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Jiadista açoriano aliciou crianças

A polícia espanhola, que deteve Fábio há três anos, desmantelou 50 células desde 2015

FOTO Blasco de Avellaneda/AFP/Getty

Alvo eram raparigas de 12 anos. Companheira de português forçava irmão de 7 anos a ver vídeos de matanças

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

As crianças eram um dos principais alvos da célula terrorista a que pertencia Fábio Almeida. O fanatismo do jiadista nascido há 33 anos na ilha Terceira, nos Açores, levava-o a fotografar e a filmar Loumen, a filha de 4 anos, com um véu islâmico negro enquanto fazia pose em frente a uma bandeira da Al Qaeda colocada na parede da sala do apartamento onde viviam, nos arredores de Paris. A cerca de mil quilómetros de distância, em Toledo, Sanae Boughroum, a noiva do português, ligava o computador e forçava o irmão de 7 anos a assistir ao vídeo onde um piloto capturado pelo autodenominado Estado Islâmico (Daesh) era queimado vivo pelos terroristas.

A criança acabou por ficar fascinada com as imagens de violência extrema. Pelo menos a acreditar nas palavras de Sanae durante uma conversa com outra cúmplice da célula jiadista. “Põe para trás, quero ver o vídeo de novo!” Era esta a frase que o rapaz repetia com insistência depois de ver o jordano Maaz al Kasasbeh desaparecer entre as chamas. Sanae Boughroum fazia-lhe a vontade e voltava a carregar no play, orgulhosa do irmão mais novo, mas também do mais velho, de 13 anos, que tinha até uma página do Facebook onde partilhava imagens de propaganda jiadista.

Os três irmãos manifestavam vontade em juntar-se um dia ao grupo terrorista. Mas foi Sanae quem esteve mais perto de lá chegar. Em outubro de 2015, a rapariga nascida em Marrocos e o português Fábio Almeida preparavam-se para casar e depois viajar para a Síria ou para a Líbia, sem bilhete de volta. Mas foram detidos pela polícia espanhola no apartamento da família da jovem, num bairro de classe média de Toledo, a poucos dias de partirem para o Médio Oriente. Nas últimas semanas, o casal tem estado sentado no banco dos réus na Audiência Nacional, em Madrid, acusado de incentivo ao terrorismo. E pode vir a ser condenado a dez anos de prisão, juntamente com outros dois membros do grupo que operava entre Espanha, França e Marrocos e tinha ligações estreitas com destacados membros do Daesh na Síria.

De acordo com os dados da acusação do Ministério Público espanhol, a que o Expresso teve acesso, a célula jiadista criada em 2014 por estes quatro suspeitos procurava recrutar para a Jihad crianças e jovens do sexo feminino, dos 12 aos 16 anos, através de três grupos de WhatsApp chamados “Ansar Al Islam”. Embora também houvesse mulheres mais velhas entre os cem membros. Algumas terão mesmo partido para o Daesh.

Ódio aos portugueses infiéis

A raiva de Fábio Almeida, ou “Abdurraman Al Portugali”, contra o Ocidente — mais concretamente aos emigrantes portugueses a residir em França — ficou registada nas escutas das autoridades. Na tarde de 23 de junho de 2015, numa conversa com Sanae Boughroum, o açoriano fez um desabafo: “Têm-me passado coisas pela cabeça que nem imaginas... Portugueses de m..., os kafires [infiéis] merecem morrer todos. Tenho muita raiva contra eles. Odeio os kafir.”

Nas buscas ao seu apartamento, situado num dormitório a oeste de Paris, a polícia encontrou 65 mil imagens, 31 mil ficheiros de áudio e mais de 700 vídeos sobre a temática jiadista: entre decapitações, discursos de imãs radicais, ações armadas, ataques suicidas ou mensagens de ataques terroristas em solo europeu.

Também no apartamento em Toledo foram encontradas dezenas de provas da ligação de Sanae Boughroum com Abu Anas Ashraf Al Andalusi, especialista informático do Daesh a residir na Síria, e com quem a jovem contactava através das redes sociais. Este marroquino seria simultaneamente o responsável da organização para o território espanhol. A jovem teria ainda ligações a Ayoub El Khazzani, autor do atentado falhado num TGV que ligava Amesterdão a Paris, a 21 de agosto de 2015.

Sanae, que o Ministério Público acredita que sabia antecipadamente do ataque, terá telefonado à irmã de El Khazzani para a alertar de que teria de se livrar de material comprometedor, após o marroquino ter sido detido em França. E terá chorado quando percebeu que a missão no comboio falhara depois de o atacante ter sido dominado por passageiros. Os procuradores têm poucas dúvidas de que Sanae fantasiava com um atentado em Espanha.

Em tribunal, o casal que se conheceu através da internet e que tem estado em prisão preventiva, já garantiu estar inocente. Fábio Almeida, o primeiro português a ser julgado por suspeitas de pertencer à organização terrorista, garantiu que não compreendia muitos dos vídeos por não dominar a língua árabe. Já Sanae disse sentir-se “uma vítima do Daesh” por ter sido manipulada por dirigentes radicais que se terão aproveitado dos seus problemas familiares. O veredicto será conhecido em breve.