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Museu Bernardo, um projecto com autores vivos

O projecto, liderado por Pedro Bernardo, estará patente ao público até 25 de Agosto no nº 16 da Rua Eng. Duarte Pacheco e conta com a colaboração dos mais variados artistas.

Decorreu em clima de foi em festa a inauguração o Museu Bernardo, espaço que até 25  de Agosto acolhe obras de pintura, desenho, escultura, vídeo, fotografia e de instalação de artistas consagrados, emergentes e de autores que ainda se encontram a terminar a sua formação artística.

Quase todos os apartamentos do prédio servem de espaço  expositivo. Há pintura nas cozinhas, instalações nas salas, vídeos nas marquises e mesmo nos halls de entrada podem ser vistas instalações. E não foram apenas apartamentos que abriram as suas portas à arte. Também nos dois escritórios que funcionam nos pisos térreos se podem apreciar  diferentes obras.

A ideia de criar o Museu Bernardo e a sua relação com o Museu Berardo explica-se por causa dos materiais gráficos. Pedro Bernardo reparou que o cartaz que saiu antes da inauguração do Museu no CCB continha 13 nomes “só de artistas mortos, à excepção de Paula Rego”. E como tal a ideia inicial do Museu Bernardo era a apresentação deste espaço, substituindo os nomes por autores vivos.

Segundo o mentor do projecto caldense, pretendeu-se realizar uma iniciativa onde os vários artistas se pudessem conhecer e apresentar as suas obras na cidade. “No fundo é como se fosse fazer um filme e estivesse a arranjar as personagens”, contou o fotógrafo explicando como os nomes de  artistas mortos deram lugar ao de artistas vivos.

Masumoto, um autor japonês que estuda em Portugal e que já apresentou o seu trabalho nas Caldas acabou por substituir Paula Rego, mas de forma inversa. Na lista do museu Berardo ela era a única artista portuguesa entre estrangeiros ao passo que Masumoto “é o único estrangeiro entre portugueses”, disse o autor da iniciativa.

A partir desse núcleo de 13 artistas surgiram muitos outros que têm uma relação pessoal com Pedro Bernardo ou com aquele prédio. Há vários anos que nº 16 abre as suas portas para apresentações artísticas. Para este projecto pontual nem sequer falta conservador: José Pires, o artista que mora e possui o seu atelier de trabalho naquele edifício também zela pelas peças e faz as visitas guiadas.

Desta exposição fazem parte obras da Colecção Bernardo que existe há já alguns anos e cuja ideia nasceu entre diferentes autores como Pedro Bernardo, os Daltonic Brothers e Miguel Telles da Gama.

João Paulo Feliciano tem uma projecção de vídeo patente neste evento e Pedro Bernardo recordou que o artista caldense já tinha exposto naquele local há 10 anos,  no âmbito no Art Attack . Este é o único artista que está representado nos dois museus, no Berardo e no Bernardo. O responsável ainda contou que houve vários criadores que realizaram intervenções específicas para locais no prédio. De Pedro Bernardo podem ser vistos um documentário sobre José Pires (de 2006) e ainda uma fotografia apresentada entre dois trabalhos de Jorge Feijão com quem tem realizado várias exposições.

 A maioria dos artistas participantes marcou presença na festa de abertura  deste projecto que também tem existência on-line e pode ser visto em  http://www.museubernardo.blogspot.com/

Estão presentes trabalhos de Paulo Tuna, Pedro Vaz, Daltonic Brothers, Orlando Franco, Masumoto, Costa Maia, Nuno Franco, Concha Rosas, Gil Kallivaara, Gonçalo Belo, Patrícia Carvalho, Magda Moita, Ana Telhado, Glória Peres, Pedro Bernardo, João Paulo Feliciano, Nuno Vicente, Xana Barata, Vasco Monteiro, Luís Nobre, Pedro Falcão, Jorge Feijão, Tiago Mestre, Nelson Crespo, José Pires, Severine da Badie, Miguel Telles da Gama, Marisa Cardoso, Susana Gaudêncio, Vanda Madureira, Margarida Correia, Paula Nobre, Valter Vinagre, Rodrigo Vilhena, Sílvia Gonçalves, José Manuel Rodrigues, Joana Consiglieri, Francisca Feijão, João Francela, Sílvia Ribeiro e Ofélia Reis.

