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A inconsciência ajudou-os a sobreviver à saudade

d.r.

Quando alguém deixa o seu país, por vezes há um filho que perde o direito a estar todos os dias com o pai ou a mãe – alguns, com os dois. “Ó meu filho, aqui é que há trabalho”, diz o pai de Fábio, emigrado em França. E se tem de ser, então é. Também Maria Luísa é filha de um homem que foi trabalhar para a Alemanha nos anos 70. “Tive o meu pai muito pouco.” No dia do Emigrante, contamos as histórias de filhos de pais que foram sem saber quando voltavam a casa

Lá em casa a confusão era grande. A mãe há dias que chorava, o pai abraçava-a. Havia malas por fazer, roupas por arrumar, despedidas por ter. Joaquim Rocha viajava para a Alemanha durante a noite, ia emigrar. No meio da azáfama de quem se prepara para mudar de vida estava a filha mais velha, Maria Luísa, que tinha outra azáfama dentro dela: fazia dez anos e ninguém lhe preparava uma festa com chá e bolinhos, como acontecia todos os anos. Os crescidos não se lembraram do aniversário - nem havia dinheiro para o pão de ló - ou de chamar as amigas para lanchar. Essa era a dor de Maria Luísa, que fazia dez anos. O que não percebia é que fazia dez anos e no dia seguinte - e nos outros todos a seguir - já não ia ter o pai.

“Nunca me explicaram que o meu pai se ia embora. Na semana anterior, fui percebendo que algo se passava e sabia que não era bom.” Maria Luísa Rocha tem hoje 56 anos e dois filhos. Vê tudo o que aconteceu naqueles dias de forma bem diferente daquela que viu aos dez anos. Sabe o que custou aos pais, fizeram-no porque tinha de ser. Só assim a família podia pagar as dívidas da empresa de produtos alimentares que em tempos tivera.

No dia que agora relembra, adormeceu ao som da máquina de costura da mãe. Quando acordou, o pai já partira e a mãe continuava a coser. “Passou noite e manhã a costurar sem parar. Queria ir entregar um vestido a uma cliente o mais rápido possível, precisava do dinheiro para comprar comida e dar-me almoço. Não tinha nada, todos os tostões foram para o meu pai, que também não tinha quase nada. Para a viagem e para não ficar desamparado ao chegar à Alemanha.” Estávamos em 1972.

Maria Luísa com a irmã Natália quando foram para junto do pai, na Alemanha

Maria Luísa com a irmã Natália quando foram para junto do pai, na Alemanha

d.r.

Joaquim Rocha, o pai de Maria Luísa, saíra de casa para uma cidade pequena a cerca de 30 quilómetros de Dortmund. “Antes, o meu pai também foi camionista e, por isso, estava habituada a não o ter comigo todos os dias. Com aquela idade não percebi que o meu pai ia para o estrangeiro. Não tinha consciência do que se passava e talvez tenha sido isso que me ajudou a lidar com a ausência e a falta que me fazia.” A inconsciência ajudou-a a sobreviver à saudade.

O mesmo aconteceu a Fábio Lourenço. Tem 20 anos, quase 21. Não se lembra ao certo mas foi há sete ou oito anos que o pai deixou Portugal. Primeiro para França, depois Caraíbas e agora novamente França. Paulo Martins trabalha em Gravenchon, no norte do país, a poucos quilómetros do Canal da Mancha. “Mesmo quando estava cá não o via muito porque trabalhava longe… quase só o via a cada duas semanas. Não foi um choque ele ter emigrado.” O mais complicado, conta, é o irmão mais novo, Martim, com seis anos.

“Durante estes anos quase tive de ser uma figura paternal para o meu irmão. Acho que não tem muita noção que o pai está fora, também nunca questionou o porquê de não estar.” Fábio faz os trabalhos de casa com Martim, tenta ajudar no que pode. “Ensino-lhe a importância de respeitar os outros e todos aqueles valores que normalmente são passados pelos pais.”

