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Deus? Quem?

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Em 1966, na primeira capa não ilustrada da revista “Time”, em largas letras vermelhas sobre fundo preto, lia-se: “Estará Deus morto?” Mais de meio século passado, a resposta pode ter sido encontrada: Deus? Quem?

Joana Gonçalves (Texto), Carlos Esteves (Infografia)

Aos 24 anos, Carlota Cid faz parte dos 42% de jovens portugueses não religiosos. A mais velha de quatro filhos é a única entre os irmãos que não frequentou um colégio católico. Aos 12 anos, depois de completar a segunda comunhão e quando lhe foi “permitido optar”, decidiu abandonar a religião, deixou a catequese e os escuteiros. “Eu sou ateia. Não tenho religião. Não assumo que apenas nada sei. Eu assumo que não acredito em nada”, é desta forma que se define a jovem estudante de medicina. Carlota confessa que este é um assunto sobre o qual reflete frequentemente. A leitura e interpretação das ciências exatas, aliadas a alguns eventos que experienciou, em 24 anos de vida, motivaram a certeza da “impossibilidade de existência de uma força sobre-humana capaz de influenciar ou ditar o rumo da nossa vida”.

Ateus, agnósticos e crentes sem religião compõem o grupo de pessoas designadas como desfiliados, isto é, sem filiação religiosa. Dados divulgados pelo Pew Research Center, apontam para 1,17 mil milhões de desfiliados em todo o mundo. Os jovens adultos somam a maior fatia. Na Europa, a percentagem de jovens sem religião chega aos 91% na República Checa, 80% na Estónia e 75% na Suécia. Dos 22 países europeus considerados no estudo do Pew Research Center, 12 apresentam mais jovens sem filiação religiosa do que religiosos. Por oposição, na Polónia, 82% dos jovens, com idades compreendidas entre os 16 e os 29 anos, são católicos. Na lista de países europeus mais religiosos seguem-se a Lituânia, a Eslovénia e a Irlanda, com 71%, 55% e 54%, respetivamente. Em Portugal, o catolicismo continua a prevalecer, com 52% de jovens adultos católicos, valores que aumentam significativamente se considerarmos o total da população portuguesa. No panorama nacional, 83% dos portugueses dizem identificar-se com o catolicismo. Apenas 15% não se identificam com nenhuma religião, em contraste com 42%, se considerarmos apenas jovens com idades entre os 16 e os 29 anos.

Cristianismo a decrescer na Europa

Os cristãos representam quase um terço da população mundial. Entre 2010 e 2015, o cristianismo registou um aumento natural que se traduz em mais 116 milhões de cristãos. Um cenário que não é representativo da realidade europeia, já que o número de mortes entre cristãos ultrapassou o número de nascimentos, em seis milhões. A este valor soma-se ainda o impacto efetivo da troca de religião. No mesmo período, a troca religiosa representou, em termos demográficos, um crescimento de não-filiados na ordem dos 23% e um decréscimo de 7% no número de cristãos. Mas se o cristianismo está em queda na Europa, o mesmo não se pode dizer de outras regiões do globo. Estima-se que até 2050 a percentagem de cristãos que vivem na região da África Subsariana aumente drasticamente, passando de 26% para 42%, devido à elevada taxa de fertilidade que se regista nessa área.

Em segundo lugar, com cerca de 1,8 mil milhões de filiados, está o islamismo, seguindo-se o grupo de pessoas sem religião, que representa cerca de 16% da população mundial. Hindus e budistas somam 15% e 7%, respetivamente. O judaísmo e as restantes religiões representam uma minoria. Israel é o único país do mundo com uma maioria judaica.

infografia carlos esteves

Apesar de ser a segunda maior religião, o islamismo apresenta a maior taxa de crescimento no universo religioso. As regiões do Médio Oriente e Norte de África somam cerca de 20% do total da população islâmica. A grande maioria, 62%, vive na região Ásia-Pacífico. Atualmente, a Indonésia é o país que apresenta o maior número de muçulmanos, cerca de 209 mil. Porém, as projeções do Pew Research Center apontam para que a Índia fique com o título até 2050, apesar de manter uma maioria hindu. Estima-se que chegue aos 300 mil muçulmanos. A população islâmica também está a crescer na Europa. Em 2016, os muçulmanos representavam cerca de 5% da população europeia. As projeções apontam para uma duplicação deste valor até 2050. Chipre, Bulgária, França e Suécia são os países que lideram a tabela, com a percentagem da população muçulmana a ultrapassar os 8%. Em Portugal o valor não chega aos 0,5%.

Os dois principais fatores que justificam as projeções de um rápido crescimento do islamismo são relativamente simples de compreender. Por um lado, as mulheres muçulmanas têm, em média, mais filhos que as restantes (pertencentes a outro grupo religioso ou sem religião). Em média, nascem 2,9 crianças filhas de pais muçulmanos, em comparação com 2,2 crianças filhas de pais de qualquer outro grupo religioso. Por outro lado, os muçulmanos são também, em média, sete anos mais novos do que os restantes grupos religiosos maioritários, não-muçulmanos. Estes jovens atingiram ou atingirão, em breve, a idade reprodutiva. Este fator, aliado à elevada taxa de fertilidade entre os muçulmanos, projeta um aumento rápido e significativo da população islâmica até meio do século. A migração não altera os valores na sua globalidade, mas tem influência no crescimento da população muçulmana em determinadas regiões do globo, como é o caso da Europa e da América do Norte.

