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Produção de cereais

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Portugal está cada vez mais dependente de outros países para pôr pão na mesa. Há 100 anos que não se semeavam tão poucos cereais. O Governo e os agricultores querem inverter essa tendência e esta quinta-feira foi aprovada em Conselho de Ministros a Estratégia Nacional para os Cereais. Porém, com uma certeza: Portugal nunca será autossuficiente neste sector

Sempre que come um papo-seco (ou uma carcaça, consoante a zona do país) provavelmente está longe de imaginar que apenas 6% do que acabou de ingerir é produzido em Portugal.

Mas é exatamente esse o grau de autoaprovisionamento nacional para o trigo que serve de base ao fabrico do dito papo-seco. Curiosamente, nesta matéria, o país está pior que há 10 anos, quando a produção nacional de cereais garantia 14% do trigo panificável.
A boa notícia é que, para a produção de cereais em geral, Portugal apresenta um grau de autossuficiência da ordem dos 20,5%, embora abaixo do registado em 2007, que se situava nos 24,3%.

“Isto de viver num país que tem de andar a importar pão revolta-me profundamente, mas agora estamos a assistir a uma mudança de atitude perante o sector, o que acaba por ser um sinal de esperança”, dizia há poucos dias ao Expresso Fernando Carpinteiro Albino, gestor da marca Cereais do Alentejo e, também ele, um dos resistentes nesta área de atividade, com uma sementeira da ordem dos 1000 hectares na zona de Elvas.

Ao falar de “esperança”, Carpinteiro Albino referia-se à Estratégia Nacional para a Promoção da Produção Cerealífera, que o Governo e as associações do sector tinham acabado de publicar. O que o gestor alentejano não sabia era que este dia 12 de julho o documento seria aprovado em Conselho de Ministros.

Portugal nunca será um grande produtor de cereais
Mas foi isso que aconteceu e Capoulas Santos, ministro da Agricultura, mostra-se confiante na recuperação do sector. “Temos a perfeita noção de que Portugal nunca será um grande produtor de cereais e que jamais se aproximará das quantidades necessárias para o consumo próprio (o que significa estar dependente das importações) mas também sabemos que é possível fazer muito mais”, sublinha o ministro.
Em comunicado emitido no final do Conselho de Ministros desta quinta-feira, pode ler-se que, “considerando o potencial da produção cerealífera em termos territoriais, prevê-se com esta Estratégia atingir, num horizonte de 5 anos, um grau de autoaprovisionamento em cereais de 38%, correspondendo 80% ao arroz, 50% ao milho e 20% aos cereais praganosos”.

No mesmo documento o Governo diz ainda que pretende, deste modo, “contribuir para um sector mais forte e mais eficiente, com maior capacidade de resistência à volatilidade dos mercados, com maior capacidade de oferta de um produto de elevada qualidade e mais adaptado às alterações climáticas”.

Produção em mínimos de 100 anos

Portugal nunca foi autossuficiente em cereais, sempre teve de comprar a maioria do que consome para se alimentar. Como se isso não bastasse, há já cinco anos consecutivos que Portugal regista uma diminuição da área semeada de cereais, prevendo-se que na campanha em curso se atinja um mínimo histórico de 121 mil hectares, a menor área dos últimos cem anos — desde que existem registos sistemáticos, compilados pelo Instituto Nacional de Estatística.

No caso do trigo, como já foi dito, Portugal apenas produz 6% das suas necessidades anuais. A compra a terceiros é cada vez mais uma opção inevitável para conseguir alimentar o país.

A superfície cultivada com cereais ocupava, no final dos anos 80, cerca de 900 mil hectares, aproximadamente 10% do território nacional. Essa área tem vindo gradualmente a diminuir, a maior parte convertida em pastagens, sendo, em 2016, de 257 mil hectares. A produção também diminuiu, embora de modo menos pronunciado: de 1,65 milhões de toneladas para 1,1 milhões no mesmo período, segundo dados apurados pelas associações do sector.

Historicamente dependentes das importações

No documento da Estratégia Nacional para os Cereais, esta quinta-feira aprovada, pode ler-se que “Portugal é, historicamente, dependente da importação de cereais, mas, se os níveis de autoaprovisionamento eram de 60% em 1989, a diminuição da produção e o aumento das necessidades conduziram a um valor atual particularmente baixo (cerca de 20% em 2017), constituindo uma singularidade no contexto europeu e mundial”.

Os produtores de cereais garantem que, apesar de tudo, existem elementos positivos a aproveitar e a potenciar como é o caso da capacidade de organização da produção, “com qualificações técnicas elevadas, dos vários aproveitamentos que podem ser dados aos cereais, da elevada qualidade sanitária da produção nacional, da existência de unidades industriais instaladas em Portugal com capacidade para escoar a produção e do investimento em tecnologias relacionadas com a agricultura de precisão”.

Plantar cereais como 'tampão' contra incêndios

Confiantes no seu desempenho, asseguram ainda que o setor está igualmente bem posicionado para contribuir para a manutenção da atividade agrícola em todo o território, “com evidentes benefícios ao nível do fomento do desenvolvimento económico, da paisagem e da promoção e preservação da biodiversidade, bem como para a preservação de áreas agrícolas regadas no seio de manchas florestais, criando zonas de descontinuidade que contrariem a progressão dos incêndios”.
Outra área de oportunidade relaciona-se com a maior valorização, por parte do consumidor, da ‘Origem Portugal’, “observando-se uma tendência crescente da indústria, distribuição e consumidores por compras de proximidade e com rastreabilidade definida”, notam ainda os produtores. E é neste contexto que surgem novos mercados de que são exemplos o milho pipoca, o milho para broa, o pão de cereais regionais ou os cereais com baixos teores em pesticidas.

Olival 'rouba' 30 mil hectares às searas

Por fim, segundo os agricultores, o Plano Nacional de Regadios, recentemente apresentado pelo Governo, acaba por ser um forte impulso e cria condições para a expansão da cultura de cereais.

Há que recordar, porém, que foi a água (de Alqueva) que acabou por ditar a sentença de morte de muita da produção cerealífera daquele que era conhecido como o ‘celeiro de Portugal’ — o Baixo Alentejo. Devido à disponibilidade do regadio de Alqueva, nos últimos dez anos a zona de Ferreira, Beja e Serpa viu 30 mil hectares de terra migrarem do cereal de sequeiro para o olival regado.
Portugal perdeu na produção de cereais mas acabou por ganhar, com esta transição, um nível de autossuficiência da ordem dos 104,1% (2017) no azeite, contra apenas 63,8%, há dez anos.