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8 de agosto há 100 anos: o princípio do fim da guerra que era para acabar com todas as guerras

Universal History Archive/Getty

A batalha que deu início à ofensiva que havia de pôr fim à Primeira Grande Guerra aconteceu há 100 anos. Qual é a história daqueles cem fatídicos dias?

Luís M. Faria

Jornalista

Foi verdadeiramente, para usar um cliché, o princípio do fim. Às 4h20 do dia 8 de agosto de 1918, faz esta quarta-feira cem anos, os Aliados (França, Reino Unido e outras forças do então Império Britânico, mais os Estados Unidos) lançaram uma ofensiva em Amiens, no noroeste de França. A operação tinha sido preparada ao detalhe e em grande segredo. O seu objetivo principal era abrir as linhas ferroviárias que passavam em Amiens. Os resultados foram espetaculares.

Ao fim de um único dia, os Aliados tinham avançado uns extraordinários 13 quilómetros e os alemães tinham sofrido um número de baixas que os deixou desmoralizados. A batalha continuaria por mais dois dias, sempre com progressos, embora a um ritmo menos acelerado. No final, as perdas alemãs (80 mil só em pessoas, fora o armamento abandonado) foram quase o dobro das aliadas. Daí para a frente, os Aliados não pararam. Amiens representou o início da chamada Ofensiva dos Cem Dias, cuja conclusão foi a da I Guerra Mundial.

O primeiro enfrentamento bélico à escala planetária, a guerra para acabar com as guerras, a Grande Guerra, terminou às 11h do dia 11 de novembro de 1918. Iniciada como um conflito entre impérios, matou os quatro que existiam no continente europeu (russo, austro-húngaro, alemão e otomano). Reconfigurou igualmente muitas outras coisas no mundo, deixando uma herança que passa pela II Guerra Mundial, por problemas vários no Médio Oriente e pelo próprio recrudescimento periódico dos nacionalismos na Europa.

Dois mil aviões e 500 tanques

Como se sabe, o rastilho imediato da I Guerra Mundial foi o assassínio do imperador austríaco Franz Ferdinand por um nacionalista sérvio a 28 de junho de 1914. Sem estar aqui a descrever os intrincados sistemas de alianças que nessa altura entraram em jogo, digamos apenas que o terreno estava maduro para pegar fogo. Não tardou muito até boa parte da Europa se envolver numa guerra à qual outras partes do mundo se foram associando de uma forma ou outra.

Durante boa parte dos três primeiros anos, até 1917, a situação no terreno foi essencialmente de impasse. Nada o ilustra melhor do que a imagem mais estereotipada dessa guerra: as trincheiras. Obviamente, há séculos que se usavam trincheiras nas batalhas, mas os progressos tecnológicos - as metralhadoras, por exemplo - tornaram-nas mais necessárias do que nunca.

Outra imagem associada à I Guerra é a do gás e até há quem diga que a loucura que levou Hitler ao Holocausto poderá ter tido que ver com o facto de ter sido gaseado. Especulações à parte, há duas outras evoluções que têm sem dúvida que ver com o conflito de 1914-1918: os aviões de combate e o tanques. Na Ofensiva dos Cem Dias, ambos desempenharam um papel essencial, juntamente com todo o restante reportório de armamento disponível na altura. Aviões eram quase 2000, só por parte dos Aliados (os alemães tinham muito menos) e tanques ultrapassavam os quinhentos.

Realidade vs. teorias conspirativas

O estímulo principal para a ofensiva aliada foi aquela que os alemães tinham lançado nos meses imediatamente precedentes. O tratado de paz assinado em março com a Rússia bolchevique (uma das promessas de Lenine tinha sido retirar o seu país da guerra) acabou com a guerra a leste e permitiu-lhes concentrar-se na frente ocidental. Entre março e junho, a Ofensiva da Primavera (ou Ofensiva Ludendorff, segundo o nome do comandante alemão) foi uma corrida contra o tempo - uma tentativa de obter ganhos substanciais antes de o grosso das prometidas tropas americanas começarem a chegar para reforçar os Aliados.

Entre março e junho, antes de ser finalmente detida na segunda batalha do Marne, a iniciativa pareceu estar a resultar. Mas o seu valor era ilusório. Excelente em muitos aspetos, o exército alemão tinha problemas básicos de aprovisionamento, incluindo a nível humano. A Ofensiva da Primavera levantou-lhe o moral, mas custou-lhe ativos que lhe fariam bastante falta na segunda parte do ano, entre os quais milhares de soldados de elite que caíram no terreno.

A contraofensiva aliada mudou o curso da guerra. De repente, o longo impasse transformou-se em mobilidade. O avanço aliado revelar-se-ia irresistível e os altos comandos alemães depressa o compreenderam. Mesmo assim, decidiram prolongar o combate para tentarem ficar em melhor posição para negociar a paz.

Não lhes serviu de nada. Em outubro, os combates já aconteciam por trás da linha Hindenburg, antes considerada intransponível, e era visível que estava tudo perdido. As condições humilhantes que os Aliados impuseram e a Alemanha teve de aceitar deixaram o país de rastos. O imperador abdicou e o país tornou-se uma república. Uma república arruinada e com a violência à solta nas ruas.

No meio do caos que se instalou, não foi difícil pôr a correr a ideia de que o exército não tinha perdido a guerra - os civis é que o tinham esfaqueado pelas costas. Um grande fã dessa ideia era justamente Hitler, cujo destino subsequente ilustra na perfeição o perigo das teorias conspirativas. A verdade é que, a partir de Amiens, já não havia solução para a Alemanha. Tudo o resto não passou de imaginação.