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“Já houve crianças que se afogaram em alguidares”

Nasceu na Ribeira Grande, ilha de São Miguel, há 46 anos. Não perdeu o sotaque micaelense, apesar de viver há muitos anos em Lisboa, para onde veio estudar Psicologia. Entrou na APSI como voluntária em 1996. Onze anos depois tornou-se presidente da associação

nuno botelho

“É necessário que a nova lei defina de quem é a responsabilidade no caso de um acidente numa piscina”, defende Sandra Nascimento, presidente da Associação para a Promoção da Segurança Infantil

Hugo Franco

Hugo Franco

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Há poucos dias, duas crianças estrangeiras, de 5 e 6 anos, morreram afogadas em piscinas privadas. Esta semana, um menino de 5 anos entrou em pré-afogamento num parque de diversões radicais. Sandra Nascimento, a presidente da Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI), exige uma investigação séria para apurar as causas dos dois acidentes mortais, bem como uma nova lei sobre segurança nas piscinas. Algo terá de mudar para que não morram mais crianças neste tipo de acidentes.

Porque morrem tantas crianças nas piscinas portuguesas?
É inadmissível e incompreensível. Em 1997 foi criada uma lei para regular os parques aquáticos, depois das duas mortes no Aquaparque do Restelo. Mas, à exceção dessa, não existe qualquer enquadramento legal sobre a construção de piscinas, os meios de salvamento e de proteção do acesso das crianças à água.

Há falta de vontade política para a criação dessa lei?
Espero que as mortes recentes de duas crianças estrangeiras (uma belga e outra inglesa) em Azeitão e no Algarve deem origem a uma investigação séria para se apurarem as causas dos acidentes e que se crie uma lei sobre segurança nas piscinas. É necessário que a nova lei defina de quem é a responsabilidade no caso de um acidente numa piscina. Sugerimos a criação de um grupo de trabalho.

Quem é afinal responsável por zelar pela segurança nas piscinas?
Várias entidades. As piscinas de empreendimentos turísticos são tuteladas pelo Turismo de Portugal. As de instalações desportivas são da responsabilidade do Instituto Português do Desporto e da Juventude. Mas também a ASAE, as autarquias, a Autoridade Marítima, as autoridades de saúde e de proteção civil fiscalizam piscinas...

Apesar de tantas entidades envolvidas, continua a haver falhas na fiscalização?
Sim. A prova está à vista. Inspeções ou fiscalizações poderiam ter evitado algumas mortes.

Tem conhecimento de condenações a entidades públicas ou privadas em casos de afogamento?
Não, pelo menos que tenham chegado à associação.

Quantas crianças morrem em Portugal nestes acidentes?
Dez crianças por ano, isto em relação aos últimos anos. O número é menor do que em 2001, altura do início da nossa campanha de sensibilização sobre afogamentos nas piscinas. Nessa altura morriam 27 crianças por ano. Hoje por cada criança que morre numa piscina há em média três internamentos.

As vossas campanhas falam numa morte rápida, silenciosa e que acontece muitas vezes com pouca água...
Sim, este ano morreu um bebé de 18 meses numa piscina insuflável. Já houve crianças que se afogaram em alguidares, na banheira, em baldes.... E em alguns casos os adultos não estão muito afastados.

Os pais estão sensibilizados para este problema?
Não tendo existido uma alteração legislativa nos últimos vinte anos, mas havendo uma redução no número de mortes, isso deve-se à mudança do comportamento das famílias. Os pais estão mais conscientes dos perigos, ao contrário do que acontecia há quinze anos, quando iniciámos a nossa campanha: era uma realidade que passava completamente ao lado das famílias. É verdade que os equipamentos das piscinas também foram sendo aperfeiçoados, sendo hoje mais seguros. A supervisão e a proximidade dos pais é essencial, já que estas mortes acontecem de forma muito rápida. Mas estão longe de serem suficientes.

Que conselhos dá para evitar estes acidentes?
Nas piscinas domésticas, é essencial a colocação de barreiras físicas suficientemente altas (um muro, uma vedação, etc.) para evitar que as crianças acedam à piscina. Esta proteção é até mais importante do que a vigilância familiar porque os afogamentos acontecem sobretudo quando as crianças entram naqueles espaços às escondidas, caindo depois para dentro de água. As barreiras fazem reduzir para metade a probabilidade de afogamento. Em segundo lugar, uma supervisão próxima dos pais e, em terceiro, o uso de braçadeiras.

Em que tipo de piscinas morrem mais crianças em Portugal?
Em piscinas familiares, de condomínios ou casas de férias. São mais raras as mortes em piscinas públicas. A presença de nadadores-salvadores ou meios de socorro é essencial para a diminuição das mortes.

Faltam nadadores-salvadores?
As pessoas não podem ter na piscina de casa um nadador-salvador. Eles não são obrigatórios em todos os casos, mesmo em hotéis. Neste caso a lei é muito específica.

Conhece algum caso próximo de uma criança vítima de afogamento?
Sim, mas felizmente sem morte. Aconteceu com um casal amigo numa casa de férias da família. A piscina tinha um portão e um muro, mas este era demasiado baixo. Tinha-os avisado disso, mas eles garantiam que a altura era suficiente. Um dia, uma das filhas, de 5 anos, saltou o muro e caiu na piscina. Encontraram-na já a mudar de cor. Felizmente foi só um susto. Retiram-na e conseguiram reanimá-la a tempo. Telefonaram-me mais tarde a dizer que eu tinha razão.

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