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Monchique. O homem que tem mais medo dos cães a uivar do que do fogo: “Não vou a lado nenhum”

TIAGO MIRANDA

Em Pinheiro e Garrado, em Silves, a GNR começou a retirar as pessoas a partir das 19h de terça-feira. David, que enviou os dois filhos pequenos para junto de familiares em Silves, recusa abandonar a casa. “Não sou um rato”

Júlia sai de casa para fumar um cigarro quando o relógio já se encaminha para as três da manhã. David surge a seguir. Estão desconfiados. Já disseram “não” à GNR. Não vão a lado nenhum. O fogo não está longe de Pinheiro e Garrado, em Silves, uma localidade com poucas casas, já quase deserta. O vento está incerto.

David, de 25 anos, é despachado e desenvolto na conversa. Júlia vai sorrindo, acabando-lhe as frases. Este rapaz, “um homem dos sete ofícios”, diz que não é “rato nenhum” para fugir, que espera o fogo se necessário. Não está preocupado com a casa, mas sim com o que mora para lá da fronteira das paredes brancas. “Casas? Há muitas. Dá-me mais pena com o que temos lá dentro, foi muito trabalho. A minha televisão que foi 160 euros… E a minha arca, que ainda não acabei de pagar? E a máquina de lavar? Como vamos levar as coisas? A gente sobe outra vez”, diz, sugerindo que se levantam novamente, caso o fogo lhes leve tudo. Não têm seguro de nada.

O discurso toca dois extremos. Por um lado, desvalorizam o fogo, que não vai conseguir lutar contra eles, preparados com a piscina de plástico, mangueiras e baldes. O chão à volta da casa é regado de hora em hora, às vezes menos. Por outro lado, sem darem por isso, mostram muito respeito, pois os dois filhos pequenos, Santiago e Lara, estão em casa de familiares em Silves. “Só os vou buscar quando tivermos a certeza que está calmo. A qualquer momento o vento muda.” O que é bem diferente de dizer: “Que fogo vai chegar aqui?”, ideias quase antagónicas que saíram da boca de David com poucos minutos de diferença.

Um cão, ao longo, uiva. David fica desassossegado. Troca umas palavras com a mulher.

- Odeio ouvir cães a uivar, porra. À espera da morte do dono…
- Isso é teoria, não pode ser verdade.
- É teoria, ‘tá bem.
- Já tive tantos cães a uivar e nunca morri, homem. Ainda estou aqui.
- Se calhar não eram teus.
- Tu fartas-te de uivar e não morri ainda.

E trocam risos, libertando qualquer tensão que possa estar por baixo da pele. Estão juntos há seis anos. Júlia é de Lagos, David mora ali desde os cinco meses. “É preciso levar a vida na boa”, diz David.

“A bófia anda por aí abaixo, não é? O que andam a fazer?”, pergunta Júlia. Veem-se os pirilampos dos carros lá ao fundo de vez em quando. As pessoas desta aldeia começaram a ser retiradas quando já passava das sete da tarde. David acha bem que levem os mais velhos e com dificuldades de mobilidade. A ele não levam, “nem que venham três carros”.

“O meu plano é ficar aqui até… sempre”, atira David. “Que fogo chega aqui? Está tudo encharcado. Vamos molhando. Pedi uma mangueira. Desde as 18h30 que tenho isto encharcado.”

Lassie, a cadela, estava irrequieta. “Ela come ratazanas deste tamanho”, diz Júlia, separando as mãos o suficiente para levantar algumas sobrancelhas. “Come ratos, ratazanas, osgas, moscas”, completa David, sorridente. “Olha aqui: Lassie, ataca! Css, css! Olha o bicho, vai buscar, vai! Vai já!”, convida ao rebuliço na vida da cadela.

David e Júlia estão decididos: não vão a lado nenhum. A GNR já avisara lá em baixo, no lugar onde cortam a estrada, que será complicado retirar pessoas de Pinheiro e Garrado. David tem uma estratégia: “Eu tenho um carro aqui e outro do lado da ponte. Eles pensam que me enganam, mas antes de serem GNR já eu andava cá a saber qualquer coisa. A mim não me enganam”.

O pai de David mora na casa acima. “Também não vai a lado nenhum. O meu pai está preocupado é com o estábulo da égua. Tem dois mil euros em palha.” O casal fica intrigado quando revelamos que ainda há vários carros pela aldeia, talvez indicando que ficaram pessoas para trás. “Há duas horas isto estava cheio de polícias para levarem as pessoas”, diz Júlia, que trabalha no restaurante.

Amanhã é dia de trabalho, a fadiga ataca primeiro a mulher. David diz que não precisa de dormir. “Estou habituado a ficar sem dormir. Amanhã é dia de trabalho, não há de ser porquê? Hoje também fui, quando soube que o fogo estava perto pedi ao patrão para vir para aqui…”. Pouco depois, já perto das três, Júlia recebe um telefonema dos familiares. Perguntam pelos filhos, está tudo bem. Voltam a trocar umas frases, para descontrair.

- Tenho de deixar é de fumar, o tabaco faz mal.
- Vou mas é dormir. Isto não se passa nada, nem dá ânimo.
- Ahh, dá ânimo é ver as chamas. Que lindo. Esta mulher está cada vez mais jeitosa, gosta é de ação...