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Serra da Peneda esconde tesouro arqueológico

O cientista considera que, em termos arqueológicos, este é o achado europeu mais importante das últimas décadas. E reclama para a região o epíteto de Património Universal.

O ARQUEÓLOGO Pablo Novoa descobriu na Serra da Peneda um conjunto de alinhamentos de pedras construídos há mais de cinco mil anos. De acordo com o investigador galego, o tamanho das figuras dos animais autóctones varia entre os 50 e os 400 metros, o que transforma a descoberta no maior achado arqueológico europeu dos últimos 50 anos. «As gravuras de Foz Côa multiplicam-se ao longo de toda a Europa, mas estas figuras são únicas», refere o cientista, realçando a urgência de se declarar a região como Património da Humanidade. Só a investigação dos arqueólogos portugueses e o empenho das câmaras municipais abrangidas pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês e do Ministério da Cultura podem proteger esta descoberta, que tem merecido dos meios de comunicação espanhóis ampla cobertura.

No trilho da descoberta

O sol tórrido do meio-dia não esmorece a caminhada encetada a meio da manhã através dos caminhos pedestres e desfiladeiros da Serra da Peneda. Silvie Amorim, a única guia credenciada pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês, encara fixamente as colinas que se sucedem e, sem demonstrar qualquer sinal de cansaço, anima o grupo a avançar em direcção ao objectivo previamente delineado. O galego Pablo Novoa, 61 anos, não esconde a excitação de se ter de confrontar novamente com o achado arqueológico europeu mais importante dos últimos 50 anos.

«Não é de qualquer lugar que se consegue vislumbrar os animais», explica o fotógrafo e investigador de arte rupestre e antropologia ao Diário do Minho, intercalando o discurso com notas soltas acerca do trabalho realizado na Venezuela ao longo de 29 anos.

«Já consegue ver alguma coisa? A hora não é a mais apropriada: deveríamos ter saído bem cedo, ao nascer do dia, ou, então, ao entardecer». Pablo Novoa aponta firmemente para um alinhamento de pedras soltas situadas numa colina a cerca de 200 metros e que aparenta ser a figura de um quadrúpede. Sentindo o olhar incrédulo do DM, atira: «as imagens de satélite são mais nítidas».

«Comecei a frequentar a Serra da Peneda há cerca de sete anos. Inicialmente, via os alinhamentos de pedra e como só tinha a referência de umas figuras semelhantes que existem numa estação arqueológica em Pontevedra, duvidei do achado», esclarece o arqueólogo, acrescentando que na Galiza os alinhamentos se encontram à mesma altitude, e que estes foram praticamente destruídos pela reflorestação e os incêndios.

Sem se deter no «quadrúpede», Pablo Novoa «obriga» o grupo a percorrer mais 100 metros, aponta para um «pássaro» e lembra as conversas mantidas com os pastores da zona, que lhe garantiram que os alinhamentos não eram muros e que as pedras se encontravam no local desde tempos imemoriais. «Os alinhamentos zoomórficos nada dividem, pois não rodeiam qualquer zona de cultivo ou terras destinadas ao pastoreio», afirma o investigador, dirigindo-se a um lugar propício para se poder apreciar a figura de uma vaca barrosã ou um búfalo.

«Através de um programa informático português consegui visualizar pormenorizadamente os alinhamentos monólitos - feitos com uma só pedra colocada ao lado de outra - e concluí que se tratava de um conjunto de figuras… tal como as peças de um enorme puzzle que se encaixam».

Ajudado por Silvie Amorim, que conhece os trilhos pedestres da Serra da Peneda como a palma das suas mãos, Pablo Novoa já detectou cerca de 20 figuras de animais autóctones, tal como serpentes e quadrúpedes – vacas, búfalos, ursos, veados e javalis, e muitas aves – pombas e águias.

«É uma descoberta sem precedentes na Europa. Trata-se de um caso único e, no caso da América Central e do Sul, temos que recuar à época pré-colombina, para conseguirmos encontrar algo semelhante. La Nazca, no Peru, e alguns lugares do Chile têm figuras parecidas, mas a figuras da Peneda são maiores: o seu tamanho varia entre os 50 e os 400 metros, ao contrário das peruanas, que não ultrapassam os 200 metros de comprimento. No caso português, trata-se de pedras que foram colocadas para demarcar as figuras e, no caso sul-americano, os desenhos foram escavados», realça o investigador de arte rupestre, explicando, antes de «investir» contra o «javali», que no local existem dois tipos de figuras: umas são mais arcaicas e antigas, feitas com pedras soltas, e outras já são mais elaboradas, construídas provavelmente numa fase posterior.

