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António Marto será cardeal no Vaticano. “Olho para isto com algum humor, para não me levar demasiado a sério”

Ant\303\263nio Pedro Ferreira

António Marto é o único português numa lista de 14 novos cardeais. O anúncio foi feito pelo Papa a 20 de maio depois da homilia do Angelus, na praça de S. Pedro. Veja aqui alguns excertos em vídeo da entrevista de D. Marto ao Expresso e à Renascença, no início de junho

O bispo de Leiria-Fátima, António Marto, será nomeado cardeal com outros 13 religiosos, no início do quinto consistório do pontificado de Francisco, esta quinta-feira às 15h.

A partir deste dia, António Marto será o único português numa lista de 14 novos cardeais, tendo este anúncio sido feito pelo Papa a 20 de maio depois da homilia do Angelus, na praça de S. Pedro.

Com a nomeação, António Augusto dos Santos Marto, 71 anos, torna-se no quinto cardeal português nomeado no século XXI e o segundo no atual pontificado, segundo a agência Ecclesia.

Em entrevista à Revista E do Expresso e à Rádio Renascença, no dia 2 de junho, falou sobre a vida, os problemas da Igreja e, naturalmente, de Papa Francisco. "Vou-me habituando [à ideia de ser cardeal], pouco a pouco. Fui apanhado de surpresa, mas logo a seguir, para pôr termo ao nervosismo e à confusão que se gerou interiormente, disse para comigo: seja feita a vontade do Senhor. Aceito como um serviço que me é pedido. Mas também com um certo humorismo de quem olha para isto com algum humor, para não se levar demasiado a sério."

E continuou: "Nunca na vida pensei que o papa pensasse em mim para cardeal, não via nenhuma motivação especial, nem justificação particular para isso. Não sei porquê. Porque pensou em mim? Penso que contribuiu muito o centenário das Aparições de Fátima, ele deve ter ficado muito impressionado", conta, mencionando duas reuniões privadas com Francisco.

Segundo D. Marto, a Igreja não pode fechar os olhos aos escândalos que têm vindo a público, por isso acredita na reforma levada a cabo pela figura maior da entidade. "O grande povo católico está em sintonia com esta reforma da Igreja proposta pelo Papa Francisco. Tem aspectos dolorosos, pois tem. Não podemos fechar os olhos, não podemos fazer uma política de avestruz. Temos de os enfrentar como ele enfrentou agora o problema do Chile".

Noutra entrevista, desta vez à Ecclesia, António Marto afirmou que chegar a cardeal "é o dom do Papa Francisco a Fátima", destacando o santuário como "paradigma e modelo para os outros". O bispo de Leiria-Fátima declarou-se "parceiro convicto" de Francisco nas mudanças que procura conseguir na Igreja católica e na Cúria Romana. “Ele tem um parceiro e sabe-o.”

D. Marto, na entrevista ao Expresso e RR, abordou ainda a eutanásia, que foi chumbada no Parlamento no dia 29 de maio, por cinco votos. "Acho que foi um voto sensato, que corresponde ao sentido geral do povo português e que leva a pensar mais profundamente num problema tão delicado e tão complexo que está para além das ideologias partidárias. Merece um aprofundamento muito maior e mais alargado à sociedade. Está de parabéns a sociedade portuguesa", defendeu.

António Marto junta-se no Colégio Cardinalício - que reúne todos os cardeais da Igreja Católica com missão de assistir e aconselhar o Papa -, aos cardeais portugueses Saraiva Martins, Manuel Monteiro de Castro e Manuel Clemente.

O grupo de 14 novos cardeais inclui ainda o principal conselheiro do Papa, o arcebispo polaco Konrad Krajewski, conhecido pela ajuda aos sem-abrigo, e o arcebispo espanhol Luis Francisco Ladaria, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

O patriarca da igreja do Iraque, Louis Raphael i Sako, e o arcebispo de Carachi, no Paquistão, Joseph Coutts, dois países onde os cristãos são minoritários, vão igualmente ser nomeados cardeais.

O grupo inclui ainda prelados do Peru, México, Bolívia, Madagáscar, Japão, Itália e Espanha.

No último consistório, o Papa Francisco advertiu os novos cardeais que a nomeação não faz deles “príncipes da igreja" católica, desafiando-os a “olhar a realidade” e a não se deixarem distrair por outros interesses ou por outras perspetivas.

A realidade a que devem estar atentos, segundo o Papa Francisco, são os inocentes que sofrem e morrem por causa das guerras e do terrorismo, a escravatura e os campos de refugiados, considerando que às vezes lembram mais um inferno do que um purgatório.

Desde 2013, quando os cardeais eleitores da Europa representavam 56% do total, Francisco tem vindo a alargar as fronteiras das suas escolhas, com uma mudança mais visível no peso da África, Ásia e Oceânia.

Quando foi eleito, o atual Papa tinha como colaboradores apenas 22 cardeais eleitores destes três continentes.

Neste consistório, dos 14 novos cardeais 11 terão poder para participar num futuro conclave que se reúna para eleger um novo Papa.

Na sexta-feira, António Marto participará, juntamente com os outros cardeais, na missa matinal celebrada pelo Papa Francisco.

A acompanhar António Marto, estarão em Roma leigos e religiosos da diocese de Leiria-Fátima.

No dia 30, já cardeal, António Marto presidirá a uma missa que se realiza na Igreja de Santo António dos Portugueses, também em Roma.

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