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Os novos antigos produtos

Ambiente. Morte ao descartável, longa vida ao reutilizável. Em nome do ambiente, famílias voltam ao passado, plástico free

Cristina Bernardo Silva

Produtos que julgávamos mortos e enterrados — muitos deles descartados pelos descartáveis — regressam em força após uma ausência de décadas. É uma espécie de redescoberta dos hábitos de vida dos nossos pais e avós, que, talvez sem o saberem, praticavam um consumo consciente.

“A minha avó era zero desperdício. Os poucos sacos de plástico que usava ficavam no estendal a secar, porque ela lavava-os para poder usá-los de novo”, conta Inês Espada Nobre, autora do blogue “Slower”, uma plataforma colaborativa que partilha formas de viver mais sustentáveis. “Pareceu-me certo, quando iniciei esta caminhada, pedir ajuda às minhas avós. Uma vida sem desperdício era voltar ao tempo delas, às coisas feitas artesanalmente, reaproveitadas ao máximo, consertadas, remendadas.” É o regresso do vidro, do tecido, numa guerra assumida contra o plástico.

Procurar objetos antigos é uma solução possível, mas também há quem os compre novos. A prová-lo está um número crescente de empresas de artigos ecológicos que fabricam e vendem produtos que eram utilizados antigamente. Uma maior consciência ambiental, que é inegável, leva a uma maior oferta de alternativas ecológicas.

Segundo um estudo realizado pelo Fórum do Consumo em parceria com a Universidade Lusófona e o IADE/Universidade Europeia, no âmbito do Observatório do Consumo Consciente, as atitudes e preocupações dos consumidores portugueses com o meio ambiente aumentaram 8,5% em 2017 face a 2016. No entanto, o mesmo estudo concluiu que os consumidores não estão dispostos a pagar mais por produtos sustentáveis. Segundo o presidente do Fórum do Consumo, José António Rousseau, a tendência de aumento da preocupação “não corresponde à materialização dessa preocupação” quando isso implica abrir os cordões à bolsa.

Se é certo que os novos antigos produtos são mais caros (e menos práticos) do que os equivalentes descartáveis, ao fim de algum tempo a proteção do ambiente poderá revelar-se um bom investimento e traduzir-se em poupança, como no caso das fraldas de pano.

“Às vezes queremos mudar o mundo todo de uma vez e, quando nos apercebemos da tarefa hercúlea que temos pela frente, acabamos por desistir ou achar que não somos capazes”, alerta Inês Espada Nobre. “Não precisamos de fazer tudo a correr. Haverá retrocessos e alturas em que iremos ceder. As grandes superfícies não estão preparadas para isso e estamos constantemente a ser bombardeados com apelos ao consumo.” Na sua opinião, a redução de lixo é um caminho que se percorre devagar. “Comece, por exemplo, por trocar as escovas de dentes convencionais pelas de bambu. É das mudanças mais fáceis. Depois, troque o gel de banho pelo sabonete. A seguir, comece a levar uma garrafa ou um copo reutilizável para o trabalho, livrando-se dos copos das máquinas da água e do café. Mudança a mudança, irá mudar o mundo e inspirar outros a seguir o seu exemplo.”

Giletes reutilizáveis

Em vez de giletes de plástico descartáveis, Inês Espada Nobre investiu numa de cabo fixo para o marido e comprou também um lápis hemostático. “Já estava a imaginá-lo como o meu pai, quando eu era miúda, com a cara cheia de papelinhos.” O suporte é sempre o mesmo, só as lâminas é que têm de ser substituídas. Dão mais trabalho do que as giletes de plástico, mas não muito.

Escovas da louça

Catarina Matos, que criou a loja online Mind the Trash, onde comercializa produtos orgânicos e ecológicos, não hesita em afirmar que as escovas para lavar a louça feitas de madeira e cerdas naturais, da própria marca, são um dos maiores sucessos da sua empresa. “Esgotaram-se muito rapidamente, e foi notória a quantidade de clientes a querer desistir da esponja da louça.”

