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Cheias de 1967. “Ter estado lá deu corpo e sentido à minha vida”

Na noite de 25 para 26 de novembro de 1967 mais de 500 pessoas morreram numa enxurrada que arrasou as zonas mais pobres da região de Lisboa e Vale do Tejo. A tragédia ficou para sempre na memória dos que a viveram e dos estudantes que foram em socorro das vítimas. Foi aí que o ex-diretor-geral da Saúde Francisco George descobriu a importância da solidariedade, que o ex-coordenador do Bloco de Esquerda João Semedo se sentiu para sempre convocado para o combate à pobreza, ou que Diana Andringa, então aluna de Medicina, decidiu dedicar a vida ao jornalismo. O Expresso ouviu o seu testemunho

Testemunhos recolhidos por Joana Pereira Bastos

Foi o maior desastre natural desde o terramoto de 1755, mas a ditadura quis esconder a tragédia. A censura, a inoperância do regime e o abandono das populações deixaram chocados os cerca de seis mil estudantes universitários e alguns ainda do Liceu que se envolveram numa enorme campanha de auxílio às vítimas. Para a grande maioria dos jovens, foi o primeiro confronto com a miséria em que viviam milhares de portugueses. A desgraça acabou por marcar o despertar político de toda uma geração.

“Identificámos corpos escondidos entre os escombros: crianças, pais, mães, avós”

Francisco George, na altura estudante do 2º ano da Faculdade de Medicina de Lisboa

A noite de 25 de novembro de 1967 é inesquecível. Recordo-a com grande nitidez. Os 50 anos que já passaram não apagaram as memórias da tragédia. Todos esses acontecimentos permanecem inesquecíveis.

Entrara no Cinema Império para a sessão da noite debaixo de chuva intensa. Ao sair continuava a cair de forma igualmente copiosa. As novas “ribeiras” rápidas que desciam pela Alameda D. Afonso Henriques invadiam os primeiros degraus da escadaria. A chuva parecia não ter fim. Exclamava insistentemente para mim mesmo: quando irá parar!

Só no dia seguinte soube do desastre através de noticiários “atenuados” da antiga Emissora Nacional. Como habitualmente, a censura do regime estava permanentemente presente. Salazar, que impunha censura implacável, estava no fim. Pouco tempo depois, no verão seguinte, cairia da cadeira. Para ele a precipitação parecia um fenómeno natural. Mas não foi um fenómeno climático extremo que provocou a tragédia – não houve nenhum furacão ou ciclone, mas apenas chuva copiosa. Foi a miséria e a precariedade em que viviam milhares de pessoas que causou a desgraça.

Salazar escondeu a morte de muitas centenas de portugueses. Portugal não podia conhecer a verdade. Não podia saber o desaparecimento de famílias inteiras. Não podia assumir a verdadeira causa associada ao atraso das condições de habitação, de pobreza, de ausência de infraestruturas ambientais que imperavam nos dormitórios ao redor de Lisboa.

No seio do movimento estudantil discutiu-se da oportunidade dos estudantes universitários apoiarem os bombeiros nos trabalhos de remoção de lamas.

Seria aceitável apoiar o Governo nestas iniciativas?
Não seria preferível ir às próprias localidades observar a verdadeira dimensão da catástrofe e depois denunciar? Foi esta a linha seguida.

Na Faculdade de Medicina as brigadas organizaram-se para trabalhos de proximidade, a fim de promoveram mais higiene e imunização da população. Lá fui para Odivelas na companhia de algumas dezenas de colegas. Uns limpavam casas, outros removiam lamas, outros ainda acompanhavam professores primários em atividades de sensibilização para a saúde. Muitos de nós identificaram corpos escondidos entre os escombros: crianças, pais, mães, avós. Um sem número.

A marca que para sempre ficou em mim foi a descoberta da importância da solidariedade. “Nunca se apagará em mim o choque brutal que senti”

João Semedo, na altura finalista do Liceu Camões

Passaram 50 anos sobre a tragédia. Sabemos como o tempo embacia as nossas memórias e rouba nitidez aos factos que vivemos. Contudo, por mais anos que passem sobre as cheias de 67, julgo que nunca se apagará em mim o choque brutal que senti ao mergulhar naquele cenário de morte, destruição e pobreza extrema, que atingia milhares de pessoas a viverem em condições absolutamente degradantes e desumanas.

Aos 16 anos, para um estudante do Liceu Camões, miséria e desigualdades existiam sem as vermos, como dois mundos separados. Esse submundo, escondido e ignorado, fazia parte das conversas que escutava lá em casa e o que dele sabia era o que me contavam os livros de Steinbeck, Ferreira de Castro, Manuel da Fonseca ou Jorge Amado, que os meus pais me davam para ler, escritores inspirados nos dramas sociais provocados pela exploração de vidas humanas.

