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A caminho de Belmonte com o Honda Civic de quatro portas

d.r.

Pedro Álvares Cabral partiu de Belmonte para a corte lisboeta, prelúdio da descoberta do caminho marítimo para o Brasil. O Expresso fez o inverso: partiu de Lisboa para descobrir os segredos de Belmonte a bordo do Honda Civic Sedan diesel

Se esta é a má notícia, qual é a boa? É que o novo Honda Civic a gasóleo se revelou tão eficaz nesta viagem como as naus de Pedro Álvares Cabral na sua jornada atlântica. De facto, o apuro da suspensão e da direção permitiu minimizar os altos e baixos do piso, bem como fazer nas melhores condições encadeados de curvas dignos de uma super especial de ralis, como é o caso da longa curva junto ao nó de Rio de Moinhos.

A versão do Honda Civic 1.6 i-DTEC ensaiada não difere do ponto de vista mecânico da que tinha levado ao Rali de Portugal em maio (e sobre a qual escrevi oportunamente), ou seja, motor turbodiesel de 1600 cm3 com 120 cavalos e caixa manual de seis velocidades.

Apenas do ponto de vista de carroçaria há alguma diferença, com a quinta porta traseira a ser substituída, nesta versão sedan, por uma tampa de porta-bagagens. Independente do aspecto estético (e há que dizer que estas carroçarias de três volumes continuam a ter bastante público), há vantagens e desvantagens. Ganha-se em volume da bagageira (de 420 para 519 l) mas perde-se em ângulo de abertura da tampa da mala.

d.r.

Contudo, uma vez mais se comprova que a engenharia japonesa é sábia e dois botões permitem rebater as costas dos bancos traseiros a partir da mala, o que é genial se estivermos a querer transportar objetos longos, desde tábuas de engomar a pranchas de surf, de carrinhos de bebé a bicicletas.

Neste caso, na viagem de regresso de Belmonte a Lisboa, acomodou sem problemas a guitarra do meu amigo AP Braga que viríamos a encontrar em Belmonte participando num concerto de homenagem a José Afonso. O autor de “Cantares do Andarilho” fez nesta vila beirã a instrução primária na década de 40, enquanto os pais estavam destacados em Timor, presença que é evocada na toponímia do largo junto à judiaria e ao castelo, tudo meticulosamente recuperado no quadro do programa das aldeias históricas beirãs.

Nos 145 km entre Abrantes e Belmonte (e volta), já com outro traçado da A23, a viagem fez-se sem problemas e com uma rapidez assinalável. Exatamente na linha do observado durante a cobertura do Rali de Portugal o consumo andou pelos 5,8 l/100 km.

Falta falar do que custa esta décima versão do Honda Civic. Nesta versão sedan e pouco diferindo da de cinco portas (esta ligeiramente mais barata, à volta de 500 euros) os preços vão de € 27.800 (para a versão de entrada, a Confort) até € 33.700. A versão a gasolina do sedan não tem o interessante motor de um litro de cilindrada e 129 cavalos (só existente na versão cinco portas), dispondo de uma única motorização, a de 1500 cm3 e 182 cv, o que se reflecte no preço: a partir de € 28.350 (em vez de 23.000) até € 33.750.

d.r.

Os navegantes do século XV tinham que enfrentar mares desconhecidos, ventos adversos e muitos outros perigos, guiando-se somente pela bússola e pelo astrolábio. Para o automobilista moderno no trajeto entre Lisboa e Belmonte o problema não é a cartografia, que não falta, tanto em versão eletrónica como em papel, mas outras armadilhas.

Estas são de dois tipos: estado da via e custos. De facto, a A23, a auto-estrada que liga Torres Novas à Guarda (217 km) aproveitou tal qual estava a parte do IP6 entre Torres Novas e Abrantes. Este itinerário principal já tinha via dupla (1993/95) mas o perfil era, e é, muito sinuoso e o piso deixa a desejar ao longo dos 40 km entre o nó da A1 (km 94) e o nó de Abrantes Norte da A23.

Isso não impede que, não só este troço, muito anterior à criação das SCUT, tenha passado a ser portajado em 2011 (quatro pórticos eletrónicos), como se cobrem uns exorbitantes (para o estado da via) € 3,85 (em Classe 1). A título de comparação os 80 km na A1 entre Alverca e Torres Novas (84 km) custam € 6,55.

Portanto, não se trata de discutir em abstrato se as auto-estradas devem, ou não ser pagas por quem lá circula, mas sim o desajustamento entre o preço cobrado neste itinerário concreto (uma via rápida, projetada como tal) e o serviço proporcionado ao automobilista (cobrança de uma portagem por quilómetro superior à paga numa auto-estrada feita de raiz).