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Como os analgésicos ilegais se tornaram aliados (e depois inimigos) de algumas das maiores estrelas da música

Prince, o nome artístico de Prince Rogers Nelson, morreu aos 57 anos e os seus familiares e amigos não acreditam que soubesse que estava a tomar medicamentos que continham fentanyl

Waring Abbott

É preciso andar em digressão porque hoje "é aí que está o dinheiro". Prince e Tom Petty são apenas dois nomes brilhantes da música que sucumbiram ao abuso de substâncias supostamente receitadas para ajudar a controlar as dores acumuladas por anos e anos de digressões extenuantes. Mas quando a dor se torna insuportável os músicos não param. Recorrem ao mercado negro

Tom Petty, vocalista, guitarrista e líder dos Heartbreakers, ator e músico de múltiplos instrumentos, morreu de “overdose acidental”. É possível que a larga maioria das pessoas que consomem drogas, mesmo aquelas que consomem drogas muito pesadas, injetáveis, não sofram uma overdose por querer.

Mas o caso de Petty é mesmo acidental. Significa isto que a estrela norte-americana estava a tomar uma miscelânia de comprimidos para as dores, resultado de uma operação à anca. Como não estava preparado para colocar um ponto final na sua digressão de 53 datas, tomava analgésicos: uns receitados pelos médicos, como os adesivos de fentanyl receitados a doentes com dores agudas, “outras duas que possivelmente só poderia comprar no mercado negro”, disse à Rolling Stone Nora Volkow, uma das médicas do Departamento de Luta Contra a Droga (DEA).

Em outubro de 2017, Tom Petty morreu. “O Tom estava doente. Ele lutou muito para completar aquela digressão. Devia ter cancelado e ido para casa, ir a um hospital. Mas o Tom não o faria. Ele ia navegar até ao fim do rio”, disse Stevie Nicks, a voz dos Fleetwood Mac e amiga do músico.

Das quase 65 mil overdoses fatais com opiáceos registadas nos Estados Unidos em 2016, um terço envolve consumo de fentanyl, hoje um químico mais mortífero do que a heroína.

Quase dois anos após a morte de outro grande nome, o de Prince, um relatório médico mantido secreto até então foi divulgado pela agência Associated Press. Causa da morte: overdose de fentanyl. Na altura em que morreu, Prince tinha 67.8 miligramas de fentanyl por litro de sangue no seu organismo quando a overdose acontece perto dos 50 miligramas.

Também com Prince a razão para o consumo do opiáceo sintético era a mais legítima: dores insuportáveis na anca dado o esforço que fazia em palco. Quando morreu, Prince estava a meio da sua digressão “Um piano e um microfone” e já tinha cancelado algumas datas alegando estar a sofrer de um forte gripe.

Depois da sua morte foi revelado que a sua relação com analgésicos, de vários tipos, já vinha de longe e algumas das pessoas mais próximas do artista tentaram encontrar profissionais que o ajudassem. Um dos maiores especialistas na área, Howard Kornfel, foi chamado a intervir e um dos seus advogados acabou por revelar ao diário nova-iorquino “The New York Times” que o médico mandou o seu filho averiguar a condição de Prince. Chegou tarde. Foi ele que ligou para as urgências. Já o advogado do próprio Prince, questionado pela Associated Press, disse que Prince “não estava a tomar nenhuma droga que fosse causa para alarme”.

Na última década, a palavra fentanyl apareceu associada à morte de outras estrelas da música para além de Tom Petty e de Prince. São os casos do ex-guitarrista dos Wilco Jay Bennett, do ex-guitarrista dos 3 Doors Down Matt Roberts ou o de Paul Gray, baixista dos Slipknot.

O problema do fentanyl - quando é tomado em forma de comprimidos e não quando é misturado em doses injetáveis de heroína - é que as pessoas pensam que estão a tomar comprimidos “normais” para as dores. “Garanto que o Prince não fazia ideia de que estava a tomar fentanyl”, disse à Rolling Stone Scott Bienenfeld, um psiquiatra que trabalha com músicos que sofrem de dependências de álcool ou drogas. “A maioria das pessoas que aqui chegam sofrem de dores e alguém lhe deu uma vez fentanyl como um ‘extra’, mas eles não sabem que está ‘traçado’ com uma droga tão nefasta”, acrescentou. “Estes medicamentos parecem-se mesmo com medicamentos legítimos e as pessoas não têm ideia que, de facto, se trata de fentanyl sintético, entre 50 a 100 vezes mais forte do que aquele que é receitado pelos médicos”, diz por seu lado, Adria Petty, a filha de Tom que está a liderar uma campanha de alerta para os perigos do fentanyl.

A ligação entre a indústria da música e o consumo de drogas para mitigar as dores e o cansaço não é novidade. Codaína e o seu nome comercial Percodan (opiáceos) foram encontrados no corpo de Elvis Presley em 1977. Mas a pressão, a exigência dos fãs, a necessidade de continuar em digressão porque já não se ganha assim tanto com a venda discos só vieram piorar a situação. “O stress hoje é imenso, fazem digressões maiores porque é aí que está o dinheiro”, disse, no mesmo artigo, Harold Owens, diretor do MusiCares, uma organização que ajuda músicos que entraram no ciclo vicioso da dependência. “Eles tocam horas e horas, fisicamente é extenuante. Não comem bem, não tomam conta da sua saúde”.