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Memórias do contrabando do café

O contrabando para Espanha, especialmente de café, foi um modo de vida de muitas gerações. Em Miranda do Douro, vai-se recordando essa prática das aldeias de  fronteira, em iniciativas como a Rota do Café. Não indo lá os contrabandistas, aliciam-se os espanhóis da raia a virem cá, para beberem o nosso café...até de graça.

Esta iniciativa de Verão partira da Associação Comercial e Industrial do Concelho de Miranda do Douro  e já se concluiu, com sucesso, tal como fora um êxito a Semana do Bacalhau, realizada em Janeiro. E um dos programas mais apreciados foi a narrativa das memórias do contrabando, exactamente por dois velhos sobreviventes da arte, os irmãos Arribas.

No próximo ano, não se exclui a possibilidade de criar trajectos para os visitante ficarem a conhecer melhor os percursos dos contrabandistas, tanto na raia seca como no Douro Internacional. E o objectivo é sempre o mesmo: dar a conhecer a outra face do comércio fronteiriço, divulgar o café português e, ao mesmo tempo, fortalecer os laços entre os povos da Raia.

Manuel e Ângelo Arribas, dois irmãos e antigos contrabandistas da pequena aldeia da Freixiosa, junto ao Douro Internacional, deram-nos o testemunho privilegiado dessas actividades, que outrora, serviram de subsistência a muitas famílias da raia mirandesa.

O contrabando era arriscado e praticava-se principalmente durante a noite, sempre para levar café e outros produtos portugueses, que valessem mais dinheiro na Espamha.

Segundo Manuel Arribas, de 80 anos, levar café para o outro lado e trazer dinheiro para casa não era tarefa fácil. “Além dos obstáculos naturais das arribas do Douro, tínhamos sempre que contar com a Guarda-Fiscal e os Carabineiros, que controlavam, com olhos de águia, toda a região. Não era fácil enganá-los”, recorda.

Actividade muito lucrativa

O habitante da Freixiosa afirma que conhecia os perigos, mas o contrabando de café era uma actividade lucrativa. “Estávamos organizados em grupos e conseguíamos levar para Espanha, de uma só vez, vários sacos com cerca de 25 quilos cada. No regresso vinha o dinheiro e outros produtos que serviam como moeda de troca, que eram facilmente vendidos nas aldeias do concelho”, explicou.

 Por seu lado, Ângelo Arribas, de 71 anos, é, actualmente, reformado da EDP e lembra que também correu montes e vales ou dormiu muitas noites ao relento por causa do contrabando. Mas, chegou o dia em que teve de optar por um emprego estável, com futuro, e não olhou para trás: apesar de só ganhar 500 escudo por mês, não tinha que enfrentar os perigos. “No meu tempo, os rapazes e raparigas com 15 a 20 anos de idade preferiam o contrabando porque dava dinheiro. O que eu ganhava num mês eles ganhavam num dia. Depois, com a construção das barragens do Douro Internacional, muita gente abandonou a actividade”, recordou.

Segundo o presidente da Associação Comercial, Artur Nunes, os tempos mudaram e, por isso, convidou os vizinhos espanhóis a tomar café gratuito numa explanada junto à antiga alfândega. Além disso, quem desse um passeio pela zona histórica, podia bebê-lo a 40 cêntimos em 18 estabelecimentos aderentes.