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O futuro por um canudo

Portugal é um dos poucos países europeus que cobram propinas a todos os alunos. Não é barato tirar 
um curso, mas é cada vez mais frequente. Ainda assim, 
é necessário orientar os passos — este ano há mais vagas para o interior e para o ensino politécnico Texto Rita Carvalho Infografia Sofia Miguel Rosa

Rita Carvalho (texto) Sofia Miguel Rosa (infografia)

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Com o 12º ano concluído no Colégio Rainha Santa Isabel, em Coimbra, Luís Cid Brito tem os objetivos bem traçados — entrar em Medicina Veterinária na Universidade de Lisboa. “Gosto de animais, gosto de tratar deles. Sempre tive muito contacto com eles e isso motiva-me”, diz. A ficha de candidatura para o ensino superior dispõe de seis espaços em branco para preencher de acordo com a preferência dos alunos, mas para este estudante, à partida, será fácil entrar na primeira opção. As disciplinas específicas de candidatura em Medicina Veterinária são Físico-Química A e Biologia e Geologia, exames que realizou no ano passado e, como teve boas notas, nem precisou de repetir. Fez as contas e tem “mais 1,1 valores do que o último colocado no ano passado”. A média de entrada para este curso em 2017 foi de 15,93 valores.

No panorama geral, este ano o pódio das médias mais altas é assegurado pelas engenharias e pelo Instituto Superior Técnico. A nota de entrada mais alta vai para Engenharia Aeroespacial, com 18,80 valores, seguida de Engenharia Física Tecnológica, com 18,75. O curso de Medicina só aparece em quarto lugar com 18,33 valores na Universidade do Porto.

Se Luís entrar na primeira opção, vai ter 108 colegas novos, já que o número de vagas este ano diminuiu — menos seis do que no ano anterior. De acordo com os valores divulgados pela Direção-Geral do Ensino Superior, o panorama das vagas é ligeiramente diferente este ano. À disposição estão 50.852 lugares nas universidades e politécnicos, e as cidades de Lisboa e Porto perderam 1066 lugares que foram distribuídos pelo resto do país. O Instituto Politécnico de Coimbra e a Universidade do Minho foram os que mais aproveitaram para aumentar o número de vagas: 136 e 131, respetivamente.

A distribuição territorial determina que sejam atribuídas mais vagas nas regiões do interior, uma decisão motivada pelo crescente aumento de candidaturas em Lisboa e no Porto nos últimos anos. No entanto, outras instituições optaram por não usar toda a margem disponibilizada. A Universidade de Coimbra, por exemplo, abriu apenas mais 68 vagas do que no ano passado. Vagas essas que se concentram sobretudo nas áreas de ciências e engenharias, “cursos que têm procura, boa empregabilidade, e em que existe capacidade de o corpo docente disponível acolher mais alguns alunos”, explica o reitor da universidade, João Gabriel Silva, que também aponta a lenta diminuição de estudantes portugueses como resultado da perda demográfica contínua da região.

Quanto custa?

Neste momento, Luís está convicto de que em setembro vai integrar a larga percentagem de estudantes que saiu ou vai sair de casa dos pais para desenhar o futuro. O jovem de 17 anos admite que todos os seus colegas de turma querem entrar na faculdade e, se possível, longe de Coimbra. “Para saírem de casa dos pais, para terem mais autonomia e maior independência”, diz. Estudar fora pode ter muitos sinónimos e pagar contas é um deles. Além das propinas, que no caso da licenciatura em Medicina Veterinária alcançam o valor máximo de 1063,47 euros, será necessário arrendar um quarto, pagar um passe para utilizar os transportes públicos, somar com as despesas de alimentação e as viagens a casa para visitar a família e amigos.

Feitas as contas, e considerando a dificuldade em arranjar casa em Lisboa, a despesa ultrapassa os 500 euros mensais. Segundo o estudo da Universidade de Lisboa “O Custo dos Estudantes no Ensino Superior Português”, coordenado por Luísa Cerdeira, os valores anuais dos estudantes dividem-se em custos de vida e custos de educação, com variação de acordo com o tipo de instituição. Em 2016, esta investigação revelou que um estudante do ensino universitário público tem despesas anuais que ascendem a 5500 euros, enquanto um aluno do ensino universitário privado gasta quase 10 mil euros.

