Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

#família. O meu irmão, o Paulo

O Paulo nos Rangers de Lamego

O Paulo nos Rangers de Lamego

d.r.

Deixem-me falar-vos do meu irmão. O Paulo é o mais novo dos três: nasceu três anos e meio depois de mim, cinco depois da nossa irmã, a Rute. Em miúdo, era um magrela traquina que adorava uma boa escaramuça, mas que, invariavelmente, levava mais do que dava. Sempre que se metia comigo, a minha estratégia era a mesma: deixava que ele avançasse primeiro e depois arrumava-o com um sopapo, alegando legítima defesa. E ele lá ía, soluçante e ranhoso, para um canto.

O Paulo viveu a sina dos irmãos mais novos, na sombra de uma irmã que era um ratinho de biblioteca e tirava nota máxima a todas as disciplinas menos a Educação Física e de um irmão que tentou sempre superá-la, mas só o conseguiu quando ela começou a namorar. O Paulo era um aluno razoável e isso bastava-lhe. O que queria mesmo era curtir com os amigos e fumar umas brocas, o que lhe valeu alguns encontros com a polícia. Não creio que nessa altura imaginasse que um dia seria um deles.

Por causa da Matemática, repetiu duas vezes o 12.º ano. Quando, por fim, acabou o liceu foi estudar Psicologia para o Instituto Universitário da Maia – ISMAI porque não tinha média suficiente para entrar numa universidade pública. Então algo nele mudou: tornou-se mais responsável, ambicioso, acabou entre os melhores do curso. Foi um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Psicologia da Justiça e ajudou a organizar a os seus primeiros congressos internacionais. Enquanto sonhava com a Polícia Judiciária – queria ser um CSI à portuguesa – ia dando formação para pagar as contas.

d.r.

Um dia, farto da instabilidade dos recibos verdes, disse-nos que ia para o Exército. Não para uma tropa qualquer, mas para as Operações Especiais, os famosos Rangers de Lamego. Ninguém lhe percebeu o impulso: em casa falava-se pouco do tempo em que o nosso pai estivera na guerra colonial e todos sabíamos que se dependesse dele nunca teria ido. Que o meu irmão fosse para o Exército parecia a todos uma opção sem sentido. A nossa mãe chorou durante dias, como quando a Rute foi estagiar para a Holanda e por lá ficou.

O Paulo já não era um lingrinhas quando entrou no Centro de Treino de Operações Especiais. Crescera no ginásio, mas percebeu depressa que a força necessária para fazer o curso de seis meses era mais mental do que física. A imagem que guardo desses tempos é a dele a deitar-se no sofá quando vinha a casa e dormir praticamente durante 48 horas, só abrindo os olhos para comer qualquer coisa, porque o treino é feito em privação de sono. Foi posto à prova, agredido, torturado, e fez quase toda a formação com o quinto metatarso de um pé partido porque não queria desistir, como aconteceu com mais de metade dos candidatos.

Há umas semanas, contou-me que quando lhe punham à frente o papel que podia assinar para desistir encontrava forças numa imagem: a do nosso pai a colocar-lhe a boina na cabeça durante a cerimónia de formatura. Não estive lá nesse dia, como não estive em muitas outras ocasiões, por causa desta droga maldita chamada jornalismo que nos consome o tempo todo. Se pudesse fazer o relógio andar para trás, não teria faltado.

Por uma questão de honra, Paulo saiu das Forças Armadas dois anos depois de ter entrado, num processo kafkiano em que lhe foi negada transferência para o Centro de Psicologia Aplicada do Exército Português porque alguém entendeu que não tinha formado “uma máquina de guerra para esta se sentar atrás de uma secretária”. Foi para a Polícia de Segurança Pública (PSP) à procura de mais estabilidade (os contratos do Exército só podem ser renovados por um período máximo de seis anos; sete se o militar optar por primeiramente entrar em regime de voluntariado), fez uma pós-graduação em segurança interna e um mestrado em Direito, onde, cruzando as experiências de polícia e de investigador, propõe uma revisão dos métodos de entrevista para recolha de prova testemunhal.

Quando vejo as generalizações abusivas e insultuosas que alguns fazem sobre a polícia, tenho pena que não conheçam o meu irmão e outros agentes como ele, homens dedicados à causa pública que arriscam a vida por menos de 1000 euros por mês para que possamos viver em segurança. Um dia, quando começou ao serviço numa esquadra da Margem Sul, colegas contaram-lhe que não entravam num bairro problemático porque era demasiado perigoso. E ele, que não se encolhe perante nada, lá conduziu o carro patrulha para dentro do bairro. Acabaram apedrejados. Voltou dias depois, com o mesmo resultado. Da terceira vez que lá entrou, fez a patrulha a pé. É esta a massa de que ele é feito.

Comovo-me com a sua paixão e com as suas histórias. Como daquela vez em que descobriu e libertou uma mulher mantida sequestrada pelo próprio companheiro em condições infra-humanas, o que lhe valeu um louvor; ou aquela véspera de um 10 de Junho em que, já fora de serviço, viu um taxista ser assaltado e apanhou boleia de um militar para encetar uma perseguição que terminou com a detenção do criminoso; ou quando teve de correr atrás de um assaltante de casas e, depois de o deter, acabaram todos – ele, os colegas e populares – a vasculhar o mato à procura da aliança que tinha perdido.

Por vezes, quando alguns colegas jornalistas sobrevalorizam o trabalho que fazemos, gosto de dizer que não andamos propriamente a salvar vidas. Não procuramos tratamentos para o cancro e outras doenças, como a minha irmã, ou zelamos pela nossa segurança, como o meu irmão. Quando ele era adolescente, ria-me da sua inconsciência: um dia ouviu uns tiros na vizinhança e saiu para a rua segurando um bastão de basebol na mão, como se pudesse dar uma tacada numa bala. Hoje orgulho-me do homem em que se tornou: um pai extremoso, um polícia dedicado, um investigador que está a preparar dois livros para uma editora internacional. Quando leva os seus trabalhos académicos a congressos e o apresentam como “Doutor Paulo Marques” é lesto a corrigir: “Agente Marques”. Polícia antes de tudo o mais. “Não há melhor sensação do que pôr as algemas num criminoso e sentir que já o apanhei”, conta-me.

Não sei se lhe disse vezes suficientes o orgulho que tenho nele.