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Mãe de jovem espancado por filhos do embaixador do Iraque satisfeita com acusação

Os gémeos Ridha e Haider, filhos do embaixador, já não se encontram em Portugal

Gémeos Haider e Ridha Ali, filhos do antigo embaixador do Iraque em Portugal, foram acusados pelo Ministério Público de tentativa de homicídio. Autoridades iraquianas nunca levantaram imunidade diplomática e os jovens acabaram por sair do país, desconhecendo-se o seu paradeiro.

Joana Pereira Bastos

Joana Pereira Bastos

Editora de Sociedade

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

A mãe do jovem que no verão de 2016 foi brutalmente espancado pelos filhos do então embaixador do Iraque em Portugal ficou "satisfeita" com a acusação deduzida esta semana, que diz "deitar por terra todas as calúnias daqueles que duvidavam da brutalidade da agressão" e que garantiam que o acordo alcançado quanto à indemnização faria a família desistir do processo crime.

"Estou satisfeita com a acusação porque significa que o Ministério Público levou a investigação até ao fim. Espero agora que os dois agressores sejam julgados e condenados. A acusação demonstra, sem margem para dúvidas, que o Rúben só não morreu por milagre e também que o acordo quanto à indemnização não teve qualquer interferência no andamento do processo crime", afirmou ao Expresso Vilma Pires, mãe do jovem espancado pelos gémeos iraquianos.

A agressão ocorreu na madrugada de 17 de agosto de 2016, em Ponte de Sor (Portalegre), quando Ruben Cavaco foi espancado por Haider e Ridha Ali, então com 17 anos, depois de uma rixa num bar. De acordo com a acusação, os dois irmãos agrediram violentamente o jovem português "com pontapés e murros, atingindo-o principalmente na zona da cabeça e da face" e continuaram a espancá-lo mesmo quando este já estava caído, inanimado, sem qualquer reação.

"Haider e Ridha Ali agiram com o propósito de tirar a vida a Ruben Cavaco, o que apenas não conseguiram alcançar por terem surgido no local pessoas que vieram em auxílio de Ruben e por este ter sido pronta e adequadamente assistido", refere o documento do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Évora.

Ruben sofreu um traumatismo craniano grave e múltiplas fraturas, tendo sido transportado de helicóptero de urgência para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde chegou a estar em coma. "Foi um milagre não ter morrido", frisa a mãe.

Em janeiro do ano passado, Vilma Pires chegou a acordo extrajudicial com o embaixador iraquiano, que pagou à família de Ruben 40 mil euros de indemnização por danos morais e 12 mil para pagamento das despesas hospitalares.

Governo português vai intervir pela via diplomática

Apesar do acordo, a investigação do Ministério Público prosseguiu. O Governo português pediu por duas vezes ao Iraque o levantamento da imunidade diplomática para que os gémeos iraquianos pudessem ser interrogados e constituídos arguidos, mas as autoridades iraquianas nunca aceitaram fazê-lo e acabaram por mudar o embaixador para outro país.

"Nos presentes autos, não foi possível constituir arguidos e interrogar nessa qualidade Haider Saad Ali e Rhida Saad Ali, desconhecendo-se o seu domicílio atual e país de residência, tendo apenas sido informado nos autos que saíram do território nacional, pelo que em Portugal não gozam de imunidade diplomática. Desse modo, adquirem ambos o estatuto de arguidos com acusação", explica a procuradora do DIAP de Évora Aurora Rodrigues.

A Procuradoria-Geral da República irá agora traduzir a acusação e pedir às autoridades iraquianas que notifiquem os arguidos. No final da semana passada, o ministro português dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, garantiu que irá proceder "imediatamente", "pela via diplomática apropriada", às diligências que forem solicitadas pela PGR.

Caso não seja possível notificar os filhos do embaixador por esta via, as autoridades portuguesas irão requerer a intervenção da Interpol.