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Ex-agente da CIA em Lisboa tenta perdão de Trump

EM CASA. Sabrina de Sousa fotografada em dezembro de 2016 no apartamento onde estava a morar em Lisboa

TIAGO MIRANDA

Sabrina de Sousa foi detida pela PJ e levada esta terça-feira para uma prisão no Porto enquanto aguarda ser extraditada para Itália. Ex-agente da CIA jogou o seu último trunfo e espera que a administração Trump faça alguma coisa por ela

Não foi por acaso que a notícia foi dada em primeira mão esta segunda-feira pela Fox News, nos Estados Unidos, quando eram nove da noite, hora de Lisboa. O canal de televisão de perfil conservador e tradicionalmente associado ao Partido Republicano revelava que “uma ex-agente da CIA disse que a polícia portuguesa deteve-a e que prepara-se para a extraditar para uma prisão italiana por causa de um operação de contraterrorismo levada a cabo há 14 anos como parte do programa de ‘rendições extraordinárias da agência’”.

A Fox News é provavelmente o único canal de notícias a que o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dá algum crédito, depois de há um mês ter descrito os jornalistas, no seu todo, como “os seres humanos mais desonestos à face da Terra”. Ainda durante o último fim de semana, a propósito de uma referência que tinha feito a um atentado na Suécia que nunca aconteceu, e sendo conhecida a sua aversão à prática da leitura, Trump tinha-se desculpado com o seu canal preferido: “Vi na Fox News”.

Sabrina de Sousa, que tem dupla nacionalidade — portuguesa e norte-americana — e foi viver para Lisboa em maio de 2015, virou-se para a administração Trump como a derradeira tábua de salvação capaz de evitar a sua ida para a cadeia em Itália, onde foi condenada a quatro anos de prisão pelo seu envolvimento no rapto em 2003 de Abu Omar, imã de Milão, identificado na época pela CIA como um suspeito de terrorismo. Omar seria levado em segredo para o Egito, o seu país Natal, onde foi mantido e torturado numa prisão local pelos serviços do então ainda presidente egípcio Hosni Mubarak, um histórico aliado de Washington.

TIAGO MIRANDA

Em 2009, depois de uma investigação conduzida pelo Ministério Público de Milão e de o caso ter seguido para julgamento, Sabrina de Sousa foi condenada, com mais 25 cidadãos norte-americanos, quase todo colegas da CIA, num tribunal de primeira instância. No caso de Sabrina de Sousa, que estava acreditada em Itália como diplomata e desempenhou o cargo de oficial de ligação em Milão entre os serviços secretos americanos e os serviços secretos italianos, a sentença inicial de sete anos de prisão deveu-se ao facto de os juízes terem considerado que o seu papel foi fundamental para o planeamento da operação. O Supremo viria a confirmar a condenação em 2012 mas a sua pena foi reduzida para quatro anos.

O facto de a CIA não ter feito nada pela defesa dos seus agentes durante os anos de julgamento e de não ter permitido que eles o fizessem por iniciativa própria levou Sabrina de Sousa a demitir-se da agência e a iniciar uma longa batalha com o objetivo de limpar o seu nome e de poder voltar a viajar para fora dos EUA, sobretudo para Goa, na Índia, onde a sua mãe vivia e de onde nasceu (ainda durante o período de ocupação portuguesa), sem ter de se preocupar com o mandado de captura internacional que foi emitido contra ela pelas autoridades italianas. Mas as tentativas junto da administração Obama para incluí-la num perdão negociado com o governo de Roma mostraram-se infrutíferas. Com a eleição inesperada de Donald Trump em novembro de 2016, e numa altura em que a luso-americana perdeu todos os recursos que foi apresentando nos tribunais em Portugal para evitar a extradição para Itália, a ex-agente virou a sua agulha para o novo ocupante da Casa Branca, que tem como um dos seus motes o slogan “Primeiro a América” e já demonstrou não ter o respeito que os seus antecessores tinham em relação à Europa.

