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Grão a grão...

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O regresso da venda dos produtos a granel marca a tendência global para um comércio justo e sustentável. Seguimos-lhe o rasto

Ana Soromenho

Ana Soromenho

Lisboa

Jornalista

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Porto

Jornalista

Uma voltinha pela dispensa de casa e façamos a experiência: quantos alimentos, não frescos, ficaram armazenados dentro das embalagens sem nunca chegarem a ser consumidos? Ora vejamos a caixa das especiarias; cominhos, açafrão, anis, cravinho, pimenta rosa... Tanta coisa por abrir, algumas, já fora de prazo. E estes pacotes de farinha e fermento, encetados para fazer um único bolo? Bem, o melhor é não fazer contas... Ou então fazer, mas para assumir que o desperdício que geramos ao longo de anos de práticas de consumo ditadas pelas regras das grandes cadeias alimentares é avassalador. Foi este pensamento que originou o movimento “Consumo responsável, zero desperdício”, cuja semente foi lançada em Inglaterra, em 2006, com a abertura da primeira loja de venda ao público de produtos a granel 100% biológicos, onde se proibia o uso do plástico e se introduzia o conceito “traga de casa o seu recipiente.”

Desde então, muitas outras cidades juntaram-se ao movimento, criando a rede internacional “Wast Zero Stores”, gerando lojas sofisticadas de comércio local, onde se proporciona ao público balanças e contentores cheios de produtos sem rótulos, onde só o cliente é responsável pela exata medida do seu consumo. Na realidade o que aqui se retomou não foi mais do que uma prática secular de comércio nos lugares de venda e nas mercarias antigas, mas agora com toda uma gama de produtos adaptados aos consumos dos tempos que vivemos e com uma nova consciência social. O que está em jogo é a luta contra o desperdício provocado pelas grandes cadeias alimentares e o lixo colossal que provoca no planeta.

Maria Granel, pioneira do desperdício zero

Maria Granel, pioneira do desperdício zero

Preço certo, comércio justo

“É um comércio a contraciclo, onde cada consumidor é importante e tem mais força do que imagina”, diz-nos Eunice Maia, dona da Maria Granel, a primeira loja portuguesa a aderir ao movimento “Wast Zero Stores”, que apostou em toda a força no granel de biológicos e dispensa qualquer tipo de embalagem em plástico. Esta loja, que regressa ao princípio da mercearia clássica de bairro na sua vertente de proximidade com o público e em dois anos tornou-se um sucesso em Alvalade, é a prova que existe gente disposta a praticar um consumo responsável.

Desde que abriu as portas, no final de 2015, já aumentou a oferta dos seus produtos de 240 para 500. O crescimento do portefólio alimentar da Maria Granel foi construído a partir da flexibilidade que o conceito small is beautiful permite, pois só como o envolvimento dos fregueses e a sua fidelidade à loja é possível criar uma rede de pequenos agricultores e fornecedores, dispostos a apostarem na diversidade de produtos de qualidade, produzidos em pequenas quantidades. Para Eunice, professora de Português a tempo inteiro, este projeto que construiu com o marido, Eduardo, economista, mais do que uma loja é uma missão que funciona como plataforma de formação cívica sobre alimentação e sustentabilidade promovendo debates, cursos e encontros com escolas, feitos em parceria com a junta de freguesia de Alvalade.

Calcorreando Lisboa, podemos observar que esta tendência tem vindo a criar adeptos entre gente com a mesma consciência social e disposta a apostar em pequenas merecerias de bairro e na venda, cada vez mais diversificada, do granel biológico. São o caso da Casa a Granel, em Campo de Ourique, que também abriu porta há já dois anos em frente à Igreja do Santo Contestável, ou das mais recentes #Granel Mercearia Biológica, em Benfica, ou a Granel&Co, na Praça dos Flores. Todas seguem o mesmo princípio do desperdício zero e comércio justo, apostando numa rigorosa seleção de alimentos a granel com grande qualidade. Acrescente-se que na Mercearia Biológica também há detergentes multiusos vendidos a peso; na Casa Granel fornece-se uma receita de pão sem glúten, com a lista dos ingredientes e a exata medida do que se deve comprar e também fazem consultas de nutrição, e a Granel Co. recebe às quartas-feiras o artesanal pão da Gleba, feito com fermento natural e moagem em moinho de pedra. Tal como o casal Eunice e Eduardo, os donos destas lojas têm formação e atividade profissional noutras áreas, mas decidiram abrir este negócio pelo seu amor à terra. Os consumidores agradecem.

O novo-velho granel portuense

No Porto, a vaga dos produtos bio a granel floresceu há dois anos, mas ainda anda a gatinhar, depois do encerramento de três espaços em poucos meses. Curiosamente, a resistência acontece na cidade onde a venda a granel nunca saiu de moda nas mercearias finas da Baixa, como o castiço Pretinho do Japão, de portas abertas desde 1947, ou a bela Pérola do Bolhão, a caminho dos 101 anos de vida e classificada como histórica no programa “Porto de Tradição”.

Entre as contemporâneas a granel, há, contudo, quem faça prova de vida no advento da alimentação mais saudável e de consciência ambiental. É o caso da hospitaleira Mercearia do Miguel, renascida há três anos na Foz, pela mão de Nuno e Teresa Valle, ele arquiteto, ela designer, ambos inimigos do desperdício alimentar e da “praga das embalagens”. Na centenária loja do senhor Miguel, o antigo dono que legou o nome ao espaço, a clientela frequente leva sacos ou frascos de casa para acomodar a fruta e legumes frescos, as sementes de sésamo negro, de girassol e as pevides de abóbora ou a granola caseira. Tudo produtos degustados ao almoço ou lanche, servidos indoor ou na esplanada.

Seguindo na marginal até Matosinhos, perto do Terminal de Cruzeiros, a Raw — Comida&Granel, mais do que espaço de venda de produtos biológicos avulsos e de comida vegetariana e vegan, é o ponto de encontro de quem preza a alimentação e hábitos sadios. “Somos o que comemos e, por isso, o que vendemos é genuíno. Não é processado”, explica Carla Ferreira, mentora do conceito, formada em macrobiótica, terapeuta de shiatsu e ioga no Raw, sob marcação. Ao todo, são mais de 100 produtos (alguns sem glúten), das algas às sementes, das leguminosas aos frutos secos ou desidratados. Tudo a peso, em saquetas de papel, apesar de Carla encorajar a vizinhança a levar saquinhos de pano “à moda antiga”.

Casa a Granel
Rua Francisco Metrass, 6B, Lisboa
Tel. 213 901 510

Granel & Co.
Rua Nova da Piedade, 47, Lisboa
Tel. 213 900 391

#Granel Mercearia Biológica
Estrada de Benfica, 451A, Lisboa 
Tel. 210 174 819

Maria Granel
Rua José Duro, 22, Lisboa 
Tel. 211 351 896

A Mercearia do Miguel
Rua do Passeio Alegre, 130, Porto 
Tel. 220 116 886

Raw — Comida & Granel
Rua Heróis de França, 601, Matosinhos 
Tel. 917 273 653

Pérola do Bolhão
Rua Formosa, 279, Porto 
Tel. 222 004 009