Paulo nunca perdeu momentos importantes da vida de Fábio. Quando for a cerimónia de final de curso, vem a Lisboa. O jovem preocupa-se mais com o que o pai pode estar a perder do crescimento do irmão (“ainda por cima acabou de fazer seis anos, é uma fase em que há muitas mudanças”). “O meu pai questiona-se se vale a pena estar longe. Foi para sustentar a família, mas ao mesmo tempo está a perder a família”, diz.

Videochamadas podem ser altamente traumáticas

“Estou?” O telefone toca quase todos os dias mais ou menos pela mesma hora, pouco depois do jantar. Às vezes é chamada de voz, outras videochamada. “Como estás? Está tudo bem?”, pergunta o pai. “Sim. E contigo?”, responde e pergunta de volta. “Como correu a escola?” Fábio está a estudar Finanças no ISEG – Lisbon School of Economics & Management. A conversa é sempre igual. É raro o dia em que não se falam.

O pai de Fábio vem a Portugal três vezes por ano para visitar a família

O pai de Fábio vem a Portugal três vezes por ano para visitar a família

d.r.

“A tecnologia obviamente ajuda, mas também aumenta a saudade”, explica o pediatra Mário Cordeiro. “Para crianças pequenas, o telefone é um bom meio de fazer ‘prova de vida bilateral’, já as imagens do Skype ou videochamadas podem ser altamente traumáticas porque falta o tato, o cheiro, o toque, a proximidade, o enlevo. Um ecrã é uma coisa fria, sem nada de humano, e terrível, em que se pode ‘matar’ o outro ao carregar na tecla.” Pelo contrário, as fotografias ajudam. Remetem para memórias - e isso pode ser bom. Tal como falar do que faziam, dos passeios que deram, das brincadeiras. É preciso alimentar a imagem de que um dia podem estar juntos outra vez.

Nos anos 70, ter notícias de quem estava longe era bem diferente. Maria Luísa sabia do pai pelas cartas que a mãe recebia e lhe lia em voz alta. Mas não sabia muito. “Ouvi-a muitas vezes contar à madrinha dela como estava o meu pai.” Na altura a irmã de Maria Luísa, Natália, ainda nem tinha um ano. A ausência do pai obrigou Maria Luísa a crescer um bocadinho mais depressa. Tinha de cuidar da bebé algumas vezes, ajudar a mãe sempre que preciso.

Quando o pai de Maria Luísa foi para o estrangeiro, o número de emigrantes portugueses rondava os 66 mil. Atualmente, os números são mais elevados (81 mil, segundo a base de dados Pordata), tendo ultrapassado os 100 mil significativamente nos anos de crise económica – 134 mil em 2014.

Maria Luísa, à direita, com as amigas numa visita a Portugal durante as férias

Maria Luísa, à direita, com as amigas numa visita a Portugal durante as férias

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Quando um homem ou uma mulher emigram, por vezes há um filho ou filha que perdem o direito de estar todos os dias com o pai ou mãe ou ambos. “A ausência é sempre traumática, mesmo que possa ser mitigada e suavizada pela nova realidade e pelos adultos”, diz o pediatra Mário Cordeiro. “É sempre um grande choque, porque o medo de que os pais os abandonem é o maior medo das crianças, pelo menos das mais pequenas - representa a morte -, e será difícil conseguir que entendam o que vai acontecer, sobretudo quando os problemas são tão grandes e residem num mundo fora do que é o mundo infantil.”

“Ó meu filho, aqui é que há trabalho”

Poucas vezes Fábio chegou a casa e encontrou o pai à sua espera.“Ó meu filho, é aqui que está o trabalho”, explicava-lhe. E se é lá fora que está o trabalho, então é onde o pai de Fábio tem de estar. “Habituei-me a viver sem ele aqui.” Paulo vem três vezes por ano a Portugal. Verão e Natal são datas certas, a terceira varia. Este ano, por exemplo, foi na Páscoa, quando batizaram Martim.

