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... como a estrada começa

Viajar no cinzento do asfalto pode 
ser sinónimo de regresso a casa ou constituir 
uma via verde para partir à descoberta das cores 
da multiculturalidade do mundo

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

infografia

Jornalista infográfica

Há um verso que Mário Cesariny nunca soube — ou não quis — completamente explicar. “Ama como a estrada começa.” A ideia remete para o fascínio inerente a cada início, porque o amor é sempre um ponto de partida, sem a imposição ou a existência de uma meta, e, ao longo deste texto, convidamo-lo a desbravar a paixão pela estrada. O verão está aí e agosto vem a caminho.

Os dias estivais constituem uma via aberta para milhares de portugueses — emigrados pelos quatro cantos do mundo de regresso ao país, numa romaria rodoviária. “Vem devagar, emigrante”, cantava Graciano Saga, mas a saudade é combustível a carburar no interior de automóveis sobrelotados, mais do que promete a força mecânica, enfileirados invariavelmente na ‘meca’ de Vilar Formoso, para chegarem aos lugares travados na memória, onde abraços apertados esperam. Se as férias representam para muitos uma porta de entrada para a terra-mãe, outros encontram uma válvula de escape para as raízes do quotidiano e das rotinas em ponto morto. Fazem-se ao caminho e no cinzento do asfalto partem à descoberta da paleta de cores do planeta.

“Vamos lá! Agora podemos dar gás”, dizia há um ano Mariana Ribeiro, de 27, quando a carrinha em que seguia com o namorado e mais dois amigos se aventurava pelas autoestradas alemãs, depois de ter atravessado o interior de França, deixando os limites de velocidade bem longe do retrovisor nas famosas Autobahnen. O destino era Berlim, de onde depois seguiriam para Pula, na Croácia, rumo ao festival Dimensions. Lá chegaremos e também mais alto, até à história de um homem que partiu de moto à conquista da estrada mais alta do mundo, nos Himalaias.

O conjunto de razões para viajar de carro ou de moto pode ser uma caixa com várias mudanças. O velho hábito nacional de planear tudo em cima do joelho pode servir de ignição, quando o preço dos voos pesquisados pode ser um sinal proibitivo para a carteira. Stop. Faz-se inversão de marcha e redefinem-se as coordenadas. Se a invenção da roda mudou o mundo, a possibilidade de andarmos sobre duas ou quatro de borracha leva-nos em odisseias motorizadas, movidas pela sensação onírica de uma liberdade com suspensão ativa.

Caminhos contados 
gota a gota

Antes de pegar nas chaves e pôr o motor a trabalhar é aconselhável, ainda assim, fazer contas. Há as portagens, o preço do combustível, assim como os gastos com alimentação e estada. Saiba que Portugal, de acordo com os dados mais recentes, publicados em dezembro de 2017 pela APCAP (Associação Portuguesa das Sociedades Concessionárias de Autoestradas ou Pontes com Portagens), possui uma rede de autoestradas com uma extensão total de 2948 quilómetros, dos quais 2512 estão sujeitos a pagamento e apenas 436 permanecem isentos de cobrança.

A nível europeu, Portugal é o quinto país com mais quilómetros de estradas de alta velocidade, numa lista encabeçada pela Alemanha, com mais de 15 mil quilómetros pavimentados. Ao olhar para a receita recolhida com portagens em cada país, tanto fixas como com os novos métodos de pagamento eletrónico, ocupamos a sexta posição do ranking dentro de Velho Continente, com 1035 milhões de euros cobrados em 2017, arrecadando os cofres do Estado uma fatia de 23% através do IVA. A campeã das tarifas rodoviárias é a França, seguida pela Itália, Alemanha, Espanha e Áustria.

O mesmo relatório indica que, diariamente, quase 17 mil viaturas circulem nas vias rápidas nacionais, com o valor médio das tarifas aplicadas a veículos ligeiros — que representam 93,4% do tráfego — a situar-se nos 0,075€/km, custo mais do que duplicado para os pesados, acelerando até 0,163 euros por cada mil metros percorridos. A malha nacional de autoestradas está equipada com 67 áreas de serviço, 81 restaurantes e ainda cinco hotéis.

