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A ilha da gente feliz

Nos passeios pedestres, na pesca, nas conversas de ocasião e ainda mais nos bailes de roda, a bonomia das gentes foi uma boa surpresa. Outra foi a beleza natural desta ilha, que nos cativou desde o primeiro minuto

João Paulo Galacho, textos, fotos e vídeos

Mas a realidade nem sempre foi assim.

"As ilhas desconhecidas", de Raul Brandão, um livro incontornável sobre os Açores, tem descrições magistrais do Pico, do Corvo e das outras ilhas, mas quando chegamos às três breves páginas que dedica a São Jorge, sofremos um baque.

Impressionado pelo pastor que encontra "...naquele ermo triste.", o "...homem mais desgraçado dos Açores.", "...um bruto...", "… um homem diferente, mais perto do animal que os outros homens.", o escritor descreve a ilha como "...fúnebre ...", "...trágica ...", "Pastagens, pastagens... Terra triste, impressão severa."

Quase 100 anos depois, não encontrámos o rasto do pastor retratado por Raul Brandão, nem uma "Terra triste …". Antes pelo contrário...

A luz de fim de dia na Fajã dos Vimes
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A luz de fim de dia na Fajã dos Vimes

João Paulo Galacho

A cascata da Ribeira de São Tomé e a sua grande lagoa
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A cascata da Ribeira de São Tomé e a sua grande lagoa

João Paulo Galacho

Na Serra do Topo, virados a sul, com a ponta leste da Ilha do Pico no horizonte
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Na Serra do Topo, virados a sul, com a ponta leste da Ilha do Pico no horizonte

João Paulo Galacho

No miradouro da Fajã dos Cubres, na estrada de acesso à mesma, tem-se uma das melhores vistas da costa Norte da ilha
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No miradouro da Fajã dos Cubres, na estrada de acesso à mesma, tem-se uma das melhores vistas da costa Norte da ilha

João Paulo Galacho

É imperdível percorrer o estradão que atravessa a cordilheira central de São Jorge — é acessível a um carro ligeiro
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É imperdível percorrer o estradão que atravessa a cordilheira central de São Jorge — é acessível a um carro ligeiro

João Paulo Galacho

A ponta dos Rosais, a zona menos povoada da ilha, também merece um passeio
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A ponta dos Rosais, a zona menos povoada da ilha, também merece um passeio

João Paulo Galacho

Veja-se o caso de Carlos, que construiu as suas próprias casas em madeira - tem duas - e que quando chega à da Fajã da Caldeira de Santo Cristo arruma os sapatos e anda descalço; veja-se o caso de Márcio, o jovem patrão de um barco, pescador e agora também barbeiro encartado; veja-se o caso de Dina e da sua família, que colocaram a Fajã dos Vimes no mapa; veja-se o caso de Bruno, tocador de viola da terra, mandador em bailes de roda, cantador ao desafio e letrista de canções tradicionais.

Ora façam o favor de nos acompanhar...


PERCURSO PEDESTRE

O cartão de visita de São Jorge

Prémio. A Fajã da Caldeira de Santo Cristo é a grande atração deste passeio

Prémio. A Fajã da Caldeira de Santo Cristo é a grande atração deste passeio

João Paulo Galacho

O percurso pedestre mais conhecido de São Jorge, o PR-1 Serra do Topo-Caldeira de Santo Cristo-Fajã dos Cubres, não ganhou fama por acaso. É um autêntico cartão de visita: a diversidade de paisagens que percorremos, numa descida de 10 quilómetros, que nos leva dos 700 metros de altitude ao nível do mar, espelham-nos a ilha na perfeição.

Desde as terras altas, forradas de espessos musgos que retêm as chuvas abundantes e que dão origem a múltiplas linhas de água, logo transmutadas em ribeiras enquanto descem em direção ao mar;

às terras intermédias, com os cedros do mato retorcidos pelos ventos atlânticos, a darem um toque fantasmagórico à paisagem, mas onde a praga da roca – planta invasora, oriunda dos Himalaias – começa a dominar a vegetação autóctone;

até às terras já perto do mar, com as suas clareiras de erva viçosa onde pastam pachorrentas vacas e onde surgem os primeiros vislumbres da Fajã da Caldeira de Santo Cristo.

