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A nobreza das entranhas, dos pés de porco e das patas de galinha. A vida de Bourdain com o emigrante José Meireles

O português José Meireles foi patrão e amigo de Anthony Bourdain, provou-lhe os pratos, ensinou-lhe comidas portuguesas. Há 15 anos levou-o à matança do porco em Celorico de Basto. No ano passado, voltaram a repetir e essa foi a última vez que estiveram juntos. Anthony Bourdain morreu esta sexta-feira aos 61 anos

Anthony e José em fevereiro do ano passado em Celorico de Basto

Anthony e José em fevereiro do ano passado em Celorico de Basto

DR

Conheceram-se como o patrão José e o funcionário Anthony. Era o final os anos 90 e, em Nova Iorque, um novo chef de cozinha chegava ao Les Halles, uma cervejaria francesa no centro da cidade norte-americana. Tinha respondido a um anúncio no jornal, apresentou-se à entrevista e ficou com o emprego, naqueles tempos quase ninguém sabia quem ele era. Os dois serviram milhares de jantares, outros tantos almoços. Ficaram o amigo José e o amigo Tony. Tornaram-se o empresário e chef José Meireles e o chef Anthony Bourdain.

“Escolhi-o pelo currículo, claro, mas porque achei muita graça à personalidade: genuíno, fácil trato, bom sentido de humor.” José Meireles, 61 anos, era o dono do Les Halles, o restaurante onde Bourdain trabalhou antes de lançar o primeiro livro, “Kitchen Cofindencial”, que alcançou popularidade imediata e o tornou numa estrela. “Também era irreverente, isso impressionou-me. E o restaurante também era considerado irreverente. Era um bom match”. José pede-nos desculpa pelo português, já não se lembra de algumas palavras que ficaram esquecidas ao longo dos 35 anos emigrado nos Estados Unidos.

No Les Halles a especialidade era steak au poivre – uma espécie de bitoque à francesa. Anthony Bourdain era responsável máximo pela cozinha e, com o passar do tempo e o crescimento do negócio, José foi deixando de ter tanto tempo para o restaurante e Anthony foi ganhando mais destaque. “Não tinha papas na língua e dizia o que tinha a dizer. E isso faz-nos confiar na pessoa”, diz José ao Expresso.

O humor de Bourdain distinguia-o entre a meia centena de funcionários do restaurante. Não batia com a mão na mesa quando algo corria mal. “Lidava com as dificuldades do dia com humor e isso era uma novidade entre os chefes de cozinha. Normalmente, temos pouco sentido de humor. Era uma forma mais simpática, com algum sarcasmo. Diria que era um talento.”

Em 2001, Bourdain lançou o primeiro livro, seguiram-se os convites para programas de televisão e o resto já se sabe: ainda há uns tempos, jantava com Barack Obama num pequeno espaço algures no Vietname. Com o sucesso, decide deixar o Les Halles. “Era um verdadeiro de contador de histórias, dizia as coisas com simplicidade e verdade, não procurava grandes intlectualidades”, refere o chef português.

A nobreza das entranhas, dos pés de porco e das patas de galinha

Muitos sabem que Anthony Bourdain esteve no Porto, Açores e Lisboa. Poucos sabem que também esteve pelo menos duas vezes em Celorico de Basto para a matança do porco. Há 16 ou 17 anos, no primeiro programa que apresentou, “A Cook's Tour”, passou por Portugal. Para o episódio “Stuffed Like a Pig”, o norte-americano pediu a José para organizar tudo. E assim foi.

“Foi muito excitante nos EUA porque nunca tinham visto nada como aquilo, toda a gente achava que as costelas já vinham embaladas e não se fazia nada ao bichinho. Muitas pessoas ficaram chocadas, escandalizadas. Outras aplaudiram”, lembra José. “A irreverência dele abriu portas a ingredientes que não eram usados, como as entranhas dos animais, o pé de porco, as patas de galinha. Deu a conhecer outras cozinhas pelo mundo fora, que eram desconhecidas de muita gente. Deu mundos, deu cultura através da cozinha.”

Desde daí, foram falando aqui e acolá. Às vezes, Bourdain ia jantar ou almoçar a um dos restaurantes de José, trocavam uns emails. Continuaram amigos. “Sabíamos que podíamos conta um com o outro e também por isso ele ligou-me em janeiro de 2017.” O chef queria regressar a Celorico, queria voltar a participar na matança do porco e a mostrá-la nos seus programas. Desta vez não foi tão polémico.

“Parecia feliz da vida, simpático e sempre a falar da namorada. De minha casa seguiu para Itália”, diz. Depois, voltaram a trocar uns emails quando o episódio foi emitido. Foi a última vez que falaram os dois. “É difícil perceber tudo o que aconteceu agora.”