Siga-nos

Perfil

Expresso

Regiões

Negócio dos pinhões ainda rende no Planalto Beirão

Apesar de terem perdido importância na alimentação e no artesanato, as pinhas e os pinhões continuam a ser uma fonte de receita extra para os agricultores, especialmente nos concelhos onde o pinheiro manso é abundante, entre as Serras da Estrela e do Caramulo.

Entre Outubro e Março, centenas de pessoas - homens e mulheres - trepam aos pinheiros mansos, alguns com mais de dez metros de altura, para recolherem as pinhas. Mas se antigamente acabavam por retirar os pinhões e vende-los directamente aos clientes interessados, hoje em dia, vendem as pinhas aos intermediários, que por sua vez as encaminham para fábricas. E as pinhas vão principalmente para a zona de Setúbal e também para Espanha e Itália, onde existem indústrias que depois utilizam o pinhão para os mais diversos fins. A confeitaria continua a ser a que mais requisita o fruto da pinha, para delicia de todos.

Os apanhadores de pinhas mansas arriscam muitas vezes a própria vida para conseguir amealhar mais uns euros, num rendimento familiar cada vez mais diminuto. O DIÁRIO AS BEIRAS ouviu dois desses "escaladores", que preferiram manter-se no anonimato. António (nome fictício), desde criança que anda na apanha da pinha. "Já apanhei muitos sustos", adianta. Com a sua escada de dez metros de altura sobe a todos os pinheiros mansos. "Não há nenhuma que me escape", frisa com orgulho. Trata as árvores com mais de dez metros por "doutores", em sinal de respeito. Curiosamente diz que só sobe aos maiores, "porque assim se cair vou logo desta para melhor e se subisse aos pequenos ainda caia e ficava aleijado". Reconhece que muitas vezes gosta de ir "bem buzinado" para perder o medo. Ou seja, com uns "copitos" a mais.

Questionado sobre o facto de apanhar as pinhas em pinhais de outros proprietários, António, atira de imediato: "nunca tive problemas". "Quando os proprietários aparecem negoceio com eles e chegamos sempre a um acordo", diz.

65 cêntimos a pinha

Este é um dos maiores apanhadores da região, referindo que recolhe entre 10 a 12 toneladas de pinhas por ano. Depois de vendidas as pinhas com pinhões ganha qualquer coisa como €3.500 a 4000. Revela que no inicio da época os intermediários compram a pinha a 45 cêntimos o quilo, mas para o final o valor pode subir até aos 65 cêntimos. Quinze quilos de pinhas dão qualquer coisa como dois quilos de pinhões. Refira-se que num supermercado cem gramas de pinhão custam cerca de 3 euros. Ou seja, quando chega ao cliente final o pinhão vale quatro vezes mais do que é pago aos apanhadores.

O "mestre" apanhador de pinhas lembra que antigamente "britávamos nós o pinhão e vendiamo-lo directamente, mas dava muito trabalho e acaba por não compensar". Actualmente são raros os apanhadores beirões que ainda britam os pinhões. "Agora não me chateio com mais nada, vendendo logo as pinhas ao intermediário", realça. Também Manuel (nome fictício), confirma o que disse António e salienta que "não vale a pena britar os pinhões.: melhor é mesmo vender as pinhas com eles lá dentro e pronto". Manuel começou na apanha com 14 anos. Depois emigrou, mas quando regressou à terra voltou a entrar no esquema, "para ajeitar o orçamento familiar". Sobre a época autorizada por lei que tem inicio a 15 de Dezembro não tem dúvidas. "Ninguém cumpre, porque todos começam a apanhar antes, até porque as pinhas depois ficam estragadas", salienta. Esta época apanhou apenas durante dois dias, tendo conseguido recolher 200 quilos. Também respeita os pinheiros, pois já apanhou um susto. "A escada virou e eu tive que saltar de uns quatro ou cinco metros de altura", revela.

Conhece muitos que "parecem gatos a subir às árvores". A sorrir conta que existe uma velha na zona que "trepa pelos pinheiros como ninguém". Existem também "códigos" entre os apanhadores clandestinos. Vão ver primeiro as matas e escolhem as zonas que pretendem. Depois chegam a colocar papeis nas árvores com indicações do género: "estas já estão compradas".

Rosário de pinhões em vias de extinção

O rosário de pinhões é um objecto em vias de extinção, tendo o número dos artistas seus produtores diminuído muito nos últimos anos. Hoje em dia podem-se contar por uma mão aqueles que ainda têm paciência e engenho para britar os pinhões e transformá-los em rosários.

Rogério Dias é um dos poucos que no concelho de Oliveira do Hospital ainda mantém esta tradição herdada, pelo menos, dos seus bisavós. "Pelo menos até aí sei que também vendiam pinhões", contou .Depois da morte do pai "comecei a vender eu e já lá vão oito anos". Mas ao contrário do que se possa pensar Rogério Dias não faz deste comércio um negócio permanente, sendo apenas uma venda para a festa tradicional em honra de S. Sebastião, na povoação de S. Sebastião da Feira que decorreu no mês passado.

"Algumas pessoas dão valor a isto, mas outras acham caro", salienta. Em relação ao futuro o vendedor diz que irá continuar a manter a tradição herdada dos seus antepassados "até poder, depois logo se verá quem vai continuar". A arte de paciência é fundamental neste caso. "Tem que se apanhar a pinha, mas só nos pinheiros mansos. Depois assam-se as pinhas, para que deitem fora o pinhão". Em seguida tem que se abrir a casca do pinhão e escolher, um por um, os que estão em condições. No final os pinhões são enfiados, mais uma vez, um por um, numa linha". Tudo isto, esclarece, "feito com muita limpeza". Cada rosário leva entre 180 a 190 pinhões, tendo até um metro e setenta centímetros de comprimento.

Este ano Rogério Dias vendeu os rosários a 2,5 euros. "Não dá para o trabalho, mas é apenas para cumprir a tradição", salienta com um sorriso nos lábios.