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Rui Agostinho: “A lua está louca, mas o sol é o grande culpado”

O astrofísico Rui Agostinho retratado pelo Expresso

Marcos Borga

No dia do mais longo eclipse lunar do século XXI, o astrofísico Rui Agostinho, professor do departamento de física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e diretor do Observatório Astronómico de Lisboa leva-nos até aos mistérios da lua. E conta-nos tudo o que importa saber sobre o fenómeno lunar desta noite

Este é o maior eclipse total da lua do século XXI, um fenómeno que ocorre uma vez por ano quando a Terra se encontra entre o Sol e a Lua. Do ponto de vista da ciência este fenómeno ainda traz algo de novo?
Enquanto eclipse visual por si só não. Mas há detalhes muito interessantes quando se observam eclipses que têm a ver com a astrometria. Que é a medição da posição dos corpos celestes com grande exatidão. O interesse de se fazer isso com a lua é porque ela tem uma órbita altamente variável. Na realidade o termo certo é uma órbita perturbada. Contrariamente à terra, que tem uma órbita constante ao longo dos anos e que varia muito lentamente, a lua não. Todos os meses a lua muda a sua órbita.

Então não são os meses que andam loucos, mas a lua que está louca?
(risos) A lua está louca, mas sabe qual a razão dessa loucura? São os outros planetas e o sol. O sol é que é o grande culpado. A força do sol sobre a lua, que é maior do que a força da terra sobre a lua, vai puxando-a para si e então perturba-a. Mas também as contribuições das forças gravíticas dos outros planetas. E estudar em detalhe por onde a lua anda permite ver a dinâmica orbital que o nosso sistema solar tem. Neste caso o sistema Terra-Lua. E quanto a isso ainda há interesse, sim.

Quanto tempo se prevê de eclipse lunar esta noite?
O eclipse na totalidade, desde o instante em que a superfície da Lua entra no cone de sombra da Terra até ao instante em que o primeiro ponto da lua sai desse cone de sombra, é de uma hora e 43 minutos. Mas nós em Portugal não vamos poder ver isto tudo. Porque a Lua nasce às 20h47 e já estará dentro do cone de sombra. Nós não vamos ver o início disto. E pior do que isso, apesar dela nascer às 20h47, ainda teremos sol no céu por mais 5 minutos. Estará o sol a pôr-se, portanto isto quer dizer que o sol estará ainda bastante azulado. É o sol a por-se de um lado e a lua a nascer do outro, mas praticamente ninguém a verá. Depois deverá esperar-se uns 5 ou 10 minutos para o céu ir diminuindo e então começarmos a ver a lua apagada, com pouca luz e encarniçada. Se esquecermos o brilho do sol e o problema do céu azul então poderíamos ver o eclipse durante 1h e 27 minutos. Mas deverá ser visível por menos tempo, por esses mesmos motivos.

d.r.

Qual é a importância da lua para todos nós?
Não tem nada que ver com o nascimento dos bebés. Zero de zero. Isso é um barrete que andam a pregar às pessoas. Não há relação nenhuma entre a lua cheia, ou qualquer outra fase da lua, com o nascimento das pessoas. Quando se faz essa estatística, e eu já a fiz para 40.000 pessoas, e quando se põe o nascimento da pessoa nos 29 dias (que é o período das fases lunares) temos um número igual de pessoas em todos os dias. O nascimento do ser humano não está ligado com as fases da lua.

Esse lado místico que se associa à lua, que mexe com as nossas vidas é, portanto, uma treta…
É fantasia pura. A começar, como disse, pelos nascimentos. Mas tem tido algumas influências. Por exemplo, a humanidade habituou-se a ter o ciclo da lua cheia. E adaptou a sua vida ao ritmo da lua cheia. Repare-se que não teríamos o ano dividido em meses se não fosse este ciclo das luas cheias. A invenção do mês com 30 dias não é uma invenção da humanidade porque é bonito. O período de lua cheia a lua cheia é de 29 dias e meio e isso levou as pessoas naturalmente, há milénios atrás, quando não havia iluminação artificial e quando alguém queria fazer atividades à noite, utilizava as noites à volta da lua cheia. E as pessoas contavam os períodos de tempo que faltavam até à lua cheia. Se olharmos para os registos da história, vemos que todos os calendários que as sociedades fizeram ao longo destes milénios, são calendários baseados na lua, eram calendários lunares. Não eram solares. Mas isso criou problemas. Se se quiser saber qual o dia e o mês ideal para se ter sucesso na plantação de, por exemplo, batatas isso não é regido pela lua, mas pelo sol e estações do ano. Então a humanidade andou com dois calendários. O calendário lunar e o calendário solar. Curiosamente todas as festas históricas que temos, sejam sociais ou religiosas, todas são baseadas no calendário lunar. Porque isso é o que se vê, noites iluminadas pela lua. É um período visível para toda a gente.

Para um astrofísico a lua ainda tem mistérios?
Não. A lua é apenas mais uma estrutura planetária. É esférica. A sua auto-força gravítica foi suficiente para a tornar esférica. As sondas Apollo deixam sismógrafos à superfície para a estudar e para ver quão sólido esse mini planeta é. Do ponto de vista da astrofísica o interesse é outro. Sabemos a razão dela não ter atmosfera, porque tem pouca massa , pouca força gravítica, e as moléculas em estado gasoso fogem àquele planeta. Contrariamente à Terra. A força gravítica da Terra não deixa as moléculas do ar irem-se embora. A Lua não tem isso.

Quais os melhores locais para assistir a este eclipse?
Nós temos que apanhar a lua no horizonte quando ela nascer. De modo que se recomenda às pessoas que vão para uma zona qualquer que tenha uma excelente visibilidade sobre o horizonte a nascente. O lugar não interessa muito. Se está em casa, ou numa piscina. Mas o horizonte para nascente tem de ser limpo. Porque a lua quando nascer já está no eclipse e enquanto o eclipse durar vai subir poucos graus no céu. Quem se quiser deslocar e ter um bom tempo, pode ir para a zona ribeirinha do rio Tejo. O Pavilhão do Conhecimento vai fazer atividades com o público, que é um espaço amplo. Quem gosta de fotografia leve o seu tripé com a sua máquina e um bom zoom e entretenha-se a fazer fotografias bonitas. Se pensarmos na Costa Algarvia, virada a Sul, genericamente as pessoas que estão na praia terão boa vista. E nas cidades mais planas como é Aveiro, Beja. Quem estiver no Porto, ao pé do rio, não verá nada porque tem a serra em frente. Terá que ir para um ponto alto. Quem está nas ilhas, deverá estar no lado mais sul e nascente. Para poder seguir este eclipse.