Na via verde para longas viagens rodoviárias há um problema que estaciona frequentemente: o preço dos combustíveis. Meter a gota pode fazer transbordar as preocupações dos condutores, mas assume-se como fonte abastecedora para manter as contas públicas em velocidade de cruzeiro. Mais de metade do valor que paga vai para o depósito do Estado, fazendo com que Portugal seja o quinto país com a gasolina mais cara dos 28 Estados-membros da UE, com um pacote tributário constituído pelo polémico Imposto Sobre os Produtos Petrolíferos — introduzido em 2016 —, o IVA, a contribuição para o sector rodoviário e a taxa por emissão de carbono. No que toca ao preço de venda do gasóleo, o nosso país ocupa a décima posição.

Portugal perde para Espanha na corrida dos preços praticados para ambos os combustíveis, afastada do top 10 das nações europeias com produtos refinados mais dispendiosos, motivo pelo qual muitos portugueses optam por abastecer nos postos de nuestros hermanos.

Há, relativamente a esta matéria, uma pergunta repetida vezes sem conta: se o preço do barril de petróleo desce, porque é que o custo do combustível se mantém? O Expresso entrou em contacto com a Associação Portuguesa de Empresas Petrolíferas (APETRO) para desmistificar esta e outras bifurcações de dúvidas. “Entre o preço do barril de petróleo e os combustíveis comercializados nos postos de abastecimento existe a refinação. Nem sempre os valores de refinação, dependentes do mercado, refletem o que aconteceu e nunca de imediato”, começa por dizer João Reis, da APETRO. “O combustível amanhã vendido não pode espelhar o preço do crude que foi comprado na semana anterior”, frisa o responsável, acrescentando que a discrepância está também relacionada com a flutuação do moeda única ao dólar. “O barril é sempre pago na moeda americana e, se houver uma depreciação do euro, podemos estar a pagar mais”, aclara João Reis, não escondendo que a carga contributiva aplicada ao sector em Portugal faz disparar os preços em alta rotações. “Mesmo que o custo do produto refinado baixe, isso apenas terá impacto em 25% daquilo que o condutor paga ao abastecer, porque o restante montante é para impostos”, conclui o representante da associação.

Odisseias a motor 
pelo (topo do) mundo

Matemática e ciências exatas à parte, voltemos ao encontro das humanidades, da multiplicação pessoal que cada indivíduo encontra ao longo de uma viagem. Regressamos à epopeia automobilística, contada in media res, de Mariana Ribeiro e dos amigos. O destino final era a Croácia, mas pelo meio havia escala em Berlim, uma vez que o namorado de Mariana tinha atuações como dj agendadas nas duas cidades. Partiram do Porto em agosto de 2017 e quatro dias bastaram para chegar à capital germânica. “Depois de Berlim foi sempre a descer.” Dito assim, parece fácil, mas antes já tinham deixado para trás o País Basco, atravessado França e passado por Nuremberga ou Friburgo.

“O fator de ir parando e conhecendo, almoçar aqui e lanchar ali, dormir numa cidade e voltar a partir para outra é muito estimulante”, afirma Mariana, a quem os amigos, durante os 15 dias de estrada, chamavam “WikiMary”. “Íamos programando tudo com alguma antecedência. Havia sempre um trabalho de pré-pesquisa antes de chegarmos aos locais. Era eu que ia vendo sempre os dados e curiosidades das cidades por onde passávamos”, conta a jovem de 27 anos. O regresso a Portugal foi feito por Itália e pelo Sul de França, até entrarem na Península Ibérica, num périplo sobre rodas que Mariana lembra como uma experiência “extremamente divertida e feita com os amigos certos”.

O entusiasmo foi de tal ordem que quase nem houve tempo para estacionar as emoções. Mariana e os amigos estavam de partida novamente, em outubro, desta vez rumo a Marrocos. Voaram até Casablanca e foi nessa cidade que alugaram o automóvel que os levou a viajar pelo país durante dez dias. “O carro não era nada como aparecia nas fotos que tínhamos visto na internet. Era muito pior, cheio de amassadelas e riscos, mas decidimos não nos chatear”, conta ao Expresso a produtora televisiva, para quem o trânsito em Marraquexe foi um autêntico filme. “Eles passam-se no trânsito. Se há fila na autoestrada, os condutores fazem inversão de marcha e vão em contramão. Não se respeita qualquer sinal, não há código da estrada, vão quatro ou cinco pessoas em cima de uma moto ou dez no interior de um carro”, recorda, entre risos, Mariana Ribeiro.

