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Urtigas, algas, insetos, alforrecas e carapau farão parte do menu

O impacto da sobrepesca e da produção intensiva de carne ameaça o planeta. É preciso diversificar

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

DR

Com a escassez de peixe, devido à sobre-exploração dos mares e às alterações climáticas, a par com a devastação provocada pela produção intensiva de carne, novos desafios são colocados, a começar por saber como alimentar uma população global que chegará aos 10 mil milhões em meados do século XXI. A pensar em alternativas, multiplicam-se os projetos de investigação científica e tecnológica. Já se começam a produzir hambúrgueres de laboratório com moléculas de bovinos ou salsichas de insetos (há 1400 espécies comestíveis) e drageias nutritivas como as dos astronautas.

A diminuição do stock de sardinha levou o Conselho Internacional para a Exploração do Mar (ICES) a aconselhar, esta sexta-feira, que não haja captura em 2019. Já a pensar em alternativas, o Ministério do Mar em articulação com a Docapesca avançou com uma campanha a favor do consumo de carapau, cuja quota está longe de esgotada. Porém, Portugal deixou de ser autossuficiente em pescado há dois meses e a Europa tem de recorrer a importações de outros continentes para se abastecer de peixe e marisco até ao fim do ano, de acordo com um relatório divulgado pela World Wildlife Fund (WWF), na terça-feira.

António Marques, investigador do Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA) coordena um programa europeu que desenvolve processos e tecnologias para fortificar o pescado produzido em aquacultura com nutrientes como o iodo ou o omega 3, assim como criar sensores que permitam controlar as toxinas em bivalves. “Já estamos a fazer testes em douradas no Algarve, em salmões na Noruega e em carpas na Polónia”, esclarece, adiantando esperar que os novos produtos “cheguem ao mercado daqui a cinco anos”. Mas fazer com o peixe o que já se começou a fazer com a carne em laboratório “é mais complicado, porque o peixe se degrada mais”. Certo é, ressalva, que “tem de se aproveitar todo o peixe que se captura”.

A ideia é reforçada por Iva Pires, especialista em Ecologia Humana da Universidade Nova (FCSH-UN): “Temos de reduzir o desperdício alimentar em geral e não só aumentar a produção de alimentos”. Um dos 17 objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU é reduzir para metade os 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos deitados fora anualmente. “Bastava reduzir esse desperdício em 20% para se ter uma incorporação equivalente de alimentos”, sustenta a socióloga.

No mundo em mudança, os ocidentais já começaram a orientalizar a ementa. A introdução de algas já é uma realidade e há projetos para a sua introdução em conservas de sardinha, cavala ou carapau, indica António Marques. O IPMA também já testou alforrecas como alimento, mas “como mais de 90% destes animais são água e os consumidores revelam alguma relutância”, será mais difícil a sua introdução na nova dieta.
“Não podemos continuar a comer tanta proteína e temos de ter um consumo mais consciente”, defende Henrique Cabral, diretor do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE). Em termos globais, em 1950 cada pessoa comia perto de 7 kg de peixe por ano, atualmente come 20 kg, e em Portugal sobe para 55 kg. Segundo o biólogo, o próprio mercado vai acabar por “definir novos recursos economicamente viáveis, que incluirá pescado atualmente não comercial, assim como uma diversificação de alimentos que podem passar por alforrecas, algas ou pepinos do mar”. Em seu entender a aposta em aquacultura sustentável tem de ser um caminho, tendo em conta que importamos mais de metade das mais de 200 mil toneladas de peixe que consumimos (com o bacalhau e o salmão a pesarem mais na balança). O Governo pretende duplicar de 5 para 10% o pescado proveniente de aquacultura nacional até 2020 e triplicar a produção na década seguinte. E segundo a ministra Ana Paula Vitorino “até podemos no futuro produzir bacalhau em aquacultura, porque o que parece impossível agora, talvez não o seja daqui a uns anos”.