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Fatos de banho, esse epíteto da vida

Os tempos mudaram e com eles mudou a forma de se comprar roupa de banho. Hoje as propostas mais interessantes, exclusivas e sustentáveis encontram-se em lojas online, de criadores nacionais que ainda ontem eram meros desconhecidos

Andemos com o calendário para trás até 1990 e recordemos a banda juvenil portuguesa Onda Choc, que algures no seu repertório cantarolava sobre um “biquíni pequenino às bolinhas amarelas” visto numa loja “ao pé do liceu”. Foquemo-nos na loja e esqueçamos, para já, o padrão circular do elemento biquíni. Aqui o importante a reter é a loja física, uma raridade hoje em dia no que à compra de fatos de banho diz respeito, tal a imensidão de marcas que têm surgido por essas redes sociais fora. Se a música tivesse sido feita nos tempos mais modernos, teria que encaixar um smartphone, o Instagram, por exemplo, e um cartão de crédito. Mudam-se os tempos e com eles a forma de comprarmos certas coisas. Biquínis, triquínis, fatos ou calções de banho não são exceção. Mudou também a forma como se encara a ida à praia — é mais complicado porque a pressão é maior. Ir à praia nos dias de hoje vai muito para lá do levar a simples toalha para nos estendermos ao sol, é preciso ir bem vestido. E estar na moda. Se precisássemos de arranjar um bode expiatório para esta mudança de paradigma, diríamos que a “culpa” é de marcas como a Cantê, com 138 mil seguidores no Instagram, criada por Mariana Delgado e Rita Soares, onde os motivos florais, os folhos ou os cortes assimétricos são assinaturas da marca e a tornam uma das que mais sucesso têm, dentro e fora das fronteiras portuguesas.

Num estilo mais sofisticado, talvez possamos dizer desta forma sem que nos levem a mal, está a Latitid — o nome é fusão entre latitude e atitude. Criada no Porto em 2013 e com mais de 58 mil seguidores na rede social Instagram, a aposta vai para “um produto de qualidade, que nasceu da necessidade de criar uma marca interessante a nível nacional”, diz Inês Fonseca, uma das fundadoras.

“Era inacreditável como as pessoas vinham carregadas de biquínis do Brasil e nós, em Portugal, com quase seis meses de sol por ano, não tínhamos quase nada.” É difícil que passe um mês sem que apareça uma marca nova de fatos de banho no mercado e, como acontece com inúmeras outras coisas, é importante que haja um fator diferenciador e que leve o consumidor a escolher uma marca e não outra.

A Latitid tem propostas que vão dos padrões, como no fato de banho Varadero, aos biquínis lisos e mais sóbrios

A Latitid tem propostas que vão dos padrões, como no fato de banho Varadero, aos biquínis lisos e mais sóbrios

Em relação à Latitid “não se pode dizer que haja um enorme fator específico de diferenciação na nossa marca, seja de design ou padrões. Aquilo que fazemos é ter licras com muita qualidade e que sigam as tendências do ready to wear”. Isto trocado por miúdos, significa que se pegam nas tendências que se veem na rua, transportando-as para o swimwear. “Temos produção em quatro fábricas no norte do país, e percebemos que não é nada fácil fazer fatos de banho com qualidade”.

Mas será que é fácil manter uma marca viável sem deitar por terras os padrões de alta qualidade? “Temos três lojas físicas, no Porto, em Lisboa e na Comporta, e a isso juntamos a nossa loja online. Posso dizer que em Lisboa 70 por cento dos nossos clientes são estrangeiros, que veem os biquínis, gostam e compram. Se calhar numa próxima encomenda já não precisam de experimentar e encomendam online, mas é sempre importante que no primeiro contacto consigam experimentar”, explica Inês, acrescentando que “o próximo passo é a internacionalização, eventualmente em Espanha, assim encontremos os parceiros certos”.

