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Velas renascidas na Serra do Montejunto

É do tipo senhorial, data de 1820 e foi o primeiro a erguer-se naquele local. Ficará à disposição de escolas para que os mais novos tomem contacto com uma actividade que já foi muito importante no Oeste.

O moinho bicentenário foi completamente restaurado pelo seu proprietário, Miguel Nobre, 48 anos, um carpinteiro que se dedica à recuperação deste património em todo o país. Por cima da porta, um painel de azulejos tem escrito ‘‘Meu Deus, o vento passa mas a tua bênção fica’’, um pedido de protecção de intempéries e alusão à fé dos antigos moleiros, homens profundamente crentes. À entrada uma rosa dos ventos, embutida na soleira da porta, indica o Norte. Aquele que é o maior moinho desta serra e um dos maiores de Portugal, com seis metros de altura e sete de diâmetro (a média é de 3,5 metros) tem também nas suas entranhas pedras que foram utilizadas na construção do Convento Dominicano, construído ali perto no século XIII. Do exemplar original resta um ‘‘sarilho’’ (objecto em madeira que faz rodar o capelo do moinho), que agora vai ser tratado e exposto ao público.

Na sua reconstrução e feitura dos engenhos, o carpinteiro do Vilar (Cadaval) utilizou madeiras de cedro e carvalho, criadas na Serra de Montejunto, que comprou após os incêndios. ‘‘Era um pena estragar essas madeiras porque são muito antigas’’, contou. Composto por três pisos, é no último que reside a maior dificuldade. É lá que se concentram os engenhos do moinho, que lhe permitem moer o cereal, transformando-o em farinha. Só o mastro pesa 1500 quilos e as mós cerca de uma tonelada.

Não foi uma recuperação fácil. Adquirido há 10 anos, juntamente com outro moinho ao lado, este imóvel deu algumas dores de cabeça a Miguel Nobre. ‘‘Tive que ultrapassar as burocracias camarárias’’, conta, especificando que lhe foi dada uma autorização para construir o moinho e depois teve um auto de embargo e teve que pagar uma coima.

Um dos poucos recuperadores de moinhos que existem em Portugal, Miguel Nobre sempre foi um apaixonado pela molinologia. Tinha oito anos quando construiu o mastro do primeiro moinho, com a ajuda do avô que era moleiro. Tratava-se de uma réplica dos que povoavam a serra e que diariamente via da sua casa. O ‘‘bichinho’’ ficou e há 10 anos decidiu comprar as ruínas de dois moinhos na serra do Montejunto e recuperá-los, equipando-o de modo a que mantivesse todas as características originais.
Esse trabalho de recuperação foi elogiado pelo mestre Henriques, de Torres Vedras, (antigo especialista do ramo) que, mais tarde, lhe viria a pedir para dar continuidade à tradição. Desde então já recuperou 15 moinhos, a grande maioria na região Oeste, mas também em Sintra, Algarve e Santarém, a pedido das Câmaras e particulares. Vai agora restaurar um na zona histórica da Lourinhã.

Lembra que começou esta vocação com ‘‘algum custo’’, mas as coisas correram-lhe bem e nunca precisou de pedir conselhos a ninguém para fazer as obras. A aprendizagem foi feita através de um trabalho exaustivo de pesquisa em livros e documentos antigos.

De acordo com Miguel Nobre, a procura por este tipo de imóvel é bastante grande. Um exemplo disso mesmo aconteceu a semana passada quando lhe apareceu uma imobiliária com um casal inglês junto ao moinho para lho comprarem. Também são muitos os curiosos que querem ver o moinho funcionar e que ali se dirigem propositadamente quando vêm as velas abertas.

O imóvel acaba por ser também um cartão de visita do carpinteiro que, quando lhe aparece algum cliente interessado numa recuperação, Miguel Nobre leva-o a ver o seu trabalho.

Está também tudo preparado para ter electricidade, que será produzida pelo próprio moinho, através do vento.

O apogeu dos moinhos registou-se há cerca de 50 anos, altura em que estes funcionavam como uma autêntica indústria. E é na Serra de Montejunto, com os seus 666 metros de altitude, que existe a maior concentração destes equipamentos: 11, num raio de 500 metros, dos quais seis ainda funcionam.
A título de exemplo, o moinho de Aviz, com as suas quatro mós a funcionar, poderia produzir mil quilos de farinha por dia e ter dois moleiros a trabalhar diariamente, assim o vento o permitisse.