Miséria e desigualdades que, no primeiro confronto, nos revoltam pela sua imoralidade e injustiça, até a nossa consciência amadurecer e nos revelar a engrenagem social que as constrói e mantém.

Não sei se teria sido outra pessoa ou se a minha vida teria sido diferente se não tivesse estado naqueles dias, primeiro às Portas de Benfica e depois em Loures, com muitos outros estudantes mobilizados pelo padre Mário.
Dois ou três dias enterrado na lama até aos joelhos, entre destroços e barracas destruídas, vendo, impotente, a dor e o sofrimento dos que tudo perderam, protestando contra a avareza e o atraso do apoio dispensado pelas autoridades salazaristas, revoltado sempre que algum governante garantia que a tragédia se devia às chuvas torrenciais e não à miséria que habitava aquelas barracas.

Sei que, desde então e ao longo destes 50 anos, nunca fiquei indiferente perante qualquer desigualdade ou discriminação e sempre me senti – e sinto – convocado para o combate à pobreza, à exploração e às injustiças que, em grande medida, foi o que deu corpo e sentido à minha vida.

E sei, também, que esse combate valeu e vale a pena. Basta pensar como a democracia, entretanto, mudou o país, mesmo sabendo-se que a pobreza não acabou...

“Venci a minha fobia de agulhas para dar quase centena e meia de vacinas nesse dia”

Diana Andringa, à época estudante de Medicina

Arrastava então atrás de mim um curso de Medicina evidentemente falhado, mas de que ainda não tivera coragem para desistir, e alguns anos de militância na Comissão Pró-Associação dos Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa e na propaganda dita “federativa” (das AAEEs). Nesse sábado ia apanhar em Entrecampos o metro para a estação do Rossio e depois o comboio para Rio-de-Mouro – quando, à entrada da estação, uma onda de água, me fez recuar.

Embora só mais tarde viesse a saber que houvera “inundação do troço “Sete Rios – Palhavã” em consequência da ocorrência de uma tromba de água na região de Lisboa” e que “o tráfego da C. P. ficou gravemente perturbado, na linha de Sintra”, um telefonema para casa decidiu-me a ficar em Lisboa, com colegas.

Domingo fomos sabendo as más notícias e creio que foi logo na segunda que, na Faculdade, fui mobilizada para o auxílio às vítimas. Pedi por telefone à minha mãe roupas, agasalhos, biberões, leite em pó e, pouco depois, um motorista requisitado pelo meu pai foi levar-mos a Santa Maria.

Penso que foi ainda nesse dia que partimos, em carros identificados como “Associações de Estudantes de Lisboa” – a que os sinaleiros abriam, estranhamente, caminho –, rumo às zonas de catástrofe. Sendo de Medicina, integrei uma Brigada de Vacinação, chefiada pelo então (penso) quintanista Pio de Abreu, destinada a Frielas e Póvoa de Santo Adrião.

Tratava-se de vacinar em massa contra o tifo – e venci a minha fobia de agulhas para dar quase centena e meia de vacinas nesse dia. Venci-a, também, para acompanhar no hospital a pequena cirurgia feita a um menino que encontráramos a vaguear, sozinho, com um corte profundo no pé – e que se agarrava com força à minha mão.

Dias depois, integrei – com o Alexandre Oliveira, o João Bernardo, o João Crisóstomo, o Jorge Simões e o José Brazão – o grupo do Secretariado Coordenador de Imprensa e Propaganda (SCIP), que publicou o “Solidariedade Estudantil”, com as notícias (livres de cortes de Censura) sobre as consequências das cheias – e que muitas pessoas, vencendo o medo, vinham pedir-nos à porta do Técnico, onde o imprimíamos.

E foi depois desses dias, em que vencera alguns dos meus maiores temores em relação à Medicina, que tomei finalmente coragem para deixar o curso e optar pelo Jornalismo.

  • Aqui se conta a maior calamidade de que há memória em Portugal desde o terramoto de 1755

    A 25 de novembro de 1967, chuvadas intensas na região de Lisboa e vale do Tejo inundaram avenidas, ruas e bairros inteiros. Da noite para o dia, milhares de pessoas ficaram desalojadas, centenas morreram afogadas ou soterradas e um número até hoje incerto foram dadas como desaparecidas. O Governo de Salazar tentou abafar a real dimensão da tragédia, com os serviços de censura a chumbar títulos e fotografias de jornais, mas a memória de quem viveu na pele as cheias de 67 perdurou. O Expresso conta-lhe como foi, 50 anos depois