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Os sacos de plástico vão deixar de ser uma ameaça. Esperamos nós

Do Chile, vem a esperança: dois engenheiros inventaram sacos de plástico que se dissolvem na água

Rui Gustavo

Rui Gustavo

Jornalista de Sociedade

Um saco de plástico é barato e resistente. Pode ser usado para transportar compras ou para guardar quase todo o tipo de materiais, desde alimentos a lixo ou roupa de luxo. E é um veículo barato para publicidade a qualquer marca. Tem a grande vantagem de ser praticamente indestrutível. A única desvantagem é que é praticamente indestrutível. A grande invenção dos anos 70 tornou-se a grande praga do séc. XXI, invadindo a natureza por terra e mar e obrigando os países de quase todo o mundo a criar impostos e taxas para reduzir a utilização dos sacos de plástico feitos a partir de petróleo. A medida tem funcionado, mas não é suficiente.

Esta semana, dois engenheiros chilenos apresentaram ao mundo o que acreditam ser o saco de plástico do futuro. Mais do que biodegradável, é hidrossolúvel. Isto é, desfaz-se em contacto com a água, evitando assim a poluição marítima. Demonstrando grande confiança na própria invenção, Roberto Artete bebeu um copo de água onde tinha acabado de dissolver um dos sacos que inventou. Sobreviveu sem sequelas visíveis e o vídeo está no YouTube.

Os sacos, que vão ser testados no mercado chileno já em outubro deste ano, são feitos a partir de PVA, álcool polivinilico, dissolúvel em água. “É uma solução interessante que tem a grande vantagem de não deixar qualquer tipo de resíduo nem mesmo microscópicos”, elogia Paula Sobral, investigadora do mar e professora da Universidade Nova de Lisboa. No vídeo, é visível que a água fica branca. “É carbono”, explicou o inventor. “O carbono não tem qualquer tipo de desvantagem ou inconveniente, é o responsável pela vida”, confirma Paula Sobral.

O PVA é um material muito conhecido e já é usado em espessantes de cola, revestimentos de papel e até garrafas de água. “Mas ainda há coisas que não percebo. Se se dissolve com a água, o que é que acontece quando transportar alimentos húmidos ou congelados? E se chover?”, interroga-se a investigadora do mar.

Os dois inventores chilenos — Roberto Artete e Christian Olivares — sócios na empresa Solubag, explicaram na mesma conferência de imprensa que os sacos podem ser “programados” para só se dissolverem a determinada temperatura, preferencialmente fria, como a água do mar. “Mas nesse caso, o agente que terão de acionar para programar os sacos também é hidrossolúvel? Não dará origem a resíduos?”, duvida Paula Sobral.

“É como fazer pão”

Para Roberto Artete, a nova fórmula “é como fazer pão”, que precisa de farinha e de outros ingredientes. “A nossa farinha é de álcool polvinilico e outros componentes aprovados pela FDA (a agência americana reguladora de alimentos e medicamentos) que nos permitiu ter uma matéria-prima para fazer diferentes produtos.”

Gonçalo Carvalho, presidente da Associação de Ciências Marinhas e Cooperação — Sciaena, tem reservas sobre os benefícios da invenção: “Não sei ainda se há mesmo ausência de qualquer tipo de resíduos, mas o mais importante é que a aposta continue centrada na reutilização e na substituição de sacos descartáveis por sacos reutilizáveis. O caminho tem de ser a redução do consumo de plástico, não há outro.”

Segundo os dados do Portal Statista, a produção mundial de plásticos em 2017 totalizou cerca de 335 milhões de toneladas, 60 milhões só na Europa. Estima-se que 98% da poluição marítima esteja de alguma forma relacionada com o mar.

Os sacos de plástico “normais” — não biodegradáveis — podem demorar 400 anos a desaparecer na natureza; e os biodegradáveis, mais caros, seis meses.

Em maio de 1998, uma sonda submarina encontrou um saco de plástico de supermercado na Fossa das Marianas, Oceano Pacífico, a 11 mil metros de profundidade, onde a própria vida é muito rara. Ainda estava inteiro.