Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

“O estatuto de refugiado não é digno”

tiago miranda

Entrevista a Gonçalo Castro Fonseca, padre Jesuíta, um dos oradores da conferência “Não Esquecemos a Síria”, que vai decorrer em Lisboa

Christiana Martins

Christiana Martins

texto

Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

fotos

Fotojornalista

Na voz dele ressoa a guerra. Uma guerra que lamenta e que toca em pessoas que aprendeu a admirar. Em 2017, assumiu o compromisso de ficar três anos na Síria. É o responsável pela casa do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS), que apoia 150 crianças diariamente. Segunda-feira, será um dos oradores da conferência “Não Esquecemos a Síria”, que vai decorrer em Lisboa.

É o único estrangeiro do JRS na Síria?
Sim, somos três jesuítas a tempo inteiro e um colaborador.

Porquê um português?
Sou jesuíta e fui nesta condição. A Companhia de Jesus procura viver a missão como um corpo universal e não internacional, que procura estar onde é preciso. E foi um português que se disponibilizou.

Foi o único a oferecer-se?
Houve muitas candidaturas, mas pela questão da língua e da dificuldade de adaptação só aceitaram jesuítas que se ofereceram por um tempo útil. Como a oferta foi de até três anos, foi recebida de outra forma.

Porquê três anos?
Em conversa com o meu superior, entendemos que era o mínimo para fazer um trabalho significativo. Se fosse menos tempo, ia exigir que me dessem para adaptação mais do que eu lhes poderia dar.

Foi como conversor?
Essa é uma linguagem que já não se usa. Não fui para converter ninguém. Somos das únicas instituições confessionais, cristãs ou muçulmanas, que não olham a credo. Todos têm lugar no nosso centro. Temos muito mais crianças muçulmanas do que cristãs. São os muçulmanos que precisam mais. Na ficha de inscrição não perguntamos de onde vêm.

Foi fazer o quê?
O que for preciso, fui numa incógnita completa e fiquei no JRS porque era onde era mais necessário. Temos projetos conforme o financiamento. Há oito anos, quando começou a guerra, as respostas eram de emergência, neste momento, o principal projeto é de educação. Uma proposta de olhar para o futuro. As crianças não tiveram oportunidade de ir à escola e procuramos compensar o que elas perderam. Temos 150 crianças diariamente, dos sete aos 16 anos e, mesmo os mais velhos, não têm memória pré-guerra.

Haveria mais crianças a receber?
Muitas mais, não temos é capacidade física. Estamos a construir um novo centro, onde poderemos receber 400 crianças.

Mesmo 400 é pouco?
Não me atrevo a dizer pouco, mas não é suficiente.

Já saiu de Damasco?
Fui à periferia, onde não há uma casa em pé. E o mais longe que cheguei foi Homs, onde vi uma cidade em reconstrução, mas com vestígios de uma destruição total.

A guerra é real em Damasco?
Sim. Entre o Natal e a Páscoa não pudemos sair de casa. Não é uma guerra de sons e imagens distantes. As bombas caíam minutos antes ou depois de eu passar, à minha frente.

Tem medo?
Aprendi a ter, não foi natural.

Quer voltar para a Síria?
Sim. Nunca pensei desistir, a minha missão era estar ali e seria uma desilusão sair.

Porque eles não podem sair?
Sim. Eu ter ficado teve uma força muito grande neles. Perceberam porque eu fui mas nunca entenderam porque fiquei, quando eles querem ir embora e não podem.

Do que precisam os sírios?
Sobretudo de futuro. Habituaram-se a sobreviver, a viver o dia de hoje, daí a aposta na educação.

Faltam testemunhas, como jornalistas, para ver o que se passa?
Sim, mas aqui temos testemunhas muito mais válidas, os refugiados.

Só lá ficaram os mais frágeis?
Os mais pobres dos pobres.

Os que saem sabem que não são queridos no Ocidente?
Não, a Europa é o eldorado.

Eles precisam de sair?
Quando penso individualmente, digo que sim, mas se penso na coletividade, digo que têm de ficar. De outra maneira, o todo não tem futuro.

E tem?
Sim, mas vai ser preciso esperar três gerações para construírem nova memória e para se reconciliarem, com a história, com a dor, consigo mesmos e com os vizinhos.

Ficaria mais tempo na Síria?
Se for preciso. E se for possível, porque há um preço que todos nós estamos a pagar por eu não estar aqui. Não é uma missão minha, é nossa, dos jesuítas.

O que aprendeu na Síria?
A ser alegre. E a experiência da generosidade genuína.

Portugal seria um bom refúgio?
Sim, mas por mais que os acolhamos, a dimensão da identidade não lhes podemos dar. É algo que lhes foi tirado. Quando se perde tudo, está-se a um ponto de perder a dignidade e o estatuto de refugiado não é um estatuto digno.