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Antónia Rodrigues, “o terror dos mouros”

ilustração joão carlos santos

Nascida Antónia, fez-se António para fugir rumar ao Norte de África. Em menos de 20 anos, foi menina, menino, grumete, espingardeiro, herói, heroína, esposa e mãe. Personagens famosas no seu tempo e praticamente esquecidas, umas menos outras mais, é do que trata esta rubrica de pequenas biografias

Anabela Natário

Anabela Natário

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Jornalista

João Carlos Santos

João Carlos Santos

ilustração

Fotojornalista

Nasceu Antónia em 1580, a 31 de março diz a tradição, na freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, a norte da ria de Aveiro, e fez-se António para fugir rumo ao Norte de África. Em menos de 20 anos, foi menina, menino, grumete, espingardeiro a pé e a cavalo, herói, mulher, heroína, esposa e mãe.

Sebastião Rodrigues, seu pai, andava embarcado nos carregamentos de sal, quando não ia à pesca de bacalhau, na Terra Nova; a mãe, Leonor Dias, que penava em terra para tratar dos filhos, levou-a a Lisboa, tinha Antónia uns dez anos, pensando que ela teria melhor vida na casa da irmã mais velha.

Pouco tempo aguentou os maus-tratos que lhe davam irmã e cunhado. Agarrou nos tostões que amealhara ou roubara e foi comprar um fato de marujo usado: vestiu-se à rapaz, cortou o cabelo, curtinho, e foi para o Cais da Ribeira, onde convenceu o mestre de uma caravela a levar consigo um ajudante conhecedor das artes de marear por herança.

Ao fim de muitos meses, chegou a Mazagão, uma praça portuguesa no Norte de África, hoje cidade marroquina de El Jadida. Mal aportou, foi chamado ao capitão-mor. Confirmou que o mestre fizera umas trapacices com o carregamento de trigo e o responsável pelo governo local, temendo que dele se vingassem, alistou-o no exército.

A coragem e determinação do soldado Rodrigues valeram-lhe comida, cavalo e soldo. Perante os feitos em combate, o miúdo, de 13 ou 14 anos, passou da infantaria para a cavalaria. A razão principal da promoção foi o ataque que comandou contra os muçulmanos, vencendo-os, depois de ter descoberto que estes preparavam uma ofensiva noturna.

Diz-se que, no regresso a Mazagão, foi fortemente aclamado e que a proeza lhe valeu o respeito da população, na época cerca de quatro mil habitantes. Ao longo de mais quatro anos, o “mui gentil homem e de muita graça” cometeria muitas outras façanhas. Aos 15 ou 16 anos, já lhe chamavam o ”Terror dos Mouros”.

Ninguém desconfiava do seu género - não evitava a camaradagem e o cumprimento das rotinas militares, comia e dormia com os camaradas de armas, mas nunca se deitava sem o gibão e as ceroulas a disfarçarem-lhe o corpo que ia ganhando outras formas -, muito menos o inimigo, que lhe chamava “o jovem fronteiro de África”.

A fama e a afabilidade abriram-lhe as portas das principais famílias da praça. Todos conheciam o Rodrigues, o destemido cavaleiro que, além de cavalgar contra os acampamentos inimigos, muitas vezes se esgueirava até ao campo contrário para caçar porcos bravos ou pegar lenha e feno.

Entre os homens nunca teve problemas, mas quando começou a frequentar os salões, fardado de gala, com os seus trejeitos gentis e presença de espírito, as moças não paravam de o desafiar. Das pretendentes, ia-se livrando com respostas evasivas. Até que Beatriz se apaixonou pelo “garboso António Rodrigues”, tão fortemente que adoeceu com gravidade e o pai, cavaleiro principal, pediu ao capitão-mor que forçasse o casamento.

Antónia receou ser descoberta, não era habitual recusarem-se bons casamentos. Talvez também já “houvesse mouro na costa”, um companheiro de regimento... Tomou, então, a iniciativa de confessar ao provisor do eclesiástico que há uns cinco anos que escondia o corpo para ter uma vida interdita às mulheres.

A confissão logo chegou ao governador - e Antónia viu-se obrigada a retomar o lado feminino. Boca a boca, depressa correu a notícia da surpreendente revelação da aveirense que fora soldado enquanto donzela.

O facto de ser mulher reforçou-lhe a fama. Todos queriam conhecer a “Cavaleira Portuguesa”, cuja descrição fisionómica não ficou registada, embora haja quem afirme que tinha cabelos negros, tez morena e corada, dentes alvos e lábios carmins. Foi, então, viver para casa da família de um cavaleiro principal, teria 17 anos de idade.

Cerca de três anos depois, casou-se com um camarada de armas, “um mancebo dos principais da vila”. O governador passou-lhe uma “certidão de serviços feitos pelas armas” e o casal mudou-se para Lisboa para capitalizar a fama. Filipe III de Espanha e II de Portugal quis conhecê-la em 1619. E, além de lhe nomear o filho moço da real câmara, fez-lhe diversas mercês: 200 cruzados para ajudas de custo, quatro alqueires de trigo por mês e um aumento da tença anual para 15 mil réis.

O cronista Duarte Nunes de Leão conheceu-a pessoalmente, ainda Antónia era “moça de menos de 35 anos”, e sobre ela escreveu ser mulher bem parecida, com “muita graça no que fala e grande viveza de espírito, pelo que justifica bem o que dela se diz”.

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