encontrou Ana Rita Garcia quando partiu para uma tese de mestrado sobre o tema (“O Turismo Médico em Portugal: Perspetivas no Contexto Europeu”, Universidade de Lisboa, 2015). A falta de informação e de dados fidedignos quase a fizeram abandonar a ideia, e a conclusão a que chegou — de que “não existem políticas públicas, nem europeias nem nacionais” para este mercado — foi, no caso português, uma “frustração”. “Não faz sentido um país tão consolidado no turismo não apostar neste segmento”, lamenta, lembrando que “o turismo médico até foi mencionado como emergente” no Plano Estratégico Nacional do Turismo 2013/2015. O plano destacava os “serviços médicos de qualidade” que podiam fazer do país um “destino de excelência para o tratamento de determinadas patologias”, mas o certo é que, diz Ana Garcia, “tudo andou pouco, quase nada, e ainda está por desenvolver”.

É difícil quantificar um mercado não regulado, em que os números podem ser “mascarados”, como acontece em alguns países asiáticos. Ana Garcia conta que é frequente misturarem-se “turistas médicos com os que já estão num país, por exemplo, a fazer uma caminhada, se aleijam num pé” e recorrem depois a um hospital local. “Isso não é um turista médico”, esclarece, assim como não o são imigrantes e refugiados, “muitos incluídos nas estatísticas”. Porém, mesmo sem máscaras, é na Ásia que estão os maiores importadores, entre Índia, China, Malásia ou Tailândia. É para lá que vai a grande maioria dos turistas dos Estados Unidos e do Médio Oriente, onde, explica Ana Garcia, “existe um mercado limítrofe, em que a proximidade linguística e cultural é importante”. O topo das preferências fica completo com a América Central, especialmente Cuba, México e Costa Rica. Porém, segundo o relatório “Turismo de Saúde”, feito por um grupo de trabalho que juntou os Ministérios da Saúde e do Turismo portugueses durante o Governo PSD/CDS, os europeus continuam a preferir o velho continente para se tratar, na Alemanha, na França ou no leste europeu. O atraso português, não nos serviços mas na divulgação do que eles fazem, significará pois uma perda potencial de milhares de euros.

Diferenciar para reinar

Quem vir os homens entre o fim da juventude e a meia-idade que passeiam pelas ruas de Istambul com uma fita preta na cabeça, não deve julgar-lhes o talento estético, muito menos tomá-los como parte de uma moda passageira. O que se passa na Turquia é uma procura crescente de transplantes capilares, motivada por cirurgiões experientes, equipamento de qualidade e preços baixos, que nem a instabilidade política estancou. O processo é comum a outros países e ajuda a explicar dois conceitos fundamentais do turismo médico — a especialização e a confidencialidade.

Chris tinha 30 anos quando decidiu fazer a cirurgia na capital turca e explicou, em entrevista à BBC, que o transplante “aumenta o rosto”, provoca “crostas e cicatrizes” e deixa um cenário que “não é bonito de se ver”. Só passadas duas semanas o corpo volta ao normal e, por isso, Chris dizia — “é nessa altura que planeio reintroduzir-me na sociedade.” Antes, o britânico gozaria daquilo a que neste segmento se chama um pacote follow-up, uma extensão da viagem promovida pelos facilitadores — organizações que fazem a ponte entre turistas e hospitais no destino —, que serve para que o paciente seja acompanhado após a intervenção, ou para que recupere a imagem antes de ser visto onde todos o conhecem. Esta última razão “tem muitas vezes que ver com o facto de, em certos países, algumas práticas não serem legais ou bem aceites pela sociedade”, explica Joaquim Cunha.