Se há uma preocupação crescente com a possibilidade de a população desfiliada estar mais suscetível a associar-se a formas extremas de manifestação religiosa, Alfredo Teixeira, diretor do Instituto de Estudos de Religião, da Universidade Católica Portuguesa, afasta esse cenário. “Não temos sinais disso. A migração do espaço de não-crença e não-pertença para o espaço religioso é bastante diminuta. Ela acontece, mas é, de facto, bastante residual. Temos sinais de pessoas que já estavam de alguma forma num determinado campo de identificação religiosa e passaram para outro”, esclarece.

Sociedade secular

Estima-se que 16% da população mundial não pertença a nenhum grupo religioso. A região Ásia-Pacífico, sobretudo China, Japão e Coreia, detém 75% da população sem filiação religiosa. “A religião já não tem em grande parte das nossas sociedades o poder de integração social que teve noutros momentos da história. O que acontece é que normalmente muitos indivíduos não descobrem a necessidade de uma pertença religiosa para a construção da sua própria identidade”, explica Alfredo Teixeira.

Carlota partilha a opinião e acredita que “na sociedade atual, a explicação científica para um cancro, para a chuva ou para uma catástrofe descredibiliza um deus, um santo ou qualquer outra entidade religiosa.” Uma visão que é também partilhada por 57% dos portugueses desfiliados. Para a estudante do sexto ano de medicina, os conflitos políticos e económicos que se vivem no seio de instituições religiosas são também uma motivação para a perda da crença. “A religião, ao contrário do que se pensa, pode ser o cerne de muitos problemas”, acrescenta.

O fenómeno da secularização das sociedades ocidentais começa a ganhar terreno. Para Alfredo Teixeira, a secularização não passa tanto pelo desaparecimento da religião, mas antes pela individualização da crença. Na Europa Ocidental a identidade cristã sofreu algumas mutações. Em 14 países desta região, nos quais se inclui Portugal, o domínio religioso recai sobre os cristãos não-praticantes, que ultrapassam em número efetivo os cristãos praticantes e os desfiliados. Para esta maioria o conceito de Deus não é universal, nem vai ao encontro da descrição bíblica. Entre os não-praticantes domina a crença noutro poder superior ou forma de manifestação espiritual.

Esta alteração tem implicações diretas na forma como são encaradas algumas questões fraturantes da sociedade contemporânea. Desde a opinião sobre questões como o aborto ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, até à relação com a crescente comunidade imigrante. A grande maioria dos cristãos não-praticantes, assim como a grande maioria dos desfiliados, apresentam uma opinião favorável relativamente à legalização do aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os cristãos praticantes são mais conservadores.

A identidade cristã na Europa Ocidental está associada a níveis mais altos de sentimentos negativos em relação a imigrantes e minorias religiosas. Os cristãos autodeterminados, praticantes ou não, são mais propensos do que pessoas religiosamente não-filiadas a expressar visões negativas face a imigrantes, muçulmanos e judeus. Quanto à prática religiosa, o Natal parece ser a exceção à regra, uma vez que é comum às três maiorias. “Eu acho que optarei por celebrar o Natal com os meus filhos e inclusive por permitir a escolha deles em relação à religião. Não sou capaz de privar os meus pais de partilharem esse momento com os netos, os meus irmão de estarem com os sobrinhos ou até os meus filhos de estarem com os primos. Acaba por ser um círculo vicioso”, confessa Carlota.

Alfredo Teixeira acredita que as gerações mais novas vão protagonizar “uma afirmação crescente do grupo dos sem religião mas também do grupo dos que têm outras formas de identificação religiosa, menos coincidentes com os modelos anteriores. A principal consequência diz respeito ao facto de os próprios indivíduos construírem formas de pertença e de vínculo muito diversificadas, que em muitos casos não são facilmente legíveis pela próprias instituições”, explica.

“De uma forma geral, em termos religiosos, aquilo a que chamamos secularização traduz-se numa forte individualização do religioso”, acrescenta. Apesar dos padrões atuais de mudança de religião favorecerem o crescimento da população sem filiação religiosa, sobretudo na Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia, espera-se que a percentagem deste grupo, perante o total da população mundial, decresça nas próximas décadas. A baixa taxa de fertilidade e o perfil de idade superior à média mundial, aliados à elevada taxa de crescimento populacional são os principais fatores que traçam este cenário. Em 2060 o número de pessoas sem religião deve ultrapassar os 1,2 mil milhões, mas em percentagem da população o valor deve diminuir de 16% para 13%. Simultaneamente, espera-se que se mantenha o crescimento deste grupo na Europa e na América do Norte. Seja como for, no dia 25 de dezembro, o Natal vai continuar vai continuar a ser celebrado.