NA RUA Sabrina de Sousa fotografada em outubro de 2015 no Terreiro do Paço, em Lisboa, poucos meses depois de se ter mudado para Portugal

NA RUA Sabrina de Sousa fotografada em outubro de 2015 no Terreiro do Paço, em Lisboa, poucos meses depois de se ter mudado para Portugal

aNA BAIÃO

Um “bode expiatório” para desviar a atenção

Numa última entrevista que deu ao Expresso a 30 de dezembro, Sabrina de Sousa dizia-se convencida que a administração Trump nunca permitiria que um tribunal estrangeiro acusasse qualquer militar ou diplomata americano. A ex-agente da CIA revelou nesse momento que as conversas que foi tendo com os antigos colegas da agência deram para perceber que foi em Trump que votaram. “Refiro-me às pessoas que estão na base da cadeia de comando, porque o topo da hierarquia votou na Hillary [Clinton]. Os agentes que estão no terreno são sempre responsabilizados por tudo, mas os chefes que estão no topo nunca foram acusados de nada pela administração Obama.” Nessa entrevista, de Sousa dizia estar certa de que ia haver mudanças com Trump mas também admitia que não sabia se isso iria ter algum impacto na sua situação pessoal. É isso que ela parece estar a testar agora, quando a tensão entre o presidente norte-americano e a CIA, pelo menos no que diz respeito às suas chefias, é cada vez maior, com a escalada de revelações sobre a controversa relação da sua equipa com o regime de Vladimir Putin na Rússia.

No e-mail que mandou esta segunda-feira para a Fox News, aquando da detenção pela Polícia Judiciária, Sabrina de Sousa lamentou as suas circunstâncias: “Durante mais de uma década eu falei abertamente sobre uma injustiça. Mas aqueles que falam vão para a prisão”. E reforçou a sua convicção de que é um “bode expiatório” para o que aconteceu: “Fomos condenados por causa de decisões em relação às quais não tivemos nada a dizer. Ninguém quer olhar mais para cima e esta é a melhor forma de desviar a atenção que poderia haver sobre outras pessoas”.

ana baião

Até ao momento, no entanto, a administração Trump não respondeu aos “pedidos insistentes” da Fox News para comentar o assunto. Mas uma reação é esperada como inevitável se se confirmar que Sabrina de Sousa foi mesmo obrigada a permanecer presa numa cadeia em Itália depois de ser extraditada a partir de Lisboa. Numa carta enviada no ano passado para a procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, o diretor-geral de Justiça Penal italiano, Raffaelle Picirillo, dava isso por garantido: “É uma sentença irrevogável”.

Sabrina de Sousa estava acompanhada pelo seu marido, David, quando foi detida esta segunda-feira. A luso-americana passou a noite na cadeia da Polícia Judiciária em Lisboa e já esta terça-feira foi transferida para o estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo, no Porto, que possui uma ala feminina e onde em princípio ficará numa cela individual.

De acordo com uma fonte da Polícia Judiciária, a detenção da ex-agente da CIA “deveu-se ao simples cumprimento de uma decisão do tribunal”, sendo considerada normal. Neste momento, o gabinete da Interpol em Lisboa está em contacto com o gabinete da Interpol em Roma para acertarem as questões logísticas da extradição para Itália, havendo um prazo de 10 dias para a luso-americana ser escoltada num avião até território italiano.

  • Tribunal Europeu dos Direitos do Homem não trava extradição de ex-agente da CIA

    Sabrina de Sousa, que está na iminência de ser extraditada para Itália, onde foi condenada pelo rapto de um suspeito de terrorismo em 2003, apresentou uma queixa urgente esta segunda-feira contra o Estado português de forma a suspender a extradição, mas o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem já rejeitou o pedido e não vai travar a entrega da luso-americana

  • Extradição de Sabrina de Sousa de Portugal para Itália pode acontecer a qualquer momento. Processo está em marcha, depois de esgotados todos os recursos possíveis. Condenada pelo rapto de um suspeito de terrorismo em Milão, a ex-agente da CIA apela ao Papa Francisco para que reze por todos aqueles que, como ela, e apesar do segredo de Estado, têm a coragem de falar