Pablo Novoa diz desconhecer a origem dos povos que criaram os «animais». «Esta cultura deve ter existido há cinco ou sete mil anos, pois ao redor das figuras não encontrei nenhum tipo de arma, ferramenta de pedra ou peça de cerâmica que pudesse fornecer uma pista. Penso tratar-se de um povo que viveu na transição do Paleolítico para o Neolítico», opina o arqueólogo, enquanto passa a mão pela testa suada.

Totens portugueses

O ex-presidente do Centro Arqueológico Kuayu de Barinas, na Venezuela, pensa que estas figuras serviram para delimitar os territórios de algum tipo de clãs, tal como os totens das tribos de índios nos EUA. «Talvez tivesse existido na Peneda o clã da serpente, do urso, da águia, do lobo e do búfalo. Separaram os territórios de pastoreio, fontes e cursos de água, com figuras pertencentes a cada um dos clãs», especula Pablo Novoa, que diz, num tom humilde, que «ainda falta explorar determinados aspectos».

«É preciso divulgar esta descoberta e a investigação é da competência dos arqueólogos portugueses. É necessário fazer fotografias sérias e palmilhar este vasto território para identificar outras figuras. Trata-se também de um trabalho multidisciplinar, que exige, entre outros aspectos, um levantamento de determinados pormenores sobre a antropologia e cultura locais. Penso que os pastores e os agricultores podem ser uma boa fonte», diz o galego, que já não consegue disfarçar o cansaço provocado pela caminhada.

Urge defender os «animais»

No caminho de regresso, Pablo Novoa diz-se «totalmente disponível» para colaborar com as autoridades portuguesas e as instituições arqueológicas lusas, «sem qualquer tipo de compromisso». «É preciso resgatar estas figuras. Lamentavelmente, existe uma «ave» com cerca de 400 metros que está praticamente destruída. As populações que vivem nas redondezas levaram as pedras para construir as suas casas e muros, e é uma pena que esta descoberta arqueológica possa desaparecer com o tempo», acentua o galego, que, temendo que a divulgação do achado possa aguçar a curiosidade incontrolável dos «Indiana Jones de fim-de-semana», remete a responsabilidade de futuras visitas para a guia Silvie Amorim (Tel.: 251 465 223).

Pablo Novoa também realça a urgência de se declarar a região como património da humanidade. «Para isso, seria necessário começar a trabalhar de forma célere e enviar a documentação para a UNESCO. As gravuras de Foz Côa multiplicam-se ao longo de toda a Europa, mas estas figuras são únicas, pois esta cultura misturou a construção megalítica com a arte rupestre, num conceito novo e desconhecido em todo Velho Continente».

«A divulgação é importante para que a região não sofra com determinado tipo de agressões e as câmaras municipais abrangidas pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês deveriam estar mais atentas ao desenrolar deste processo. Por outro lado, o Ministério da Cultura deveria tomar medidas urgentes que protegessem esta área, para que, por exemplo, as pedras não fossem retiradas dos seus lugares», defende o arqueólogo, acrescentando que a organização de conferências e o papel dos media são essenciais para realizar esta «vigilância permanente».

«Nos últimos dias, ouvi dizer que iria ser instalado neste local um parque eólico e que um aerogerador iria ser colocado em cima de umas das figuras mais importantes», refere apreensivo Pablo Novoa, sacudindo os sapatos sujos no friso do carro. Já no interior do automóvel, desabafa: «Estes aerogeradores enormes destroem o património paisagístico e em nada contribuem para esta descoberta arqueológica. Penso que existem outras regiões com capacidade para acolher uma infra-estrutura daquele género».

Impulsionar o turismo local

Por sua vez, a guia não esquece as oportunidades económicas que podem surgir na Serra da Peneda, caso haja uma maior articulação entre população local e autarquias. Sem pretender disfarçar um sotaque francês bastante acentuado, Silvie Amorim diz que «seria necessário investir em acções de sensibilização junto dos pastores, para ajudarem a preservar estas figuras, que podem ser um factor essencial para o desenvolvimento turístico da região. As figuras, mamoas, gravuras e achados da cultura romana – pontes e calçadas – podem ser muito importantes».

«A Câmara remeteu-se a um silêncio sepulcral. Fomos ignorados e não sabemos se existem outras intenções para o local», acrescenta Pablo Novoa, enquanto degusta, de forma apressada, o melhor cabrito da região da Peneda. Os próximos «fregueses» – jornalistas da televisão pública espanhola – já estão à espera e o galego aproveita o último momento do repasto para afiançar que, em Espanha, a descoberta dos alinhamentos zoomórficos já mereceu ampla cobertura noticiosa.

«O êxito foi tão grande (quase cinco milhões de telespectadores), que um canal televisivo repetiu o mesmo programa há poucos dias. Em Portugal, o facto só foi noticiado pelo semanário «Voz de Melgaço», apesar de já termos contactado as estações de televisão e a imprensa nacional», lamenta, antes de se despedir.