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Os segredos da melhor escola pública nos exames do secundário

Marcos Borga

A Filipa de Lencastre, em Lisboa, é a escola pública com melhores resultados nos exames do secundário. O que a distingue? Fomos lá ver

“Mais alguma dúvida?” O professor de Matemática lança a pergunta a cerca de 30 alunos do 12º ano. A sala Carolina Michaëlis está silenciosa e os alunos vão apontando as explicações que o professor escreveu no quadro sobre logaritmos. O espaço, dominado por rapazes, ilustra bem uma turma de Ciências e Tecnologias com opção pela disciplina de Física. “Na opção de Biologia é ao contrário”, explica a subdiretora do agrupamento, Albertina Rocha. Alguns alunos vão participando na aula, outros, mais ao fundo da sala, falam entre si para explicar um exercício.

Esta é apenas uma das seis turmas que existem no 12º da Secundária D. Filipa de Lencastre, em Lisboa, a escola que no ranking dos exames nacionais do secundário elaborado pelo Expresso (que contabiliza apenas aquelas onde foram realizadas pelo menos 100 provas) ficou na dianteira dos estabelecimentos públicos, apenas ultrapassada por 31 colégios privados. Desde 2012 que o agrupamento localizado no Arco do Cego tem vindo a galgar posições no ranking das escolas secundárias, conseguindo este ano uma média de 12,7 valores nos resultados dos exames nacionais.

Mas os resultados não são tudo, diz a diretora do agrupamento que tem a seu cargo mais de 1800 alunos. “Os exames são a consequência de um ano inteiro. Não trabalhamos para e pelos exames.” Professores e pais concordam que, além dos resultados, há um conjunto de experiências que a escola deve proporcionar para o desenvolvimento das crianças e dos jovens. “As notas são resultado das atividades e experiências que se pretende dar aos alunos”, dizem os responsáveis das duas Associações de Pais do agrupamento.

Pais, professores e alunos estão unidos nesta missão. E por isso veem os projetos curriculares e extracurriculares como uma mais-valia da oferta educativa. Mas isso não significa que todos tirem partido dela. “Depende muito da motivação de professores e alunos”, explica a professora de Inglês e coordenadora de projetos, Teresa Barros. “É impossível realizar projetos específicos com o agrupamento todo.”

O projeto curricular de conservação de espécies, transversal às disciplinas de Inglês, Biologia e Filosofia em vários anos de escolaridade, é um bom exemplo disso, estando neste momento a tentar fechar uma parceria com o Jardim Zoológico de Lisboa. Também no ano passado, um conjunto de alunos debruçou-se sobre a temática das migrações e terminou o ano com uma viagem à Áustria, onde teve a oportunidade de visitar o centro de refugiados da Cruz Vermelha em Viena.

Marcos Borga

Programas de voluntariado, clubes de xadrez, robótica, filosofia para crianças, esgrima, teatro, línguas, entre outros, fazem também parte das ofertas da escola no contexto das atividades extracurriculares implementadas com o apoio dos pais. E as boas instalações da escola, intervencionadas no ano letivo de 2008/2009 pela Parque Escolar, facilitam a concretização destas iniciativas.

Mas a aprendizagem dos alunos não fica confinada às paredes do agrupamento. Uma das ofertas mais valorizadas pelos pais para o ensino secundário é o programa Job Shadowing. “Começou há um ano com duas turmas piloto e foi agora estendido a todo o secundário”, explicam vários encarregados de educação. “O objetivo é os alunos serem a sombra de um profissional durante um dia para perceberem de que profissões gostam ou não.”

“Não podemos ignorar as famílias”

A estabilidade do corpo docente e o interesse e empenho dos estudantes são outros dois ingredientes apontados para o sucesso da secundária. “Mas não podemos ignorar as famílias. Os pais e encarregados de educação acompanham o percurso dos filhos”, reconhece a professora de Filosofia Maria José Remédios. “Há várias zonas do país onde isso não se passa. E está provado que se as crianças tiverem muitos exemplos de insucesso na sua família será mais difícil saírem-se bem na escola, embora não seja impossível.”

A mesma opinião tem Ana Maria Madeira, professora de Físico-Química. “Os alunos são excecionais, muito interessados, muito cumpridores - e a postura deles na aula reflete também a família. Os pais e encarregados de educação envolvem-se mais na escola do que as famílias de outras escolas do país. Estarmos no Filipa tem essa vantagem.”

Na verdade, o contexto familiar, social e económico não pode ser retirado desta equação de sucesso. E nesse sentido o Filipa tem parte do trabalho facilitado: é a terceira escola do país onde as mães têm mais anos de escolaridade (uma média de 15,25 anos) e apenas 5,7% dos alunos estão abrangidos pela ação social escolar, uma das percentagens mais baixas em Portugal.

E até os alunos têm consciência disso. Mariana Queiroz e Melo, aluna do 12º de Ciências e Tecnologias, esteve até ao final do ensino básico num colégio privado. “Quando entrei no 10º ano quis vir para uma escola pública, para não ter sempre 'a papinha feita'. Mas o ambiente não é muito diferente: o Filipa é uma escola pública com alunos de privado.”