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“The Presidential”: Um Douro de luxo

LUCÍLIA MONTEIRO

O antigo comboio presidencial transportou monarcas, Presidentes e até um Papa. Agora propõe uma ventura gastronómica na região Património da Humanidade

Nelson Marques

Nelson Marques

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Jornalista

Lucília Monteiro

Lucília Monteiro

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Fotojornalista

Há boas razões para dormir no Hotel Intercontinental Porto — Palácio das Cardosas antes de uma viagem pelo Douro no histórico Comboio Presidencial. A primeira é prática: o hotel fica mesmo ao lado da Estação de São Bento, pelo que sobra tempo para nos entregarmos sem pressa ao pequeno-almoço. A segunda é a vista irresistível: basta abrir a janela, sair para a varanda e descansar os olhos na Avenida dos Aliados, a grandiosa sala de visitas da cidade. A terceira é uma questão de coerência: se se vai andar num comboio que serviu monarcas e Presidentes, nada melhor do que pernoitar em aposentos dignos de um chefe de Estado.

Todos os pretextos são bons para passar por um dos mais charmosos hotéis da cidade, mas não foi isso que nos trouxe até ao Porto. O motivo está do outro lado da rua, na centenária estação decorada com painéis de azulejos que fazem as delícias dos turistas. Estacionadas na gare, as vibrantes carruagens azuis do “The Presidential Train” esperam-nos para uma experiência gastronómica pela região Património da Humanidade.

A partida para o Douro está marcada para as 11h, o que dá tempo para percorrer um pouco da história do emblemático comboio. Construído no final do século XIX, inclui carruagens que serviram a corte do rei Dom Luís I e, após a implantação da República, foi adaptado para Comboio Presidencial. Entre 1910 e 1970, nele viajaram chefes de Estado e outros ilustres, incluindo a Rainha Isabel II de Inglaterra e o Papa Paulo VI. Estacionado após a morte de Salazar, em 1970, foi restaurado a partir de 2010 pelo Museu Nacional Ferroviário, de onde só sai para esta série de viagens gourmet. Foi, lá, no Entroncamento, que Gonçalo Castel-Branco o descobriu há dois anos e se apaixonou logo. “Senti que tinha de fazer algo com ele”, conta. A ideia veio-lhe da filha, de 11 anos, que adora comida: “Porque não um restaurante?”

Nos corredores do “The Presidential Train” tem prioridade quem leva louça ou copos na mão

Nos corredores do “The Presidential Train” tem prioridade quem leva louça ou copos na mão

LUCÍLIA MONTEIRO

O empresário decidiu levar o comboio do museu para o cenário natural de uma das linhas férreas mais belas do mundo. Na primeira edição, no ano passado, convidou o chefe Dieter Koschina, do restaurante algarvio Vila Joya (duas estrelas Michelin). Neste regresso ao Douro, os menus têm a assinatura de três outros distinguidos pelo prestigiado guia: o dinamarquês Esben Holmboe Bang, do Maaemo, na Noruega, o mais jovem chefe da atualidade a conseguir três estrelas (3 a 7 de maio); o portuense Pedro Lemos (10 e 11 de maio); e João Rodrigues, do Feitoria (12 a 14 de maio).

O arranque desta edição faz-se com um percalço: o chefe dinamarquês não está à partida por causa de uma perna partida. No seu lugar vieram o sous-chef irlandês Halaigh Whelan-McManus e dois elementos da equipa. As refeições são preparadas na Escola de Hotelaria do Porto e finalizadas no vagão-cozinha, onde há fornos elétricos, mas, por razões de segurança, o fogo e o gás estão absolutamente proibidos. O ambiente é o de uma sauna, porque lá fora está um calor de ananases (quase 30o C) e a bordo não há ar condicionado.

Quando o comboio deixa a Estação de São Bento partimos à descoberta das carruagens enquanto o Douro não nos domina a atenção. Estão cheias de pormenores clássicos, como sofás e cadeiras de veludo e candeeiros Art Deco, e não faltam pormenores de “portugalidade”: nos corredores há livros de arte cedidos pelo Museu Serralves, a melodia de fundo foi selecionada pela Casa da Música, o ambiente é aromatizado pela Castelbel com fragrâncias que evocam o Douro, a louça é da Vista Alegre...

Na carruagem-bar, um pianista lembra o charme do “Expresso do Oriente”

Na carruagem-bar, um pianista lembra o charme do “Expresso do Oriente”

LUCÍLIA MONTEIRO

Passamos à carruagem-restaurante quando a linha se cola por fim às margens do rio, serpenteando entre as encostas conquistadas pela vinha. À mesa dominam sabores nórdicos, repletos de flores comestíveis. A abrir, um amuse-bouche que desafia o hálito dos passageiros: pickles de cebola com ruibarbo e akvavit (um destilado de origem escandinava), acompanhados de um copo de rosé da Quinta do Vallado. Como não poderia deixar de ser, o vinho é um dos protagonistas da viagem, ou não estivéssemos no Douro.

Depois, saltam para a mesa espargos com flor do sabugueiro, ervilhas e cebolinho; cavala com maçã e alho selvagem; e, por fim, pombo com puré de cogumelos selvagens. Só se lamenta a falta de pão e de azeite: daria um toque mais português à refeição e ajudaria a aconchegar melhor o estômago para um dia que se prevê longo (o programa dura um pouco mais de 9h). A sobremesa terá de esperar, porque o comboio chega ao seu destino, a Quinta do Vesúvio, sem que haja tempo de a servir.

À chegada, Joe Álvares Ribeiro, um dos administradores do grupo Symington, recorda que a propriedade, inicialmente chamada Quinta das Figueiras, foi rebatizada depois de Dona Antónia ter ido passar a lua de mel a Nápoles e se ter apaixonado pela vista para o monte Vesúvio. Como o calor não abranda, a paragem é aproveitada para procurar a sombra do varandim, onde há charutos da Casa Havaneza para quem quiser fumar, do jardim à beira rio, onde por fim podemos descansar o olhar na beleza exuberante do Douro, ou da adega, onde os passageiros participam numa prova de vinhos do Porto.

A quinta do Vesúvio, nas margens do Douro

A quinta do Vesúvio, nas margens do Douro

lucília monteiro

No regresso, conforta-se finalmente o estômago com a prometida sobremesa. A espera vale bem a pena: o coulis de morangos com cremes de pasteleiro e pétalas de rosa trituradas com sumo de limão pede repetição. Por essa altura, já um guitarrista faz ecoar na carruagem os acordes de ‘Verdes Anos’, de Carlos Paredes, e de ‘Porto Sentido’, de Rui Veloso. Não é o único músico a bordo. Na carruagem-bar, há um pianista que dá ao comboio um toque digno do “Expresso do Oriente”.

A paragem na Régua é aproveitada para distribuir pelos passageiros os tradicionais rebuçados da terra, de mel, limão e açúcar. Ao final da tarde, saltam para a mesa outras iguarias: uma tábua com fumados do Pinhão, cabeça de xara do Alentejo e pão da Gleba, e, claro, mais vinho. Antes da chegada ao Porto, ainda há tempo para ser servida uma pequeníssima tarte de queijo castanho norueguês, que se revela pouco memorável.

A edição de primavera do “The Presidential Train” terminou este domingo, 14, mas a aventura deverá regressar em setembro e outubro para mais 20 viagens, com outros chefes Michelin. O programa de um dia (sem estada) custa 500 euros por pessoa, mas quem quiser pode optar por um programa de três dias com motorista privado, estada no Intercontinental Porto e no Six Senses Douro Spa, e outros mimos. A vista, essa, não tem preço.