Ao fim de um ano, Joaquim Rocha não veio a Portugal. Foram Maria Luísa, a irmã e a mãe que viajaram para a Alemanha. Venderam quase tudo o que tinham, não sobraram muitos brinquedos ou livros. Restou apenas o que cabia no carro para levar e uma ou outra coisa que os familiares conseguiram guardar em suas casas.

A família reuniu-se e enquanto o pai trabalhava numa oficina de pneus, a mãe fazia limpezas. Moravam num bairro só de alemães e isso não foi fácil para Maria Luísa: “diziam-me umas coisas e eu ria-me para eles. Não sabia alemão e respondia em português. Quando comecei a aprender a língua, percebi que me gozavam desde sempre por ser portuguesa e por falar uma língua diferente.” Até ao 7º ano esteve na escola portuguesa, às amigas de Lisboa mandava cartas e fotografias. Com Fátima e Feliciana manteve sempre o contacto – ainda hoje o mantém. Mas depois, teve de ingressar no ensino público alemão.

A primeira fotografia de Maria Luísa, aos 16 anos, quando regressou a Portugal

A primeira fotografia de Maria Luísa, aos 16 anos, quando regressou a Portugal

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Aos 16 anos, disse muitas vezes à mãe que preferia “comer pão seco em Portugal que um bom bife na Alemanha.” Em 1978 abriu-se uma janela de oportunidade para voltarem: Maria Luísa queria começar o curso de cabeleireira e Natália estava para entrar na escola primária. “Ou era ali ou já não era.” Com três viagens entre a Alemanha e Portugal voltaram a mudar-se. No entanto, o pai ainda ficou emigrado mais uns tempos. Cinco anos, na verdade. Quase tanto tempo como aquele que a família esteve toda junta em Dortmund.

“Talvez tenha sido um bocadinho egoísta, mas nessa altura – e apesar de já ser mais crescida - estava feliz mesmo não tendo o meu pai comigo. Estar em Portugal era o que queria e foi o que me aconteceu.” Quando Joaquim regressou a Portugal, já Maria Luísa estava para se casar e sair de casa. Dois anos depois, morreu com leucemia.

“Convivi pouco com o meu pai e é uma mágoa. Sinto falta dele. Precisava de ter tido mais tempo do que tive. Tive-o muito pouco. Não houve a oportunidade de lhe dizer o quanto gostava dele”, diz Maria Luísa. O que viveram juntos não lhe chegou, mas quando estavam juntos, estavam mesmo. Sempre que regressava a casa, Joaquim enchia as filhas de presentes. Um dia, ofereceu-lhes um rádio enorme que até tinha despertador.

Fábio não pensa como teria sido a sua vida, a de toda a família, se o pai não tivesse emigrado. “Nunca fui de pensar nessas coisas.” Para ele, a ausência não foi necessariamente negativa. Não foi fácil, mas tornou-o “Homem mais cedo”. “Não vejo isso como algo mau.”

“Eu não saio de cá”

Quer Maria Luísa, quer Fábio têm quase um espécie de trauma: nenhum quer sair de Portugal. Explicam-se com a mágoa que sentiram com a ausência constante, sabem o que foi para eles e para os pais. Não querem fazer o mesmo.

Fábio,13 anos, e o pai Paulo

Fábio,13 anos, e o pai Paulo

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“Só em último recurso, se não tiver mais nenhuma opção”, diz Fábio. O primo que trabalha no Reino Unido já lhe falou algumas vezes da ideia de ir para lá. Não quer, não quer e não quer. “Há prioridades e sei quais são as minhas.”

Os dois filhos de Maria Luísa são um pouco mais velhos que Fábio. Receou que com a nova vaga de jovens emigrantes qualificados, também os filhos escolhessem esse caminho. Teve medo, mas não aconteceu. “Fiquei com a tristeza da emigração.” Há uns tempos, o marido teve a oportunidade de ir trabalhar para Angola. Quando ele chegou a casa e lhe contou, a resposta foi imediata: “se quiseres, vai tu que eu não saio de cá. Prefiro sacrificar-me aqui do que emigrar.”

Maria Luísa nunca conseguiria deixar os filhos.