As obras estão patentes até 25 de Agosto mas, eventualmente, “devido à grande adesão do público o prazo poderá ser alargado”, explicou Pedro Bernardo. Há ainda a intenção de editar um catálogo àcerca desta iniciativa mas em simultâneo o autor pretende efectuar um  levantamento sobre pessoas que vivem, moram e trabalham no prédio.

Participantes enaltecem a iniciativa 

Susana Gaudêncio, 28 anos, é uma das artistas que está a participar nesta exposição. Formou-se nas Belas Artes em Lisboa e está a realizar o seu mestrado no Hunter College da City University de Nova Iorque. Trouxe ao Museu Bernardo uma imagem (frame) de uma vídeo-animação. A própria autora surge nos trabalhos com poderes sobrenaturais e faz crítica social a estruturas de poder.

A artista considera que esta ideia do Pedro Bernardo “é um acto subversivo muito interessante até pelo nível do plágio do cartaz e do logotipo em relação ao Museu Berardo”, disse. Destacou o facto da iniciativa se desenvolver fora dos roteiros “que se estabeleceram sobretudo em Lisboa e no Porto”. Considera, por outro lado, que as Caldas da Rainha “têm tudo para servir de apoio à promoção e dinâmica da arte contemporânea portuguesa, em especial por causa da ESAD, que possui  instalações incríveis”, rematou.

Orlando Franco formou-se em Artes Plásticas na ESAD. Achou a ideia “fantástica” por acontecer um mês depois da apresentação do Museu Berardo, “onde eu colaboro como monitor, fazendo visitas guiadas às exposições”. Este acontecimento nas Caldas é muito importante pois mostra “como a arte e as pessoas são muito orgânicas na forma como lidam com a ideia de instituição”, disse Orlando Franco. O próprio Museu Berardo “também tem uma perspectiva pouco tradicional naquilo que conhecemos como museu”, disse o autor que trouxe um vídeo da série “Anastasis” (Ressurreição).

 “Solaris” assim se designa a instalação de Rodrigo Vilhena. Formado na ESAD. Este autor considera que o evento “tem potencialidades mas deveria ser mais divulgado”. Este artista dirige neste momento o projecto Voyeur Project View considerando que é neste momento “o único espaço de exposições alternativo em Lisboa”.Depois da inauguração das exposições este espaço fecha mas os visitantes podem vê-las 24 horas por dia através de um óculo. No final este artista-comissário apropria-se dos trabalhos dos restantes artistas, fotografando todas as peças das mostras e realizando um vídeo no final. “Para quê criar quando as obras já existem e podem usar-se noutros sentidos?” questionou-se o autor que nos anos 90 organizou várias exposições alternativas entras as Caldas e a capital.

Para Luís Nobre, que realizou trabalhos para locais específicos do prédio, o projecto Museu Bernardo “surgiu de uma maneira natural e genuína pois as pessoas juntam-se, trocam experiências e trabalhos sem as pressões habituais dos eventos”.

João Francela trouxe uma série de pinturas, inspiradas no quadro “Meninas de Avignon” de Picasso. “Achei interessante explorando a ideia do museu ter uma obra-prima que só por si atrai pessoas”, disse referindo que partiu da obra de Picasso que recentemente completou 100 anos.

Formado em Belas Artes este autor passou pelas Caldas (ESAD) mas depois optou por pedir transferência para Lisboa. Antes já tinha formação em restauro e tem feito um percurso paralelo nas duas áreas. João Francela acha que o Museu Bernardo poderia marcar uma importante presença “através da ideia e de manter uma chama acesa numa terra que tem uma escola de artes e onde estão a surgir coisas importantes”.

Sílvia Ribeiro tem 23 anos e é finalista de Artes Plásticas na ESAD. Está  a participar com uma série de três fotografias que representam três estados de espírito. Para trabalhar as imagens usou uma técnica totalmente por computador. “Esta é a minha forma de dizer que as novas tecnologias devem ser integradas e assumidas sem preconceitos e que posso desenvolver na mesma a minha ideia”. E adianta que é importante haver projectos como o Museu Bernardo, especialmente numa cidade como as Caldas. “É bom poder contar com este entusiasmo do Pedro Bernardo em colocar as pessoas em contacto e em apresentar obras de arte, abrindo para tal a sua própria casa”, rematou a autora natural de Alvaiázere.