No primeiro teço do percurso (PR-1) a vegetação endémica predomina e é um regalo para a vista
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No primeiro teço do percurso (PR-1) a vegetação endémica predomina e é um regalo para a vista

João Paulo Galacho

Pormenores de um verdadeiro passeio na natureza
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Pormenores de um verdadeiro passeio na natureza

João Paulo Galacho

Imagem elucidativa de como a praga da roca está a ganhar terreno às plantas autóctones
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Imagem elucidativa de como a praga da roca está a ganhar terreno às plantas autóctones

João Paulo Galacho

Já mais perto do mar aparecem os primeiros talhões agrícolas
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Já mais perto do mar aparecem os primeiros talhões agrícolas

João Paulo Galacho

A Cascata Pequena realmente não é muito alta, mas deu origem a uma generosa lagoa
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A Cascata Pequena realmente não é muito alta, mas deu origem a uma generosa lagoa

João Paulo Galacho

Na descida final, depois de fazermos um desvio assinalado para ver a cascata e respetiva lagoa, ideal para um mergulho, apressamos o passo para chegar à Caldeira – como localmente lhe chamam. A sua extensa lagoa e a altaneira igreja branca, debruada de pedra vulcânica, que se interpõe entre as casas e o mar, são um chamariz irresistível.

Há uma dúzia de anos, a fajã ganhou notoriedade nas comunidades de surf e bodyboard pelas suas excelentes ondas e desde então algumas casas foram recuperadas e transformadas em alojamentos locais e até existe um restaurante que serve um turismo crescente. Habitam-na em permanência 4 pessoas e embora as infraestruturas que vão trazer a eletricidade à Caldeira estejam praticamente prontas, ainda são os geradores particulares que fornecem energia. A ribeira garante água o ano inteiro e para as casas que não têm a sua própria captação, já existe uma rede de distribuição pública.

Já na Caldeira, a visita começa na igreja, cujo patrono é o Senhor Santo Cristo
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Já na Caldeira, a visita começa na igreja, cujo patrono é o Senhor Santo Cristo

João Paulo Galacho

A maior parte da lagoa da Caldeira tem uma profundidade de meio metro, que é onde se apanham as amêijoas: com fato de mergulho, revolvendo os fundos com as mãos
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A maior parte da lagoa da Caldeira tem uma profundidade de meio metro, que é onde se apanham as amêijoas: com fato de mergulho, revolvendo os fundos com as mãos

João Paulo Galacho

A vaca, de barriga cheia, que é quando se dão ao luxo de se deitarem, enquadrada com a ligação da lagoa ao mar
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A vaca, de barriga cheia, que é quando se dão ao luxo de se deitarem, enquadrada com a ligação da lagoa ao mar

João Paulo Galacho

São as motos 4x4, que garantem o transporte de pessoas e abastecimentos, da Fajã dos Cubres até à Caldeira
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São as motos 4x4, que garantem o transporte de pessoas e abastecimentos, da Fajã dos Cubres até à Caldeira

João Paulo Galacho

Nos troços mais perigosos, o caminho tem umas cercas rústicas de madeira, que nos protegem dos precipícios
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Nos troços mais perigosos, o caminho tem umas cercas rústicas de madeira, que nos protegem dos precipícios

João Paulo Galacho

A lagoa da Fajã dos Cubres não tem amêijoas, mas tem uma envolvente ainda mais bonita do que a lagoa da Caldeira
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A lagoa da Fajã dos Cubres não tem amêijoas, mas tem uma envolvente ainda mais bonita do que a lagoa da Caldeira

João Paulo Galacho

Da Caldeira faltam 4,5 km para chegar à Fajã dos Cubres, o fim do passeio. Percorremos um estreito caminho – só motos 4x4 conseguem circular aqui – de terra vermelha ladeados pelo mar à direita e por vertentes abruptas à esquerda, onde as derrocadas são frequentes. Algumas faixas nuas, no meio do verde omnipresente, deixam-nos perceber que resultaram da queda de blocos de pedra, que arrastaram à sua frente toda a vegetação. Redobramos a atenção a qualquer barulho que indicie desprendimentos, mas a imensidão de oceano distrai-nos do perigo.

Passamos na Fajã dos Tijolos e na do Belo, que foi habitada até ao terramoto de 1980 e onde algumas casas começaram também a ser recuperadas e, quando nos apercebemos, estamos na estrada alcatroada da Fajã dos Cubres, que nos devolve à civilização.


