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Reportagem

O homem que perdeu tudo mas salvou a vida a 20 pessoas

joão santos duarte

No meio de uma casa em escombros, um habitante de Mati, na Grécia, recorda o dia em que um precipício acabou por ser a salvação. E uma morte que não consegue esquecer, apesar daqueles que conseguiu salvar da força devastadora do fogo. Quatro dias depois do incêndio que matou mais de 80 pessoas, a cidade quase parece ter sido devastada pela guerra. Georgios garante-nos no meio dos escombros que é um homem de sorte: “Posso ter perdido tudo mas estou vivo. E todos os meus amigos querem dar-me uma casa para viver”

João Santos Duarte

João Santos Duarte

enviado à Grécia

Jornalista

Quando fecha os olhos à noite, é ela que ele ainda vê.

Estava deitada na areia. O corpo inanimado. Teria pouco mais de 10 anos.

Ele via-a mas não havia nada que pudesse fazer. Estava pendurado no meio de um penhasco, distante da praia.

Naquele dia Georgios salvou-se e salvou outras 20 pessoas. Mas a única vida que ele ainda não consegue esquecer até este dia é a aquela que foi impotente para salvar.

Duas horas antes estava sentado em casa com a mulher a ver televisão. As notícias só falavam do grande fogo de Kineta, que fica na parte oeste da península Ática, a mais de 80 quilómetros de Mati. Rula, a mulher, diz-lhe que lhe parece que está a cheirar a fumo. “Deve ser dos fogos em Kineta, vem empurrado pelo vento. Não te preocupes”, assegurou-lhe Georgios. Mas o cheiro torna-se cada vez mais intenso.

Saem de casa e avistam o fogo no topo da montanha. Entram no carro, mas mal chegam à estrada principal percebem que as chamas estão já a pouco mais de 15 metros. Tinha avançado montanha abaixo a uma velocidade estonteante. Georgios sai do carro, vê pessoas a correrem de um lado para o outro numa aflição aterrorizante.

“Venham comigo, venham comigo”, começou aos gritos no meio da estrada.

Reuniu um grupo de cerca de 20 pessoas, entre elas vários idosos e crianças. Foram em direção ao mar. Entraram por uma casa adentro, saíram por um portão mais pequeno nas traseiras. Até que foram dar a uma ravina com dez metros de altura.

No meio da ravina

Georgios Aliprantis tem hoje 64 anos. Ainda se lembra dos verões que passava todos os anos em Mati quando era miúdo. O pai construiu ali uma casa nos anos 70, naquela que era a estância turística mais procurada por milhares de atenienses, situada a pouco mais de 30 quilómetros da capital. Percorria com os amigos todos os recantos junto ao mar. Sabia que aquele penhasco não era o fim, mas podia ser a salvação.

“Lembrava-me de um pequeno carreiro antigo entre as rochas. Fomos descendo um a um, eu fui em último. Descemos alguns metros até meio. Dois minutos depois, uma avalanche de chamas passa por cima da minha cabeça, empurrada pelo vento. Por uma questão de dois minutos eu não estaria aqui hoje vivo a falar consigo.”

O que resta da casa de Giorgios

O que resta da casa de Giorgios

joão santos duarte

O grupo ficou mais de duas horas pendurado nas rochas à espera que alguém os fosse salvar. Georgios recorda que o ar era quase irrespirável. “Tememos morrer já não do fogo, mas desta vez intoxicados pelo fumo.”

Finalmente surgiram alguns barcos de pescadores e ele ajudou as pessoas mais velhas a descer os três metros de rocha que ainda sobravam até ao mar. As pequenas embarcações transportaram-nos para barcos maiores, que depois os levariam a são e salvo para o porto de Rafina.

Georgios garante que um vento estranho fazia com que as chamas viessem ora da esquerda, ora da direita, como dois braços de fogo que se quisessem abraçar no topo da ravina. Naquela ravina onde avistou aquele corpo: da menina caída na praia. Ainda não consegue falar muito sobre nisso. “Não me quero lembrar, desculpa. Mas porque não consigo esquecer.”

Mais tarde, já a salvo, Georgios veria nas notícias a morte de um grupo de 26 pessoas que foram encontradas mortas, os corpos abraçados, que tinham ficado encurralados não muito longe dali, num penhasco semelhante.

