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Sociedade

Mais de 50 mil infetados estão por identificar

O rastreio da hepatite C faz-se através de análise ao sangue. Os médicos recomendam
 que as pessoas nascidas
 entre 1945 e 1965 façam o teste

Adam Gault

Saúde: Apesar dos cerca de 20 mil doentes já curados em Portugal, a hepatite C ainda existe em silêncio. Rastreio é essencial para melhorar os números

Fátima Ferrão

José Carlos Saldanha, doente com hepatite C, saiu do anonimato quando, em 2014, interrompeu a audição do então ministro da Saúde, Paulo Macedo, pedindo-lhe que não o deixasse morrer. Do anonimato saiu também a doença — cujo Dia Mundial se comemora hoje —, que é muitas vezes confundida com outras hepatites virais, como a de tipo B, menos grave e combatida através da vacinação. Desde então, e após o acordo firmado com a indústria farmacêutica em 2015, Portugal tornou-se um dos países mais avançados da Europa e do mundo, ao aprovar o acesso universal e gratuito a medicamentos inovadores no que se refere ao tratamento desta doença, que provoca a inflamação do fígado e, no limite, o cancro ou a morte.
Três anos depois, o balanço é positivo, uma vez que já foram tratados quase 20 mil doentes, com uma taxa de cura que ronda os 100%. No entanto, há ainda muito por fazer e um elevado número de pessoas infetadas com o vírus continua por identificar. Segundo Guilherme Macedo, diretor do Serviço de Gastroenterologia do Centro Hospitalar de São João e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, a prevalência da hepatite C em Portugal é de 0,8%. “São 70 a 80 mil pessoas infetadas. Foram curadas 20 mil, por isso temos mais de 50 mil pessoas por tratar e por identificar.” Ainda assim, são números distintos dos registados há três décadas, como refere Rui Tato Marinho, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia (SPG). “Na altura, 1,5% da população era portadora do vírus.” Desde então, explica o hepatologista e gastroenterologista, “foram corrigidas algumas das fontes de infeção — utilização de agulhas não descartáveis, transfusões de sangue com maior risco assético, por exemplo —, o que travou o aumento no número de doentes”. Menos otimista sobre a evolução da doença, Emília Rodrigues, presidente da Associação SOS Hepatites, confessa-se “muito triste”: “Estamos a regredir para níveis de tratamento de 2013/2014”, diz. Há uma espera de 7 a 8 meses para iniciar a medicação, “o que não pode acontecer quando falamos de medicamentos que curam em 8 a 12 semanas”. Neste momento, “apenas o Hospital de Santa Maria e o Egas Moniz estão a disponibilizar o tratamento de imediato”. A presidente da associação lembra que a demora tem grande impacto na vida das pessoas, que veem a doença a progredir e a esperança a reduzir-se.


Burocracia trava tratamentos
Para que Portugal possa cumprir o objetivo, recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de eliminar a hepatite C até 2030 é necessário agilizar o processo de identificação e tratamento dos doentes, evitando largos períodos de espera entre a prescrição dos fármacos e a sua toma efetiva. Entre 2015 e 2017, a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) era a entidade que geria o financiamento para a hepatite C crónica, o que, para Rui Tato Marinho, “é muito mais vantajoso para os doentes, que recebem o tratamento mais rapidamente”. Uma opinião partilhada por Emília Rodrigues, que alerta que “estamos a retroceder”.
Em janeiro deste ano, a portaria nº 35/2018 veio mudar as regras do jogo, passando a responsabilidade para os hospitais. O financiamento para o tratamento de doentes com hepatite C passou a integrar a atividade nos contratos-programa hospitalares, o que tem estado a atrasar os processos. “Fala-se em simplificação burocrática, mas tardam as aprovações”, afirma o vice-presidente da SPG, que acrescenta: “Portugal estava na linha da frente, mas está a ser ultrapassado por países como a França e a Alemanha, onde as aprovações são imediatas.”
Já Guilherme Macedo defende que o melhor modelo é aquele que funciona. “Os hospitais conseguem gerir se as regras forem bem claras.” No entanto, alerta, “o que não faz sentido é haver sistematicamente mudanças de estratégia central ou da tutela de forma a que os hospitais não saibam como devem incluir esta despesa nos respetivos orçamentos. Temos aqui um conflito de disponibilidade financeira que não pode existir”.
Não há tempo a perder no combate. A hepatite C com cirrose tem um risco de cancro a 10 anos de 40%. Eliminar a doença reduz esta probabilidade para 1%. O impacto social, mas também económico, é enorme. “Há o estigma de uma doença conotada com sexo, drogas e álcool, o que alimenta a baixa autoestima nos doentes”, diz Emília Rodrigues. Por outro lado, o cansaço e outros problemas gerados pela doença obrigam muitos infetados a deixar de trabalhar ou a elevados níveis de absentismo. “A cura rápida permite a muitas destas pessoas regressar à vida ativa, com mais energia, menores problemas de relacionamento e a contribuir para a economia e a sociedade”, lembra o vice-presidente da SPG.
A comunidade médica, a par com as associações que apoiam os doentes, tem feito pressão junto do ministro da Saúde e dos grupos parlamentares na Assembleia da República. Mas, reforça Rui Tato Marinho, “falta aos decisores a visão médica da vida real”.

