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Como observar o maior eclipse da Lua sem cair no “erro romântico” de Galileu

japatino/Getty

É já esta sexta-feira e será visível em Portugal a partir das 20h47. É importante escolher um bom local, com vistas “desimpedidas”, havendo mais recomendações a ter em consideração, como explicou ao Expresso um investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço. O eclipse também é uma boa oportunidade para aprender uma curiosidade histórica

É a primeira regra para garantir uma boa observação do eclipse da Lua esta sexta-feira: “Escolher uma zona em que a linha do horizonte esteja desimpedida, a nascente, para Este, onde vai nascer a Lua”. Selecionado o local, Pedro Machado, investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, diz que basta depois acertar na hora. Em Portugal, aquele que será o maior eclipse total da Lua do século XXI poderá ser acompanhado a partir das 20h47.

Se está em Lisboa, o Parque das Nações, junto ao rio, será uma boa escolha, refere o também professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. No essencial, há que fugir da poluição luminosa ou das paisagens com muitas árvores ou prédios.

Se a boa notícia é que o fenómeno poderá ser observado em Portugal, a menos boa é que no nosso país não o poderemos acompanhar na sua totalidade. “Este eclipse vai ser muito longo, com uma duração total de uma hora e 45 minutos”, mas por cá apanharemos o fenómeno a meio, porque a Lua nasce numa altura em que já está a decorrer a totalidade do eclipse. Ainda assim há tempo, já que a Lua ficará avermalhada até cerca das 22h.

Cuidados a ter em conta são poucos. “Ao contrário da observação do Sol, neste caso pode olhar-se diretamente, idealmente olhando por uns segundos, desviando depois o olhar e voltando a observar em seguida”, diz Pedro Machado. Que acrescenta duas exceções: “Quem tenha olhos sensíveis ou deseje olhar a Lua contínua e fixamente deve usar um filtro ou óculos escuros”.

Já agora, se pensa fazer fotografias, “é melhor recorrer a um tripé”.

E porque fica a Lua vermelha? A explicação mais conhecida assenta na questão da absorção e reemissão das cores. Ao passar através da atmosfera da Terra, a luz do Sol interage mais vezes com os comprimentos de onda mais curtos, que correspondem aos azuis e violetas. Na sexta-feira, quando a Terra se encontrar entre o Sol e a Lua, vai ser diferente. Ao fazer a passagem pela atmosfera, a luz vai ‘perder‘ os azuis e violetas, restando os tons avermelhados, explica o investigador, que acrescenta uma segunda explicação, “determinada cientificamente pelo Observatório de Paris”.

Pelo facto de a atmosfera ser um meio transparente e ter uma variação em densidade com a altitude, a luz do Sol tem uma refração diferenciada. Para melhor se perceber, Pedro Machado exemplifica com a imagem de uma luz branca ao atravessar um prisma, em que “os tons azuis são os mais desviados e os vermelhos os menos desviados”. “Por assim dizer, os azuis e os violetas vão ‘cair’ na Terra”, explica, enquanto os avermelhados serão os tons “menos desviados”.

Finalmente, Pedro Machado deixa uma curiosidade, a que chama “o erro romântico de Galileu”. Quando a borda da sombra da terra toca a borda da ponta da Lua - quase no fim do eclipse em Portugal - serão visíveis uns pontos brilhantes, que correspondem às montanhas da Lua, adianta o investigador. Para calcular a altura dessa montanhas, Galileu tinha de contar o tempo que demoravam esses pontos a ficar brilhantes.” Ora, sem um bom relógio à mão, “Galileu colocou a mão no coração e contou as batidas cardíacas, esquecendo-se que a excitação do momento as acelerou”. O resultado foi “chegar a um cálculo errado e considerar uma altura exagerada para as montanhas, muito maior do que na realidade é”, conclui.