Mati, quase um pós-guerra

joão santos duarte

“Vivo aqui há 15 anos. Esta é a minha casa. Gostas dela?”. Georgios faz a pergunta e começa a rir. Está de pé, em tronco nu, braços cobertos de fuligem. Não é mais uma casa, mas um amontoado de entulho, telhas partidos, vidros estilhaçados. Uma vida reduzida a pó. “Sabes, às vezes rir é mesmo a única forma de enfrentar a tragédia.”

Georgios viveu muitos anos em Atenas. Mas há 15 mudou-se para esta casa que o pai tinha construído, quando passou a dar aulas no liceu de Nea Makri, a apenas cinco quilómetros de distância. Não conseguiu regressar para ver como estava a casa logo no dia a seguir ao grande incêndio. “Estava em choque. Não podia vir. Vim apenas dois dias depois. Ou seja, ontem.” Esta quinta-feira regressou mais uma vez com o filho e um amigo para retirar da parte de baixo da habitação os poucos pertences que ficaram intactos. “É irónico, mas uma das poucas coisa que sobrou foi uma arca frigorífica que tinha na cave. Com todo o calor que passou por aqui, a carne ainda estava fria.”

joão santos duarte

Na rua de Georgios, uma das muitas paralelas que vão dar ao mar, praticamente todas as casas foram varridas pela força avassaladora das chamas. Mati mais parece um “cenário de guerra”, diria por sua vez um dos seus vizinhos. O ar é denso, o cheiro a queimado entranha-se rapidamente no corpo. Quatro dias depois, aqui e ali ainda se veem alguns pequenos focos de fumo. As autoridades já retiraram mais de uma centena de carros carbonizados da rua, mas muitos outros permanecem.

As ruas estão repletas de metal fundido, estilhaços de vidro, ou até mesmo moedas queimadas e restos aparentemente de documentos pessoais deixados para trás na tentativa desenfreada de sobreviver ao avançar das chamas. Equipas conjuntas do Exército, Força Aérea e bombeiros voltaram esta quinta-feira a percorrer a cidade e a entrar em dezenas de casas, na tentativa de encontrar as pessoas que ainda estão desaparecidas. O número total é ainda incerto. O porta-voz dos bombeiros afirmou esta quinta-feira que primeiro é necessário terminar o processo de identificação das vítimas mortais que já foram encontradas (o qual, de acordo com as autoridades, poderá estar concluído esta sexta-feira). Só depois será possível fechar, com mais certeza, a lista dos desaparecidos.

“Nós ainda não encontrámos ninguém, mas a outra equipa que está no terreno já encontrou um corpo hoje”, avança ao Expresso um dos militares da Força Aérea que participam na operação que está em curso. A somar à morte de um dos feridos que estava internado em estado grave no hospital, uma mulher de 73 anos, o balanço dos incêndios subiu assim para 83 mortos.

“Verificamos as casas duas e três vezes, porque às vezes algo nos pode escapar. Os corpos podem estar demasiado carbonizados para serem facilmente identificáveis entre os escombros”, explica o militar da Força Aérea.

joão santos duarte

Mais abaixo na mesma rua, o Exército montou várias tendas de campanha onde entrega refeições prontas às vítimas dos incêndios que precisem de ajuda. “Fazemos cerca de 100 refeições por dia”, garante-nos um porta-voz. Mas hoje a procura já diminuiu, porque muitas das pessoas ou estão alojadas em Atenas ou na cidade vizinha de Rafina.

É o caso de Georgios. Ele e a mulher estão a viver em casa de um amigo em Rafina. “Sou um sortudo”, diz-nos ele, que está em tronco nu, só de calções, no meio dos escombros da casa onde viveu nos últimos 15 anos. “Sabes porque é que sou um sortudo? Primeiro, porque estou vivo. Segundo, porque todos os meus amigos me querem dar uma casa para viver, dinheiro ou o que for preciso. E nem é preciso ser meu amigo. Fui tirar fotos para fazer uma nova carta de condução, não me levaram dinheiro. Apanhei um táxi para lá, o taxista não me cobrou. Fui fazer uma nova chave para um carro que não ardeu, fizeram-me três chaves e não me levaram nada. As pessoas têm sido muito boas.”

Talvez seja como nos dirá minutos mais tarde Kontantinos Anagnospolous, que está sentado com água e bolachas para oferecer às pessoas que venham pedir ajuda no largo da principal Igreja de Mati, que escapou às chamas sem qualquer marca, o branco do edifício completamente imaculado, as árvores de um verde irrepreensível: “Às vezes a solidariedade é a única coisa que resta”.