SUSTENTÁVEL É O NOVO SEXY

As marcas portuguesas de beachwear não se ficam por aqui, longe disso. A Bohemian, com 47 mil seguidores, foi buscar a inspiração ao surf; a Papua, fundada em 2012 por Marta Santos e Nuno Leitão, é a marca das cores e padrões exóticos, que tem o conceito das viagens dos seus criadores por trás; ou a marca em nome próprio de Fabiana Baumann, uma das mais recentes no mercado português, que sai de Peniche para o mundo dos fatos de banho sustentáveis. “Queria criar uma coleção toda em preto, porque tinha dificuldade em encontrar artigos básicos e tudo foi acontecendo a partir daí. Atualmente, e apesar do mercado de swimwear já ser bastante explorado em Portugal, há poucas ofertas sustentáveis. O conceito de slow fashion era algo que me interessava poder fomentar. A indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo. Se puder contribuir para uma alteração de padrões, ainda que a uma escala muito pequena, é isso que quero fazer”, explica Fabiana.

Em 2017 a moda era a quinta indústria mais poluente. Se antigamente uma peça de roupa durava quase uma vida, o ritmo dos dias de hoje apenas permite que uma peça dure, em média, cerca de três anos. Como é que isso se contraria? É fácil, sendo sustentável. Aí está um conceito importante mas ainda com pouca afirmação no mercado da moda. E é esse caminho que Fabiana tem tentado contrariar com a sua marca.

“Desde há duas coleções que trabalhamos com licras recicladas e licras regeneradas, estas últimas feitas a partir de matéria-prima desperdiçada quer no pré quer no pós-consumo. Estas licras têm não só uma excelente qualidade como nos permitem dar alguns passos para a oferta de um produto mais sustentável.”

ME TOO, GRITAM OS HOMENS

Foi seguindo uma premissa de democratização que nasceu a Blue Avenue. Três amigos criaram a marca no início de 2017 com a promessa de acompanhar tendências dos 18 aos 60 anos. Começaram três, hoje são quatro. Francisco Faria, modelo português de passerelles nacionais e internacionais começou por fazer a campanha fotográfica da marca, apaixonou-se pelos calções e hoje é sócio.

“Tínhamos a necessidade de cobrir uma falha que sentimos ter no primeiro ano, melhorar a nossa imagem e comunicá-la de uma forma muito melhor e mais atrativa. O Francisco foi sem dúvida a nossa melhor aposta até hoje. Não poderíamos estar mais contentes, basta ver a diferença de imagem do primeiro ano para este ano”, explica João Silva, um dos sócios.

A Blue Avenue e a DCK apostam no estilo de vida aventureiro para captar a atenção dos homens

A Blue Avenue e a DCK apostam no estilo de vida aventureiro para captar a atenção dos homens

Para uma marca ser bem-sucedida num mundo cada vez mais global e recheado de ofertas “banhísticas”, é preciso ter ambição. Passando o clichê do “céu ser o limite”, como disse João, a Blue Avenue, “tem sede de triunfar nesta área e para isso trabalhamos para ser a marca de todos e não mais uma. Além de querermos ter mais produtos, além dos calções de banho”. Afinal o limite não se afunda no mar.

Diogo, Costa e Kiko. Três nomes, três iniciais, uma marca. DCK, talvez a mais conhecida das siglas de calções de banho para homem em Portugal, nasceu depois de uma viagem a Bali, na Indonésia. Duarte Costa, sócio fundador da DCK, voltou a terras lusas com uma oportunidade de negócio na cabeça. “Porque não procurar fábricas no norte do país que consigam fazer calções de banho com qualidade e ao mesmo tempo cool?” Estávamos em 2009.

Das iniciais primárias sobra apenas Diogo, embora o nome da marca se mantenha o mesmo. Em 2014, a Diogo junta-se o irmão Fernando e os primos Francisco e Martim. Desde 2015 “a DCK tem crescido a um ritmo alucinante, sendo hoje uma das maiores marcas do sector em Portugal. A loja online permite-nos chegar aos quatro cantos do mundo”, explica Fernando Costa, responsável pelo marketing.

“Somos a única marca no mercado europeu que oferece um produto com esta qualidade a um preço que consideramos justo. Além disso, temos mais de 400 modelos, todos de edição limitada. Desta forma, tentamos que cada cliente se sinta único. Queremos abranger todo o tipo de públicos e não nos fechar ao surf ou ao lifestyle.”

Passaram nove anos desde a primeira viagem. Hoje a DCK tem duas lojas em Lisboa, uma no Chiado e outra no Rato, vende em Espanha, França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos. Na sua página de Instagram, com cerca de 15 mil seguidores, além da frase positivamente ecológica “Apanha três pedaços de lixo cada vez que fores à praia”, está uma fotografia de Marcelo Rebelo de Sousa com uns DCK vestidos.