CARLOS PICANÇO

O 'bom selvagem'

Autossubsistência. Uma das engenhocas de Carlos: uma bicicleta fixa, que ao pedalar aciona o tambor de uma máquina de lavar roupa

Autossubsistência. Uma das engenhocas de Carlos: uma bicicleta fixa, que ao pedalar aciona o tambor de uma máquina de lavar roupa

d.r.

Foi enquanto nos deliciávamos com uma dose das grandes e carnudas amêijoas da Caldeira – nos Açores, estes bivalves só crescem aqui – no snack-bar Costa Norte, o único estabelecimento comercial da Fajã dos Cubres, que apareceu Carlos Picanço, 40 anos, natural da Graciosa, mas a viver em São Jorge desde os 3. Vinha da sua casa da Fajã de Santo Cristo e no decorrer da conversa foi uma surpresa percebemos que o Carlos, em pleno século XXI, consegue viver quase em autossubsistência:

Tamanjo XL. As amêijoas da Caldeira têm um tamanho considerável. Atente-se na moeda de €1 na toalha

Tamanjo XL. As amêijoas da Caldeira têm um tamanho considerável. Atente-se na moeda de €1 na toalha

"Quando vou para a Caldeira só me preocupo em levar pão e queijo. De resto há lá tudo. Caço coelhos, pesco enguias na ribeira e com a ajuda dos cães até apanho cabras selvagens. Na horta, o que semeio medra em abundância e o funcho para fazer sopa apanha-se em qualquer lugar. Às vezes ajudo os vizinhos com as vacas e eles dão-me leite, a que depois nem consigo dar vazão. Também faço mergulho no mar onde apanho lapas e peixe e tenho meia dúzia de galinhas que dão ovos com fartura. E sabem o que me dá mais gozo? É andar sempre descalço. Quando lá chego arrumo logo os sapatos.

Faço uns trabalhinhos por aí, sobretudo nas obras e há 10 anos fui reconstruir uma casa na Caldeira e apaixonei-me por aquele sítio. Entretanto, um amigo que tem lá um terreno, cedeu-me uma parte para fazer uma casinha para mim.

Carreguei uma jangada com as madeiras, o cimento, as cenas mais pesadas, e num dia de mar calmo, com um barco de um amigo a puxar, zarpámos da Fajã dos Cubres e trouxemos as coisas para a Caldeira.

Estendi um cano da ribeira até à casa e uso a água para beber, cozinhar, tomar banho e agora até para ter energia. Montei uma engenhoca em que a corrente da água me carrega umas baterias e já nem preciso de usar gerador.

Autoconstrução. Uma das casas que o Carlos Picanço construiu, esta a do lado sul da ilha

Autoconstrução. Uma das casas que o Carlos Picanço construiu, esta a do lado sul da ilha

d.r.

Quando lá estou mais tempo e preciso de dinheiro para umas cervejolas e para umas mercearias, apanho umas amêijoas que sempre foram bem pagas. Agora – março de 2017 – estão a 20 euros o quilo. Mas cada vez há menos. Não há quem cultive a lagoa. Os mais velhos lavravam o fundo, para evitar que as algas tomassem conta das águas e para espalhar as amêijoas bebés. Mas agora já ninguém faz isso."

Carlos não mora em permanência na Caldeira mas é com um brilho nos olhos que nos fala do seu dia-a-dia ali, onde encarna o mito do "bom selvagem". E nós, encantados com a sua história, ainda tivemos a sorte de aproveitar a sua boleia até à Serra do Topo. Já sabíamos que o PR-1 não era um percurso circular e estávamos dispostos a chamar um táxi para voltarmos ao carro, o que nos custaria mais de 20 euros. Assim, poupámos um dinheirinho e ainda tivemos o privilégio de ouvir Carlos mais meia hora.


MÁRCIO AVELAR

Barqueiro, pescador... e barbeiro

FARTURA O mar de São Jorge é sinónimo de fartura. O Márcio que o diga...

FARTURA O mar de São Jorge é sinónimo de fartura. O Márcio que o diga...

d.r.