O caso da Turquia é só mais um exemplo de que a especialização conta, facto que não escapa aos países europeus. “A Hungria especializou-se na medicina dentária e, embora beneficie por estar no centro da Europa, é hoje frequente um austríaco, um alemão ou um suíço ir à Hungria tratar dos dentes”, comenta o diretor executivo da HCP. Um caminho que “Portugal ainda não encontrou”, não só porque os prestadores de serviços dizem estar “capacitados para qualquer área”, como porque é preciso uma divulgação também especializada. “Se o cliente-alvo é angolano, à falta de melhor no país de origem, se calhar oferecemos o cardápio todo”, comenta Joaquim. Mas se o cliente vier da Rússia, é preciso mostrar-lhe algo que ele não encontre no Leste ou no bloco central europeu. “Nenhum russo vem ao Porto de propósito tirar um dente”.

Felizmente, já há quem venha ao Porto de propósito pôr coisas no lugar. Ana Rita Garcia aponta a “grande procura a nível mundial” da Clínica Espregueira Mendes como um exemplo de que é possível, em certos nichos, Portugal ser referência. A também conhecida por Clínica do Dragão é especialista em medicina e traumatologia desportiva e a única portuguesa acreditada como FIFA Medical Centre of Excellence, título que serve de íman para atrair futebolistas de renome, de clubes como FC Porto, Real Madrid, Barcelona, AC Milan ou Tottenham. Também graças a eles, o número de clientes disparou e os atletas de alta competição representam hoje uma minoria das centenas de consultas diárias da clínica. Um estrangeiro que opte pela Espregueira Mendes tem direito a visitas guiadas pelo Porto, recomendações de restaurantes, entre outros apoios, que lhe permitem ver a cidade para lá da maca. É para isso que, lembra Ana Garcia, “as unidades principais já criam gabinetes próprios para cidadãos estrangeiros”, que selam “acordos com facilitadores ou fazem eles [os gabinetes] esse trabalho de procurar uma unidade hoteleira, por exemplo”.

A Medical Port é uma dessas entidades e a CEO, Belén de Vicente, explica que o trabalho é tão abrangente que a palavra “facilitador” não o define. “Nós ouvimos necessidades e entendemos problemas, orientamos o cliente para a solução mais adequada (prestador, tratamento, especialista), acompanhamos a estada para tudo o que for necessário, validamos as faturas emitidas pelo prestador, garantimos a emissão dos relatórios médicos em inglês, avaliamos a satisfação com o ato médico, entre muitas outras atividades”, resume ao Expresso.

Riscos e destinos

Preço, qualidade dos tratamentos, por vezes indisponíveis ou ilegais no país de origem, segurança e potencial turístico do destino, listas de espera reduzidas e afinidades culturais são os principais motivos destas viagens. Não necessariamente por esta ordem. “Para mim começa a ser claro que quem procura outro país para serviços médicos quer a qualidade dos mesmos. O clima é importante, até porque nalgumas patologias isso pode ajudar, mas as pessoas não escolhem o destino médico porque a seguir a serem operadas podem ir jogar golfe”, enfatiza Joaquim Cunha, concluindo: “A imagem da segurança do país também conta”. Ana Rita Garcia concorda: “A associação que por vezes é feita entre alguns países asiáticos e o tráfico de órgãos” é suficiente para dissuadir muitos turistas, mesmo que o preço seja menor.

É por isso que escolhas informadas e conscientes são obrigatórias. “Se um tratamento corre mal [a pessoa] vai ter que gastar mais noutros tratamentos, entrar com um processo em tribunal no país de destino, porque isto nunca é tratado no de origem”, alerta Ana Garcia. Os riscos são inúmeros e fáceis de perceber, e “não existe um quadro regulatório que dê segurança ao turista médico”. O mercado está entregue ao sector privado e Portugal é um exemplo para se perceber porquê: “Como é que um diretor de hospital podia lidar com uma fila de espera se na sala ao lado estivesse alguém de outro país a ser operado?”, pergunta Joaquim Cunha, respondendo de imediato: “No dia seguinte, o diretor estava desgraçado.”