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Santos populares: manjerico vs. alho porro é o duelo da temporada

Por João Diogo Correia

Um manjerico está longe de ser uma desgraça, mas também nunca vem só. Explica o poeta: “O manjerico e a bandeira/ Que há no cravo de papel/ Tudo isso enche a noite inteira,/ Ó boca de sangue e mel.” Fernando Pessoa versão ortónima lembra-nos que os milagres casamenteiros de Santo António têm mais encanto quando à planta, também conhecida como “erva dos namorados”, juntamos um bom verso. A tradição pagã manda aproveitar o solstício de verão para celebrar a fecundidade, e os enamorados obedecem, trocando quadras à janela, onde os manjericos se dão bem, com luz solar em doses moderadas e um talento nato para afastar intrusos (não há inseto que se aproxime). Reza o mito que o manjerico não resiste a ser diretamente cheirado, só que a verdade é outra: falamos de uma planta anual, que floresce apenas uma vez, morrendo de seguida, com ou sem narizes metidos onde não são chamados — é a natureza, estúpido! Apesar de sensível como o amor deve ser, o bom manjerico mantém-se firme quando tocado, com as folhas agrupadas como um arbusto. Serve por isso para decorar, namorar, cheirar, comer (um condimento benéfico para o organismo) e curar (tem propriedades medicinais). Originário da Índia, corre frequentemente o mundo e cria raízes na Lisboa do mês de junho. Se nem um(a) Pessoa lhe resiste, quem é o alho porro para se atrever?

Por André Manuel Correia

Não cheira bem e não cheira, de todo, a Lisboa. Não é tão perfumado como o manjerico, mas o que importa o odor na noite sanjoanina, se das roupas só vai exalar a fragrância da sardinha assada? Olfato à parte, vamos à essência da tradição do alho-porro, indispensável, diz a sabedoria popular, para afastar o mau olhado, a inveja e inverter a má sina. Ainda não existiam rusgas de São João. Nem balões nem martelinhos chegados da China. Tão pouco havia Porto, quando um hábito atracou no norte peninsular, trazido pelos celtas, povo guerreiro e politeísta — que de santo pouco tinha — mais dado a celebrar com pompa, circunstância e alho o solstício de verão. A Invicta não é de modas e há costumes que superam o tempo. A cultura cristã espalhou-se pelos quatro cantos do mundo e agarrou, tal como em muitos outros casos, o legado pagão de andar com o alho porro na mão, para garantir proteção e fecundidade. A prática de dar com o vegetal espigado na cabeça de quem passa tornou-se, durante o século XIX, um gesto de saudação. Não é tão versado como o manjerico e não se faz acompanhar de quadras populares. É pouco dado a ser levado para casa num vaso. Gosta de andar pelas ruas e de se meter em alhadas, sempre afoito e disponível para se roçar no rosto da moça solteira ou do rapaz pimpão que se apresentam desprevenidos. Assim se faz a festa no Porto. Com alho, porro.