Nas pesquisas que fizemos antes de aterrarmos, percebemos que São Jorge é considerado um paraíso para o canyoning – modalidade cujo objetivo é descer a pé rios com acentuados desníveis, usando cordas. Ficámos impressionados com as mais de 100 ribeiras existentes (sendo que cerca de uma dúzia nunca secam) numa ilha de somente 238 km2. Juntando a esta abundância de água, arribas que chegam aos 700 metros, era evidente que tinha de haver cascatas a despenharem-se no oceano. Para vê-las, uma volta de barco foi a opção. Mas o passeio acabou por ter outros bónus, além das altas quedas de água:

conseguimos distinguir cabras nas encostas, descendentes de rebanhos domésticos que fugiram dos currais, depois do grande terramoto de 1 de janeiro de 1980 e se tornaram assilvestradas;

vimos uma caravela portuguesa à tona de água, um ser marinho muito belo, mas extremamente urticante, que pode provocar queimaduras de até terceiro grau em contacto com a pele humana;

navegámos perto de bandos de cagarros – as aves marinhas que espalham pelas noites açorianas estranhos cantos nupciais, que nos soam a pessoas a tagarelar - pousados no mar, muitas vezes sinal de que por ali andam cardumes de chicharros e cavalas, certamente com atuns e baleias no seu encalce;

contornámos o ilhéu do Topo, com os seus pastos verdejantes, para onde as vacas vão a nado, através do estreito com cerca de 500 metros, que separa o ilhéu da localidade do Topo.

E para acabar em beleza, o fim do passeio coincidiu com um por do sol, digno de bilhete postal. À nossa frente, as silhuetas do Faial e do Pico esconderam o astro, que deixou atrás de si um memorável céu cor de fogo.

Quedas de água para o mar com dezenas de metros, cabras selvagens, uma caravela portuguesa, os cagarros, o Ilhéu do Topo, o por do sol, por detrás do Faial, com o pico a espreitar por entre as nuvens
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Quedas de água para o mar com dezenas de metros, cabras selvagens, uma caravela portuguesa, os cagarros, o Ilhéu do Topo, o por do sol, por detrás do Faial, com o pico a espreitar por entre as nuvens

Quedas de água para o mar com dezenas de metros, cabras selvagens, uma caravela portuguesa, os cagarros, o Ilhéu do Topo, o por do sol, por detrás do Faial, com o pico a espreitar por entre as nuvens
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Quedas de água para o mar com dezenas de metros, cabras selvagens, uma caravela portuguesa, os cagarros, o Ilhéu do Topo, o por do sol, por detrás do Faial, com o pico a espreitar por entre as nuvens

Quedas de água para o mar com dezenas de metros, cabras selvagens, uma caravela portuguesa, os cagarros, o Ilhéu do Topo, o por do sol, por detrás do Faial, com o pico a espreitar por entre as nuvens
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Quedas de água para o mar com dezenas de metros, cabras selvagens, uma caravela portuguesa, os cagarros, o Ilhéu do Topo, o por do sol, por detrás do Faial, com o pico a espreitar por entre as nuvens

Quedas de água para o mar com dezenas de metros, cabras selvagens, uma caravela portuguesa, os cagarros, o Ilhéu do Topo, o por do sol, por detrás do Faial, com o pico a espreitar por entre as nuvens
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Quedas de água para o mar com dezenas de metros, cabras selvagens, uma caravela portuguesa, os cagarros, o Ilhéu do Topo, o por do sol, por detrás do Faial, com o pico a espreitar por entre as nuvens

Quedas de água para o mar com dezenas de metros, cabras selvagens, uma caravela portuguesa, os cagarros, o Ilhéu do Topo, o por do sol, por detrás do Faial, com o pico a espreitar por entre as nuvens
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Quedas de água para o mar com dezenas de metros, cabras selvagens, uma caravela portuguesa, os cagarros, o Ilhéu do Topo, o por do sol, por detrás do Faial, com o pico a espreitar por entre as nuvens

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Márcio Avelar, de 29 anos, tem uma empresa marítimo-turística, a MarAzores, que opera um barco de 16 lugares, com capacidade para ligar as ilhas do grupo central — São Jorge, Pico, Faial, Terceira e Graciosa.

Aluga-o para a pesca, submarina e com canas, para os passeios habituais, como a volta completa à ilha, ou para programas especiais que lhe solicitem. Quando não tem clientes, vai à pesca. A maior parte das vezes com o seu amigo e sócio, Flamínio, de 22 anos.