DIAGNÓSTICO HEPÁTICO

88%
dos utilizadores de drogas injetáveis têm o vírus da hepatite C (VHC). 
Dois terços da população infetada pelo VHC em Portugal ainda não foram diagnosticados

271,4
milhões de euros é a poupança em termos de despesa pública após um ano de tratamentos com os novos fármacos, de acordo com a Infarmed. Foram evitadas 3477 mortes prematuras por causas hepáticas

10%
dos reclusos deverão estar infetados pelo VHC. Nesta comunidade, cerca de 100 já foram curados graças 
a um projeto-piloto do Hospital 
de São João, no Porto

Entrevista a: Guilherme Macedo, diretor do Centro Hospitalar de São João

“Manter uma pressão alta”

Guilherme Macedo, diretor do Serviço de Gastroenterologia do Centro Hospitalar de São João e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, é um dos promotores do projeto de erradicação da hepatite C nas prisões, um caso de estudo internacional. Ao Expresso falou sobre os objetivos do combate à doença e a forma de operacionalizar o tratamento com eficácia e sem sobrecarregar o orçamento para a saúde.

É possível eliminar a hepatite C até 2030?
Sim, mas depende muito do caminho que for seguido. Por isso, a comunidade médica tem tentado manter uma pressão alta sobre os decisores políticos. Não podemos comprometer os resultados que já atingimos com o uso das terapêuticas inovadoras, ou com o projeto-piloto nas prisões, parando agora o processo em algum dos pontos. A medicação não pode demorar a ser dada depois de o doente ser diagnosticado e prescrito. Tem de haver uma agilização do processo muito maior — neste momento são os hospitais que facultam a medicação —, para que não haja tempos mortos. O grande objetivo é derrotar esta infeção de vez, e acredito que conseguiríamos fazê-lo com cerca de 30 a 40 milhões de euros por ano, em cinco anos.

Quais são os principais desafios?
Identificar a população infetada, quer os grupos de risco quer as pessoas que não sabem que estão infetadas, e tratá-las com eficácia e rapidez. Para tal, é preciso definir uma estratégia de rastreio que seja realista e pouco onerosa e, posteriormente, garantir que o tratamento é rapidamente aplicado.

O projeto das prisões tem sido importante na identificação dos doentes?
Sim, e está a ser um caso de estudo internacional. É um projeto que começou no Porto, nas cadeias de Custoias e de Santa Cruz do Bispo, pensado e estruturado por uma equipa de médicos, e que demorou mais de um ano a ser posto no terreno. Foi aprovado em janeiro de 2017 e, desde então, já identificámos e curámos cerca de 100 doentes. Felizmente, os nossos decisores políticos assumiram este projeto como algo que deve ser replicado e, por isso, já foi aprovada a sua expansão a todo o país.

Que balanço faz destes 19 meses?
Curámos todas as pessoas infetadas no primeiro ano. Conseguimos fazê-lo, em média, com três consultas por doente e sem que tivessem de ir ao hospital. No entanto, há vários aspetos da organização que têm de ser repensados. Somos apologistas de uma estrutura muito racional, para que não haja perdas de eficácia.

Textos originalmente publicados no Expresso de 28 de julho de 2018