Siga-nos

Perfil

Expresso

Revista de imprensa

Manuel Alegre intercede pela tauromaquia e desafia Costa: “É chegada a hora de enfrentar o fanatismo do politicamente correto”

Num texto de opinião publicado no “Público” esta quarta-feira, o histórico socialista parte da eleição de André Silva, deputado do PAN, para argumentar que não se pode “virar o país do avesso, com a cumplicidade dos fundamentalistas de outros partidos (com a honrosa exceção do PCP)”, a pensar que, “em certas circunstâncias, o voto dele pode ser útil para a maioria”

A polémica em torno da manutenção do IVA nos 13% para os espetáculos de tauromaquia, depois da nova ministra da Cultura, Graça Fonseca, ter recusado descer aquele valor para 6%, à semelhança de outros eventos culturais, por “questões civilizacionais”, mantém-se. Num texto de opinião no “Público” dado à estampa esta quarta-feira, Manuel Alegre, histórico socialista, desafia António Costa a interceder por aquilo que considera ser uma tradição “cultural e social” e lutar contra o “politicamente correto”.

“Vivo uma situação paradoxal. Apoio esta solução governativa, o PS está no poder e, no entanto, por vezes sinto a minha liberdade pessoal ameaçada. Não por causa do que se passa no mundo. Mas porque o diabo se esconde nos detalhes. Está no fundamentalismo do politicamente correto, na tentação de interferir nos gostos e comportamentos das pessoas, no protagonismo de alguns deputados e governantes que ninguém mandatou para reordenarem ou desordenarem a nossa civilização”, começa por confessar Alegre.

No texto de opinião, o antigo deputado e candidato presidencial parte da eleição de André Silva, deputado do PAN, para argumentar que não se pode “virar o país do avesso, com a cumplicidade dos fundamentalistas de outros partidos (com a honrosa exceção do PCP)”, a pensar que “em certas circunstâncias, o voto dele pode ser útil para a maioria”. Ou seja, que o PS não pode apoiar o discurso de André Silva por uma questão de calculismo político.

“O facto é que um deputado, um só, traz milhares de portugueses inquietos. Isto não é normal nem saudável numa democracia pluralista. De modo que é chegada a hora de enfrentar cultural e civicamente o fanatismo do politicamente correto. É uma questão de liberdade. Liberdade para não gostar de touradas. Mas liberdade para gostar. Liberdade para não gostar da caça” diz.

Sem fugir à personalização deste tema, Manuel Alegre faz, então, um apelo ao primeiro-ministro. “Meu caro António Costa, peço-lhe que intervenha a favor de valores essenciais do PS: o pluralismo, a tolerância, o respeito pela opinião do outro. Peço-lhe que interceda pela descida de 6% do IVA para todos os espectáculos, sem discriminar a tauromaquia, já que os prejudicados serão os mais pobres, os trabalhadores que tornam possível este espectáculo”, escreve.

Dentro da bancada socialista, note-se, Alegre não é o único nome a contestar a posição assumida pela nova ministra da Cultura. Também Ascenso Simões, deputado socialista, escreve esta quinta-feira um texto de opinião no “Público”, em defesa da tauromaquia, mas também das palavras de Graça Fonseca.

“Graça Fonseca, ao afirmar que a “festa brava” é um problema de civilização, tem razão. Haverá um dia em que a tourada deixará de existir, que a caça e a pesca deixarão de ser atividades praticadas como desporto. É inevitável”, nota Ascenso Simões.

O IVA dos espectáculos tauromáquicos, contudo, é uma questão que deve ficar de fora desta discussão, aponta o socialista: “Sou defensor das touradas, mas acho que o IVA não é um problema político que nos deva inquietar. Sou defensor das touradas, mas antecipo o seu fim. Sim, sou defensor de um ideal de país, mas esse país deixará de existir num tempo muito próximo. A urbanização que se verificará nas próximas décadas eliminará o país rural, as suas vidas e símbolos. A liofilização das sociedades criará uma outra visão da alimentação, da vida familiar, das relações pessoais.”

Nota: artigo corrigido às 11 horas de sexta-feira, dia 9 de novembro, incluindo agora o testemunho de Ascenso Simões. A última citação da versão anterior deste texto estava erradamente atribuída a Manuel Alegre; na realidade, pertencia ao deputado socialista.