Apesar de muito novos, já ganharam experiência neste mar pujante de vida. Sabem que o norte dá peixe mais graúdo, mas que tem mar mais bravio; sabem que não vale a pena pescar com isco quando há tubarões nas redondezas, pois estes abocanham os peixes quando estão a ser puxados para cima; sabem que raramente voltam para casa sem uma boa pescaria. Que os alimenta a eles e à família e que muitas vezes ainda sobra para distribuir pelos amigos mais sortudos.

Márcio Avelar e a pesca. A posar, com dois enormes atuns, com Flamínio, a regressarem de mais uma jornada de pesca submarina e na sua nova ocupação de barbeiro
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Márcio Avelar e a pesca. A posar, com dois enormes atuns, com Flamínio, a regressarem de mais uma jornada de pesca submarina e na sua nova ocupação de barbeiro

d.r.

Márcio Avelar e a pesca. A posar, com dois enormes atuns, com Flamínio, a regressarem de mais uma jornada de pesca submarina e na sua nova ocupação de barbeiro
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Márcio Avelar e a pesca. A posar, com dois enormes atuns, com Flamínio, a regressarem de mais uma jornada de pesca submarina e na sua nova ocupação de barbeiro

Márcio Avelar e a pesca. A posar, com dois enormes atuns, com Flamínio, a regressarem de mais uma jornada de pesca submarina e na sua nova ocupação de barbeiro
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Márcio Avelar e a pesca. A posar, com dois enormes atuns, com Flamínio, a regressarem de mais uma jornada de pesca submarina e na sua nova ocupação de barbeiro

Pescam do barco, com canas e a maior parte das vezes usam amostras – pequenos peixes artificiais com anzóis disfarçados – para fisgar o peixe. Contam com a ajuda de um GPS, onde têm gravadas as coordenadas dos melhores pesqueiros e de uma sonda, que varre o fundo do mar e deteta as presas.

Também fazem pesca submarina e não se queixam das capturas: "Outro dia o Flamínio arpoou um tamboril de 43 kg. Fomos ver à internet e era recorde mundial", diz-nos o Márcio enquanto nos mostra a foto no telemóvel, onde o Flamínio segura o enorme peixe à sua frente, que lhe tapa o corpo quase todo. Então e não registaram o vosso feito? perguntamos-lhe: "Ainda andámos a ver o que era preciso, mas era uma grande burocracia, e acabámos por deixar passar o tempo e não oficializámos a coisa."

Gigante. Mesmo neste mar tão rico de peixe, o tamboril de 43 kg que Flamínio apanhou, impressiona qualquer um

Gigante. Mesmo neste mar tão rico de peixe, o tamboril de 43 kg que Flamínio apanhou, impressiona qualquer um

d.r.

Ainda se dedicam à apanha de lapas chegando a arrancar das rochas 80kg desta iguaria, o limite diário permitido. Têm licença de apanhadores profissionais, o que lhes permite vendê-las a um preço que oscila entre os 6 e os 8 euros e assim complementar os rendimentos dos passeios de barco.

Acertámos com eles uma volta em redor da ilha e em boa hora lhes pedimos para levarem também umas canas de pesca, para testarmos os nossos dotes de pescador. A meia dúzia de pesqueiros onde lançámos os anzóis, deram, segundo os nossos cálculos, peixe suficiente para alimentar uma família de três pessoas durante 15 dias. Mas o melhor mesmo, é a sensação de sentir a cana a vergar, fisgar o peixe e conseguir colocá-lo, orgulhosos, na caixa das capturas: afinal também fomos capazes de apanhar a nossa refeição.

E não podemos deixar de dar as últimas novidades. Márcio tirou um curso profissional de barbeiro em Lisboa e agora, para além do barco e da pesca, também explora a 'Barbearia Amorim' na Calheta: "Aqui na ilha só há um barbeiro, o senhor Abel, que tem casa aberta nas Velas. Já está velhote e não faz aqueles cortes mais modernos que a malta nova gosta. Eu, cada vez que vou ao continente, a primeira coisa que faço é ir a uma boa barbearia. Aquela sensação da toalhinha quente na cara, a amolecer a barba, para depois ser mais fácil escanhoar, é uma coisa que me dá prazer. E vi aqui uma boa oportunidade de negócio. No inverno, na maior parte dos dias o mar está bravo e não podemos ir pescar, não há turistas para fazer passeios e com a barbearia já tenho outro ganha pão que, tal como os outros, faço com gosto."