Em matéria de pagamentos, o nosso país é dos poucos que cobram propinas a todos os alunos. Ainda que sejam atribuídas bolsas de estudo, e são cada vez mais os alunos que recorrem a esta ajuda, todos são obrigados a pagar o valor anual de cada ano frequentado. Só no ano passado, foram 93.958 os alunos a submeter o pedido e mais de 70.000 a receberem ajuda monetária. Mas a contribuição do Estado tem limites, calculados de acordo com os rendimentos e bens de cada agregado. Importa também sublinhar que nem todos os alunos pagam o mesmo valor de propinas.

As diferenças são evidentes e basta olhar para o mapa: o preço a pagar depende da região e do tipo de instituição, se politécnica, universitária, pública ou privada. Por exemplo, as Universidades do Porto e Lisboa, as mais concorridas na hora de escolher, apresentam uma diferença considerável, com 999 e 1063,47 euros, respetivamente. Já o ensino politécnico apresenta valores mais simpáticos, com o mínimo fixado em 830 euros, no Instituto Politécnico do Cávado e Vale do Ave.

No panorama europeu, não estamos sozinhos quando falamos de cobrar propinas a todos. A nós juntam-se as universidades espanholas, holandesas, suíças, italianas e irlandesas. Por outro lado, em países como a Alemanha, Grécia, Finlândia, Suécia e Noruega não existe regime de propinas, os alunos frequentam um sistema de ensino superior grátis. Já na Bulgária, Espanha e Itália o valor das propinas é calculado através das necessidades de cada um, e os alunos podem não pagar qualquer valor. Os estudantes de Inglaterra são os que mais pagam: 10.028 euros por ano.

Perfil português

Em 2017, a percentagem de portugueses com idades compreendidas entres os 24 e os 65 anos com o ensino superior correspondia a 24 por cento — ou seja, cerca de um quarto da população total. Segundo dados da Pordata, cerca de dois milhões de portugueses em idade ativa têm pelo menos uma licenciatura. Somos cada vez menos em território nacional, mas apostamos cada vez mais em carreiras que passam pelo ensino universitário ou politécnico, já que desde 2005 conseguimos duplicar o número de portugueses com o ensino superior. Um caminho de ascensão que não agrada a todos.

No final do ano de 2014, a chanceler alemã apontou Portugal como um país com licenciados a mais, não esquecendo a vizinha Espanha. Esta crítica surgia para justificar a aposta da Alemanha em cursos essencialmente técnicos, uma medida que pretendia diminuir a taxa de desemprego. Se dirigirmos o olhar para a tabela que organiza os países com maior percentagem de pessoas com o ensino superior, o país liderado por Angela Merkel não ocupa as primeiras posições e aparece com uma taxa de 28,6 por cento de licenciados.

No entanto, a Alemanha é dos países da Europa com menor taxa de desemprego. Desde 2014 os alemães conseguiram reduzir o número de desempregados de 5 para 3,7 por cento. Olhando para nós, no mesmo período, fomos também capazes de diminuir o desemprego para 8,9 por cento. Uma descida considerável mas que, ainda assim, corresponde a mais do dobro da Alemanha. Para Júlio Pedrosa, autor do estudo “Educação Superior em Portugal: uma nova perspetiva”, a atual realidade portuguesa é bem diferente quando comparada com os últimos dez anos. “Há uma carência de licenciados em vários domínios de formação”, refere. O estudo realizado o ano passado dá conta de números curiosos em relação ao ensino profissional. Em 2013/2014, por exemplo, a educação secundária na via científico-humanística alcançou os 42 por cento e na via profissional os 58 por cento, enquanto que dez anos antes, o cenário era outro, com 70 por cento na primeira e 30 por cento na segunda opção. A escolha pelo profissional duplicou. “Portugal não tem excesso de pessoas com educação superior, antes deve reforçar a sua capacidade de oferecer um leque diversificado de oportunidades”, diz o ex-ministro da Educação, que evidencia ainda a importância de investir nas duas vias, universitária e politécnica.

De todas as diferenças entres os dois sistemas de ensino, há um ponto em comum — há sempre mais mulheres. Em relação ao género, o ensino superior em Portugal parece tender para o lado feminino. No último ano, cerca de 990 mil mulheres tinham, pelo menos, uma licenciatura concluída, com preferência na área de Ciências Sociais e Direito. Já os homens, são menos, não chegam a 614 mil e as áreas de engenharia, indústrias transformadoras e construção continuam a conquistar as atenções da ala masculina.