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Catarina quer “investimento público claro no interior”, Jerónimo diz que bombeiros não podem ser bode “expiatório”

Paulo Cunha/Lusa

A dirigente do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, afirmou este domingo em Castanheira de Pera, na homenagem às vítimas dos incêndios de há um ano, que é preciso saber “o que falta fazer”, mas não tem dúvidas de que é preciso fazer ainda “muita coisa” no território afetado. Em Pedrógão Grande, o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, afirmou por seu turno que não podem ser esquecidas “responsabilidades maiores”

“Hoje, quando lembramos a necessidade de reconstruir este território, homenageamos as vítimas, lembramos que é preciso continuar a apoiar as pessoas, lembramos as pessoas que não têm apoio e dizemos que é preciso, agora, um investimento público claro no interior”, disse Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, que falava antes de participar na "Caminhada de Memória", em que mais de 200 participantes percorrem 7,7 quilómetros da estrada nacional 236-1, a via onde morreu grande parte das vítimas do fogo de Pedrógão Grande há um ano.

Segundo a dirigente bloquista, “falta fazer muita coisa”, e é preciso não esquecer o que aconteceu na região. Ao não esquecer, tem de se saber “o que falta fazer” e assumir “essa responsabilidade”, notou, considerando que já se fez “muita coisa, mas podia ter-se feito muito mais”.

"Acho que é preciso fazer mais agora", frisou, considerando que, quando se fala hoje dos perigos do abandono do território, é necessário "corrigir" os problemas, o que "significa, seguramente, uma política florestal, significa outra política agrícola e significa serviços públicos em todo o território". Para Catarina Martins, "é preciso combater as assimetrias" e é preciso "objetivos concretos".

"Uma política muito concreta é garantir serviços públicos em todo o território. Uma política muito concreta é garantir investimentos que criam emprego em todo o território. Se não tivermos serviços públicos e emprego, o território vai ficando abandonado", frisou.

Nesse sentido, a coordenadora do Bloco de Esquerda recordou que, "nos últimos anos, foram encerrados muitos serviços públicos em todo o território", não apenas escolas, tribunais ou correios, como "serviços de proximidade do Governo", nomeadamente os serviços descentralizados do Ministério da Agricultura.

"É preciso ter essa visão de proximidade do tecido social e económica. Essa é uma opção de investimento", referiu, apontando como medidas no imediato para mitigar as assimetrias a paragem do encerramento de balcões da Caixa Geral de Depósitos e a reabertura de postos dos CTT.

Bombeiros não podem ser "bodes expiatórios"

Em Pedrógão Grande, o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, afirmou por seu lado que os bombeiros constituídos arguidos "não podem ser bodes expiatório" do incêndio de Pedrógão Grande. E afirmou existirem outros fatores para a tragédia, como as políticas que provocaram a desertificação do interior.

"Não queria pronunciar-me em relação ao processo [judicial, sobre os acontecimentos de junho de 2017] em si, mas o alerta que faço é que não tornem as coisas simples, particularmente aquelas que são demasiado complexas. Não se encontre bodes expiatórios em relação a um fator, até a uma responsabilidade, esquecendo as responsabilidades maiores de políticas durante décadas que levaram o nosso interior à situação em que se encontra", afirmou Jerónimo de Sousa.

O líder do PCP falou aos jornalistas no final de uma visita aos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, frisando que o comandante da corporação, Augusto Arnaut - um dos primeiros a ser constituído arguido no âmbito da investigação do Ministério Público - está "naturalmente preocupado" e "com um sentimento de injustiçado".

Jerónimo de Sousa disse ainda que o comandante Augusto Arnaut "com todas as preocupações, quer continuar" em funções "a dar o seu contributo e a sua demanda contra os fogos".

E, acrescentou ainda que um ano após a tragédia "mudou pouco" em Pedrógão Grande, exemplificando com o espaço do quartel de bombeiros, alvo de melhoramentos, mas onde o investimento que foi feito "resultou de fundos de solidariedade que muitos e muitos portugueses tiveram com estas populações devastadas pelos incêndios".

O líder do PCP reconhece que houve algumas melhorias, nomeadamente em relação "às instalações, alguma evolução positiva particularmente na formação de bombeiros, mas há aqui um obstáculo que continua a bloquear as soluções que é o processo de desertificação e despovoamento". Jerónimo de Sousa, alegou que "muito e muitos" eventuais jovens candidatos não têm disponibilidade para abraçar o voluntariado nos bombeiros por não estarem a trabalhar e a residir no concelho.

O secretário-geral do PCP apontou ainda a "pouca ação, e pouca é uma palavra otimista, em torno da questão da coordenação e do papel da Proteção Civil".

"Têm decorrido umas reuniões normais, que acontecem, mas muita indefinição em relação a quem é quem e faz o quê, nomeadamente num quadro integrado, em que, do nosso ponto de vista, continuam a existir grandes atrasos e dificuldades de implementação de um verdadeiro serviço de Proteção Civil", declarou.