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De Idanha-a-Nova a Espanha para atestar o depósito

Foto Marcos Borga

Cerca de 50 portugueses deslocam-se diariamente a Espanha para abastecer o depósito do carro. Há alguns anos os espanhóis preferiam os postos de combustíveis portugueses

A maioria dos residentes no concelho de Idanha-a-Nova vão a Espanha atestar os depósitos das viaturas, onde a gasolina é 31 cêntimos por litro mais barata e no gasóleo a diferença é de cerca de 20 cêntimos.

Em Termas de Monfortinho, localidade do concelho de Idanha-a-Nova, que faz fronteira com Espanha, é raro encontrar um residente que tenha carro e que não vá a Espanha, nomeadamente a Zarza La Mayor ou a Cilleros, abastecer o depósito e comprar gás de garrafa, cujo preço em Portugal é o dobro.

Lola Soares Montero, de 51 anos, trabalha no posto de abastecimento de combustível de Zarza La Mayor, localidade espanhola que fica a escassos 17 quilómetros da fronteira portuguesa.

"A maioria dos clientes são portugueses. Vêm das Termas de Monfortinho, de Salvaterra do Extremo, de Segura, de Idanha-a-Nova e até de Penamacor e de Castelo Branco", afirma, com um sorriso.

No posto de abastecimento de combustível desta localidade espanhola, o gasóleo estava a 1,22 euros por litro e a gasolina 95 a 1,31 euros por litro, enquanto no posto português mais próximo da fronteira, em Penha Garcia, o gasóleo simples marca 1,43 euros por litro e a gasolina 95, 1,62 euros por litro.

"Para nós é divinal. Que venham de Portugal todos os que querem. Em média, temos mais de 50 portugueses diariamente a abastecer aqui", disse.

Lola Soares Montero adiantou que depois da Semana Santa tiveram uma enorme quebra nas vendas de combustíveis devido às enxurradas que impediram a passagem dos portugueses pelo rio Erges.

"Com as enxurradas o rio subiu e foi um aborrecimento porque os portugueses não podiam passar", explicou.

Funcionários portugueses preocupados

A satisfação de Lola Soares Montero contrasta com a preocupação de José Almeida, um dos funcionários do primeiro posto de abastecimento de combustível em território português, em Penha Garcia, localidade que dista 15 quilómetros da fronteira.

"Já há bastante tempo que temos notado uma grande diferença no número de clientes. Nas últimas semanas, então, ainda se notou mais. Tenho muitos clientes que chegam aqui e metem cinco euros para chegar a Espanha. E dizem-me mesmo que vão lá abastecer", disse.

O funcionário português, de 49 anos, considera que não se justifica a diferença de preços e adianta que esta situação prejudica imenso o comércio, principalmente, nas zonas de fronteira.

"As pessoas vão lá abastecer, atestam os depósitos e ainda trazem bilhas de gás", explica.

José Almeida, que trabalha há 20 anos no posto de Penha Garcia, realça que, nos primeiros anos que ali esteve, chegava a vender mil litros de combustível aos espanhóis que se deslocavam ali de propósito porque era mais barato do que em Espanha.

"Os políticos querem tudo para eles. É só isso", desabafa.

Maria João do Vale, uma comerciante de Termas de Monfortinho, tem quatro viaturas que utiliza para trabalhar e diz que vai sempre abastecer a Espanha.

"Vamos lá [a Espanha] muita vez até porque o meu médico de família é em Moraleja. Sempre que vou aproveito para abastecer. A maioria das pessoas do concelho vai lá. É muita a diferença [de preço]. Isto é um problema para quem trabalha", refere.

A localidade de Termas de Monfortinho já teve um posto de abastecimento de combustível, mas este encerrou há cerca de nove anos e, desde essa data, a comerciante e o seu marido, Vítor do Vale, deslocam-se regularmente a Espanha para abastecer as viaturas.

"Vamos lá e ainda trago sempre 30 litros para ter aqui em casa. É muito raro meter combustível em Portugal", explicou.

Já Zália Antunes, de 27 anos, natural e residente de Termas de Monfortinho, adiantou que quer ela, quer os seus familiares, vão a Espanha abastecer as viaturas.

"Daqui a Espanha [Cilleros ou a Zarza La Mayor] são 17 quilómetros, equivale à distância que faço em Portugal [Penha Garcia]. A distância é praticamente igual. Costumo ir às compras e abastecer", contou.

A jovem sublinha que a população local vai quase toda a Espanha há muitos anos e adianta que a diferença de preços só prejudica Portugal.