E pelo que ouvimos dizer, já se nota o seu trabalho nos penteados, agora mais artísticos, dos jovens da ilha.


OS NUNES

A família dos mil ofícios

Cafezal. Na Fajã dos Vimes, é imperdível uma vista guiada à plantação de café da família Nunes. E no fim, claro, provar um cafezinho

Cafezal. Na Fajã dos Vimes, é imperdível uma vista guiada à plantação de café da família Nunes. E no fim, claro, provar um cafezinho

d.r.

Dina Nunes, de 31 anos, foi uma das últimas pessoas a nascer em São Jorge, no antigo Hospital das Velas, hoje Centro de Saúde.

Até meados dos anos noventa – altura em que a Direção Regional de Saúde começou a encaminhar as parturientes para a Terceira, Faial e São Miguel – os bebés de São Jorge ainda viam pela primeira vez a luz do dia na ilha. Dina e a maioria dos que nasceram nessa altura, com a ajuda de Filomena Lourenço, parteira e freira franciscana, que entrou ao serviço em 1978 e se reformou em 2011. Atualmente com 81 anos, reside na Casa de Repouso João Inácio de Sousa e não perdeu o sentido de missão cristã: “Continuo a trabalhar, agora como voluntária, na ajuda aos velhotes aqui no lar. Ainda me vieram chamar duas ou três vezes para ajudar em partos, lá no Centro de Saúde, mas já são poucas as mulheres a ter os filhos aqui na ilha.”

Portanto, o mais certo é que se quebre um dos elos da família de Dina, toda ela natural de São Jorge: "Os meus pais, avós, bisavós, todos eles nasceram aqui. Tenho pena porque os Nunes que hão de vir, provavelmente nascerão noutra ilha, mas percebo. É o que dá viver num sítio pequeno, que obviamente não pode ter tudo aqui. Mas sabem uma coisa? Não a troco por outro sítio. Estive 3 anos no continente, onde tirei o curso de Desporto de Natureza e Turismo Ativo, mas voltei logo a seguir. É aqui que sou feliz."

Dina Nunes não é rapariga para estar parada. Seja no canyoning, a orientar grupos, ou a reconhecer e a desmatar troços das ribeiras, seja na cultura do café, a revolver os grãos que secam no terreiro, seja a desafiar as cascatas mais íngremes da ilha
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Dina Nunes não é rapariga para estar parada. Seja no canyoning, a orientar grupos, ou a reconhecer e a desmatar troços das ribeiras, seja na cultura do café, a revolver os grãos que secam no terreiro, seja a desafiar as cascatas mais íngremes da ilha

Dina Nunes não é rapariga para estar parada. Seja no canyoning, a orientar grupos, ou a reconhecer e a desmatar troços das ribeiras, seja na cultura do café, a revolver os grãos que secam no terreiro, seja a desafiar as cascatas mais íngremes da ilha
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Dina Nunes não é rapariga para estar parada. Seja no canyoning, a orientar grupos, ou a reconhecer e a desmatar troços das ribeiras, seja na cultura do café, a revolver os grãos que secam no terreiro, seja a desafiar as cascatas mais íngremes da ilha

Dina Nunes não é rapariga para estar parada. Seja no canyoning, a orientar grupos, ou a reconhecer e a desmatar troços das ribeiras, seja na cultura do café, a revolver os grãos que secam no terreiro, seja a desafiar as cascatas mais íngremes da ilha
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Dina Nunes não é rapariga para estar parada. Seja no canyoning, a orientar grupos, ou a reconhecer e a desmatar troços das ribeiras, seja na cultura do café, a revolver os grãos que secam no terreiro, seja a desafiar as cascatas mais íngremes da ilha

Este discurso lembrou-nos logo Dona Adelina, nossa anfitriã há meia dúzia de anos na ilha do Pico, quando nos abriu os olhos, cegos pela beleza natural que nos rodeava: "Eu adoro viver aqui, mas estou consciente dos problemas que isso acarreta. Sabem o que é estar mau tempo e termos um problema de saúde mais grave? Estamos sujeitos aos barcos não se poderem fazer ao mar, aos helicópteros não terem condições para levantar voo e nós aqui, à espera de uma abertura no tempo para sermos evacuados. E o facto, é que alguns já morreram durante essa espera."

