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Um dos últimos avieiros resistentes

Já não haverá mais que uma dúzia de descendentes dos últimos avieiros da aldeia de Escaroupim, que ainda se dediquem em exclusivo ao ofício da pesca. Virgílio Botas é um deles e anda há mais de 60 anos na faina, que insiste em continuar no Tejo, para se "sentir vivo", como diz.

Os avieiros eram pescadores oriundos da região de Vieira de Leiria, que se instalaram em aldeias ribeirinhas do Tejo, nomeadamente em Escaroupim (Salvaterra de Magos). Dessa migração interna só resta hoje uma dúzia de descendentes, entre eles Virgílio Botas, que já nasceu no Escaroupim e aos 10 anos de idade começou a ajudar o pai e a mãe na faina do rio.

Com eles aprendeu a arte da pesca, à qual dedicou uma vida e que, aos 73 anos, continua a praticar quase diariamente.

O Tejo sempre foi o lugar onde se sentiu melhor e nem as dificuldades económicas trazidas pela falta de peixe no rio o fizeram desistir. Ainda hoje continua a cumprir este ritual que o faz sentir-se vivo.

Gosta de acordar bem cedo, pelas 6 da manhã, e embarcar Tejo adentro para lançar as redes. Algumas vezes volta à hora de almoço, outras chega mesmo a almoçar no barco. Mas o regresso nem sempre é animador, como aconteceu no dia em que o encontrámos, a remendar as redes, danificadas por uns galhos do rio. Nesse dia, Virgílio andou à pesca da lampreia mas não trouxe mais do que três exemplares no fundo do barco, que lhe renderão cerca de 20 euros cada.

Hoje os tempos são outros e os que teimam em viver daquilo que o rio lhes dá, vivem a braços com as dificuldades de uma actividade que caminha para a extinção. Os poucos rendimentos que têm são conseguidos com a venda do peixe aos restaurantes e a particulares da região que ainda fazem questão de comprar o peixe fresco. Mas mesmo os restaurantes de Salvaterra já preferem comprar o peixe congelado ou directamente dos viveiros.

É o que acontece, por exemplo, com o peixe servido no âmbito da iniciativa gastronómica 'Mês da Enguia', a decorrer durante este mês de Março em 16 restaurantes do concelho ribatejano de Salvaterra de Magos, o único do país presidido por uma autarca do Bloco de Esquerda.

A arte e os seus utensílios

Virgílio Botas tem duas embarcações com motor, o 'Pirilampo', que comprou há mais de 15 anos, e o 'Ricardo André', uma embarcação “caçadeira” que adquiriu há 12 anos. Um barco destes pode custar cerca de €2000, a que se deve acrescentar outro tanto para o motor.

As “alfaias” da pesca não são muitas: uma rede mais larga para a lampreia, sável e sabujo; uma rede média para a tainha, o barbo e a fataça; e uma rede mais pequena para o camarão.

Na pesca da enguia usa-se a naça, uma rede que se deixa nas margens do rio durante umas horas, normalmente de noite, e que depois é recolhida.

O pescador usa ainda uma vara de pau para movimentar o barco ao longo das margens dos mouchões e para fundear a embarcação em águas menos profundas.

O seu barco está também equipado com um motor de oito cavalos e uma âncora para fundear em águas mais profundas.