Não é um enredo de Bollywood, é uma história à portuguesa, com certeza. Inácio Rozeira é um viajante que, aos 39 anos, já deu à volta à América do Sul numa carrinha “pão de forma” durante 14 meses — num carrossel constante entre os gélidos 15 graus negativos da Patagónia e os abrasivos 40 graus de Manaus, no Amazonas —, além de assegurar ter viajado mais de uma centena de vezes para a Índia, tanto sozinho como a servir de guia em expedições turísticas. Uma clássica Royal Enfield 350, de 1966, apetrechada com um sidecar, foi o meio de transporte utilizado, em 2008, para fazer uma travessia de oito meses sobre rodas, recheada de obstáculos homéricos, pelo gigante asiático, acompanhado pela namorada. “A preparação, mais do que física, é mental. É preciso disponibilidade para enfrentar o desconforto e o desconhecido. É bastante exigente, mas é altamente enriquecedor, porque estamos sempre numa lógica de aprendizagem”, explica este explorador do asfalto.

Confessa a paixão pela Índia, onde “todas as convicções absolutas são para esquecer”. A fiabilidade e a ideia romântica de viajar numa moto tão antiga também. “Passava a vida a avariar e devo ter ido para aí 50 vezes ao mecânico”, recorda Inácio, guardando no baú das memórias os bairros de lata intermináveis em Bombaim, com crianças a viver na rua, alimentando-se do lixo. “Lembro-me que quando parávamos em aldeias no meio do nada, de repente havia 40 pessoas ao nosso redor, só com curiosidade pela cor da nossa pele e do nosso aspeto. Éramos diferentes de tudo aquilo que alguma vez tinham visto”, prossegue o viajante neste caminho pelas recordações. Foi no contexto de pobreza, entre a escassez e a fome, que encontrou uma inesperada companheira de viagem, inseparável até no momento de regressar a Portugal.

Mas que desafio ainda guardava o imaginário indiano para este viajante, ao ponto de o lançar novamente numa cordilheira de peripécias? O mais alto desafio da sua vida: percorrer a estrada de Khardung-la de moto, subindo até uns alucinantes 5600 metros de altitude, desafiando os adamastores dos Himalaias. A epopeia durou 16 dias para o grupo de sete motociclistas, liderado por Inácio. “Partimos de Chandigarh, capital do estado de Punjab, e passámos pelo local onde está refugiado o Dalai Lama. Entrámos depois pelo Vale Spiti, na fronteira com o Tibete, uma zona que ainda é disputada com a China, onde assistimos a rituais budistas nos mosteiros”, lembra o aventureiro portuense. “Fomos subindo, subindo, subindo, até chegar a Khardung-la, onde as motos já não trabalhavam, pela falta de oxigénio para carburar. Tínhamos de empurrar a moto”, conta.

Inácio empurrou, superou e voltou a casa. “Sempre chegámos ao sítio onde nos esperam”, escreveu Saramago. “Kashi” não sabe ler, mas sabe esperar, ainda que impaciente e aos saltos. “Kashi” foi a cadela bebé, quase a morrer de fome, que Inácio e a namorada resgataram em 2008, a meio da viagem à Índia. Havia lugar para a pequena tripulante, porque na vetusta motinha os afetos nunca deram problemas. b

Mas que desafio ainda guardava o imaginário indiano para este viajante, ao ponto de o lançar novamente numa cordilheira de peripécias? O mais alto desafio da sua vida: percorrer a estrada de Khardung-la de moto, subindo até uns alucinantes 5600 metros de altitude, desafiando os adamastores dos Himalaias. A epopeia durou 16 dias para o grupo de sete motociclistas, liderado por Inácio. “Partimos de Chandigarh, capital do estado de Punjab, e passámos pelo local onde está refugiado o Dalai Lama. Entrámos depois pelo Vale Spiti, na fronteira com o Tibete, uma zona que ainda é disputada com a China, onde assistimos a rituais budistas nos mosteiros”, lembra o aventureiro portuense. “Fomos subindo, subindo, subindo, até chegar a Khardung-la, onde as motos já não trabalhavam, pela falta de oxigénio para carburar. Tínhamos de empurrar a moto”, conta.

Inácio empurrou, superou e voltou a casa. “Sempre chegámos ao sítio onde nos esperam”, escreveu Saramago. “Kashi” não sabe ler, mas sabe esperar, ainda que impaciente e aos saltos. “Kashi” foi a cadela bebé, quase a morrer de fome, que Inácio e a namorada resgataram em 2008, a meio da viagem à Índia. Havia lugar para a pequena tripulante, porque na vetusta motinha os afetos nunca deram problemas.