Citamos este episódio para chamar a atenção para o que, numa primeira impressão dos Açores, raramente nos apercebemos: a insularidade não é palavra vã. Para o bem e para o mal.

Mas voltando ao bem, que a advertência da parte má está feita, passemos agora à família de Dina, outro exemplo da quase autossubsistência em que alguns dos jorgenses vivem.
Foi enquanto provávamos umas deliciosas nêsperas no seu quintal, que o pai de Dina, Manuel Nunes, de 65 anos, nos revelou:

"A única coisa que não vingou aqui na Fajã dos Vimes, foram as cerejeiras. Se quero provar as cerejas, tenho de as comprar. O resto da fruta tenho aqui tudo. Também tenho uma horta, onde colho com fartura, o peixe que comemos cá em casa sou eu que o apanho, tenho criação, que me dá ovos e carne. Não me queixo...

E depois tenho a plantação de café – e aqui nos olhos de Manuel brilharam. Este ano conto ultrapassar os 1000 quilos. A propósito, sabem que São Jorge é o único território europeu que produz café? Pois é! E bom. Ora venham lá prová-lo", claro que não nos fizemos rogados e atestamos aqui a qualidade da produção.

Manuel Nunes ainda arranja tempo para atender fregueses na loja de artesanato e num pequeno bar, o único da fajã, onde vende o seu café, em pequenas sacas e que funciona como ponto de encontro dos habitantes dos Vimes.

E foi numa amena cavaqueira, em frente a um cafezinho — da fajã, claro —, que Dina nos contou uma história passada consigo, intercalada por muitas gargalhadas:

"Há uns anos, apareceu aqui um senhor, já velhote, que me pediu para ver o cafezal. O meu pai, que é o mestre do café, não estava e fiz eu a visita. E qual não foi o meu espanto quando ele viu as plantas e as identificou de imediato como sendo da variedade Arábico do Brasil. Fez-me muitas perguntas e percebi logo que sabia muito mais de café do que eu. Foi sempre muito simpático, até que me perguntou se eu não sabia quem ele era. Respondi-lhe que não e foi aí que ele se identificou como Rui Nabeiro, o dono dos Cafés Delta e me disse que tinha vindo de propósito a São Jorge para ver os cafeeiros. Deu-me os parabéns pelo viço da nossa plantação, bebeu um cafezinho, que elogiou e foi-se embora.

Só depois é que fui à internet ver quem era o senhor e nem queria acreditar. O homem mais importante do café em Portugal tinha estado aqui e eu nem sabia quem ele era. Que vergonha..."

Falta agora falar de outra atividade, desta família de empreendedores, a que Alzira, mãe de Dina e Carminda, a tia, se dedicam nos momentos livres dos afazeres domésticos: a arte das Colchas de Ponto Alto. Ver as duas no grande tear, a enviarem a lançadeira uma à outra, por entre uma floresta de fios, logo seguido de puxões enérgicos no pente que compacta a teia, é ver uma equipa muito treinada, em plena sintonia. E nem precisam de um desenho, com o padrão do tapete: "O desenho está na nossa cabeça. Já fizemos tantos que isto já sai automaticamente", explica-nos Alzira, para logo a seguir nos contar como se tornaram tecedeiras:

"Uma senhora de idade, aqui dos Vimes, tinha vários teares e ensinou a arte a um grupo de raparigas. Eu e a minha irmã aprendemos, o meu marido construiu os teares e há 42 anos que fazemos colchas. Um de 2,5 por 3 metros, demora-nos 7 dias a fazer, em jornadas de 12 horas. Possivelmente somos as últimas. Aqui na Fajã dos Vimes não há mais ninguém a fazer colchas deste ponto. Se calhar a arte morre connosco..."


TRADIÇÃO

A magia dos bailes de roda

Bruno Oliveira, 30 anos, nado e criado em São Jorge, cedo se encantou com as tradições musicais do arquipélago. É tocador de viola da terra, de bandolim, mandador em bailes regionais e autor de algumas letras que já entraram no cancioneiro regional. Destaca-se na nova geração de cantadores ao desafio e é frequentemente solicitado para atuar em festas no arquipélago e junto das comunidades açorianas no Canadá e nos Estados Unidos da América.