Palhinhas de trigo

Alexandra Pardal, da loja Sapato Verde, em Lisboa, comercializa vários artigos ecológicos, além de calçado, vestuário, produtos de limpeza e cosméticos. Realça o sucesso das palhinhas de trigo natural, ideais para festas, uma vez que são 100% biodegradáveis. “Remontam a antigamente, mas só fiz essa ligação quando um cliente, já com uma certa idade, veio à loja e disse lembrar-se de beber com elas quando era miúdo.” As palhinhas de plástico são atualmente alvo de uma campanha ambientalista. A sua utilização é desnecessária no consumo da maioria das bebidas e, apesar de representarem apenas uma pequena parte de todo o plástico que vai parar ao oceano, são, devido ao seu tamanho, um dos poluentes mais prejudiciais, por serem ingeridas por animais marinhos.

Garrafas de vidro

Há para todos os gostos, em vários sites de produtos ecológicos. As garrafas de vidro são reutilizáveis, enchem-se em casa e levam-se para todo o lado. Estão geralmente envoltas em silicone ou algodão, o que as torna mais bonitas e ajuda a amortecer eventuais quedas. São uma excelente alternativa às garrafas de plástico reutilizáveis, que, apesar de terem uma duração bastante superior às de plástico descartáveis, constituem, ainda assim, uma má solução em termos ambientais.

Pensos higiénicos em tecido

Estima-se que cada mulher utiliza, em média, cerca de 17 mil pensos higiénicos e tampões descartáveis ao longo da sua vida fértil, produtos esses que levam muitas décadas a decompor-se. Atualmente, quase todos os sites ecológicos vendem pensos de tecido, laváveis, com materiais absorventes e molas que evitam que se desloquem. Inês Espada Nobre garante que a mudança não é difícil de fazer. “As minhas avós diziam que eu estava louca quando lhes comuniquei que ia começar a usar pensos de pano. É que, no tempo delas, os pensos não eram feitos como os que eu uso hoje em dia, e elas só sossegaram depois de lhos mostrar”, explica, referindo que os pensos laváveis atuais “são muito absorventes e não deixam passar nada. Foram o melhor investimento de sempre. Não só são mais amigos do ambiente como a carteira agradece”, assegura.

Discos de algodão laváveis

São fáceis de encontrar em lojas de artigos ecológicos e são ótimos substitutos dos discos de algodão descartáveis, que se usam apenas uma vez. A sua composição é geralmente 100% algodão orgânico e, em vez de os deitar para o lixo, poderá deitá-los para a máquina de lavar ou lavá-los à mão logo depois de os usar. “Trata-se de uma alternativa mais durável e sustentável”, diz Catarina Matos, lembrando que os discos de algodão descartáveis têm ainda a desvantagem de serem comercializados em embalagens de plástico, o que não sucede no caso dos laváveis.

Fraldas em tecido

Para as avós que há mais de quatro décadas tinham de lavar todos os dias uma série de fraldas de pano, as fraldas descartáveis foram uma verdadeira bênção. Mas uma maior preocupação com questões ambientais leva cada vez mais pessoas a optar por fraldas laváveis, uma vez que as descartáveis acabam por ser mais caras e muito poluentes. A oferta é variada e através de uma pesquisa rápida encontrará sites de produtos ecológicos — muitos dos quais inteiramente dedicados a produtos para crianças — que vendem fraldas laváveis, em tecido. Terá de fazer um investimento inicial maior, de forma a ter sempre fraldas à mão, mas no momento em que a criança deixar de as usar terá poupado várias centenas de euros, assim como o ambiente. Tenha, contudo, em conta que o impacto ambiental não é negligenciável, uma vez que irá gastar água, detergente e energia nas lavagens.

Sacos de pano

Alexandra Pardal, que comercializa “saquinhos de tecido feitos do reaproveitamento de outros tecidos, de lenços, camisas, etc.”, diz que há cada vez mais pessoas a usá-los como antigamente, para o saco do pão, a fruta e os legumes”, em vez dos sacos de plástico. Inês Espada Nobre foi ao enxoval que trouxe de casa da mãe e encontrou por lá o famoso “taleigo”, um saco que era feito de restos de tecido e roupa usada. “Nunca mais fui ao pão sem levar o meu próprio saquinho de pano”, diz.