Conhecemos Bruno durante uma caminhada noturna, com "churrascada e bailarico", organizada pela Junta de Freguesia do Norte Pequeno, que promovia os percursos pedestres circulares e pela Discover Experience, a empresa de desporto aventura que Dina Nunes criou e explora. Inscreveram-se — gratuitamente — cerca de 100 pessoas, que ao fim da tarde iniciaram a acentuada descida (um desnível de quase 500 metros em 3 quilómetros) do Norte Pequeno para a Fajã das Pontas. Com o aproximar da noite, o numeroso grupo transfigurou-se numa fila de luzes andantes, que mal alumiavam a densa vegetação, numa envolvente estranha, que prenunciava, no mínimo, uma noite diferente.

E assim foi. Esperava-nos o hospitaleiro JJ (como é conhecido Jorge Fagundes), que disponibilizou o terreiro da sua casa na Fajã das Pontas para um saboroso jantar: frango assado, massa envolvida com vegetais em maionese caseira, queijo da ilha, vinho local, de cheiro e no fim, com o café, umas gulosas rosquilhas com pepitas de chocolate.

Pirilampos. O percurso pedestre, na cerrada noite açoriana, foi uma aventura

Pirilampos. O percurso pedestre, na cerrada noite açoriana, foi uma aventura

Mas a grande surpresa surgiu com as primeiras notas do grupo de cinco músicos, que deram início ao anunciado "bailarico", que nada tem a ver com os habituais bailaricos do continente. Desde logo porque os músicos não estão imóveis num palco, mas sim na roda, dançando enquanto tocam— exceto nas chamarritas, género com um ritmo mais acelerado, onde ficam de fora. Normalmente é um dos músicos a assumir o papel de mandante, que é quem através de um grito comanda o grupo: "roda à esquerda, roda à direita, vai ao centro, troca de par". Novos e velhos evoluem no terreiro, em movimentos harmoniosos, que lembram as danças medievais, cantam em coro afinado e, sobretudo, tiram um prazer evidente. E foi ao assistir a este ritual ancestral, onde nos deu a ideia que os jorgenses se apaziguam consigo mesmos, que definitivamente validámos a ideia para o título deste trabalho: " A ilha da gente feliz".


HORIZONTES AMPLOS

A norte as fajãs, a sul o Pico

São Jorge é um miradouro privilegiado sobre as outras ilhas do grupo central: está ladeada a norte pela Terceira e pela Graciosa e a sul pelo Pico e pelo Faial. A costa norte é mais escarpada mas, embora seja aí que se situam a maioria das cerca de 80 fajãs da ilha, é na costa sul, com encostas mais suaves, que mora a maior parte das pessoas. Mas talvez haja outra razão adicional: é a sul que se vê o Pico, na imponência dos seus 2351 metros, do outro lado de um estreito com 15 quilómetros. Funciona com um íman para o olhar e o facto é que passámos o tempo a ver se as nuvens se dissipavam, para contemplar aquela "montanha mágica".

O Pico, sempre o Pico. Várias luzes, diferentes nuvens, constantemente a brincar às escondidas com ele. Para nós, fica a alegria de quando o conseguimos ver
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O Pico, sempre o Pico. Várias luzes, diferentes nuvens, constantemente a brincar às escondidas com ele. Para nós, fica a alegria de quando o conseguimos ver

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O Pico, sempre o Pico. Várias luzes, diferentes nuvens, constantemente a brincar às escondidas com ele. Para nós, fica a alegria de quando o conseguimos ver

A ilha tem 53 quilómetros de comprimento, por 8 de largura, com cerca de 9.000 habitantes (4% da população açoriana). O Pico da Esperança, a 1053 metros, é o ponto mais alto da cordilheira montanhosa que a atravessa a todo o comprimento. Tem três vilas, Velas e Calheta, que dão o nome aos dois concelhos da ilha e a Vila do Topo, que é freguesia.

O queijo de São Jorge também trouxe notoriedade à ilha. Talvez, acreditamos, por ser feito com leite de 'vacas felizes' — como a publicidade oportunamente afirma —, visto que estes animais não passam a vida encerradas em vacarias industriais, mas sim em liberdade.