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Igreja demoliu casa que lhe tinha sido doada

Os familiares da benemérita estão revoltados com a destruição do edifício mas o padre da paróquia diz que no testamento nada havia a impedir a demolição.

Domingos Viegas/Jornal do Algarve

Em Fevereiro de 2001, Suzete Leiria Aranha elaborou um testamento através do qual deixa registado que pretende legar a sua casa à Igreja de Vila Real de Santo António. A senhora acaba por falecer dois anos depois, aos 78 anos, a sua vontade é cumprida e o imóvel passa para a alçada daquela paróquia. A polémica surge agora, cinco anos depois, quando a Igreja decidiu demolir o edifício, localizado na rua Manuel de Arriaga.

Alguns familiares de Suzete Aranha não estão de acordo com o fim dado à casa pela paróquia e não escondem a sua revolta. "A vontade da falecida não prevaleceu e acabaram por destruir o património deixado à Igreja", diz Suzete Leiria, prima e afilhada da falecida. E além de lamentar a situação acusa também a Igreja de ter vendido alguns móveis e objectos - e destruído outros aquando da demolição - que se encontravam no interior da casa e que também tinham sido legados em testamento, à Igreja, junto com o imóvel.

"Quando soube que havia intenção de destruir a casa falei com o padre e ele disse-me que apenas iriam ser feitas pequenas obras. Mas a verdade é que a casa acabou por ser demolida, alguns móveis vendidos e outros destruídos. Ela era uma bem feitora e não há direito!", sublinha consternada a afilhada da antiga proprietária. "Os padres dão a volta às situações e a lei de Deus é posta de parte", diz Suzete Leiria, acrescentando que "era preferível que a casa tivesse sido vendida e que com o dinheiro se tivessem comprado ambulâncias, pelo menos deixava algo para quem precisa".

O padre Feliz Vieira Pires, da paróquia de Vila Real de Santo António, diz que está de consciência perfeitamente tranquila e explica que "a senhora deixou a casa à Igreja para que o imóvel fosse residência paroquial, mas não disse que não se podia demolir". E acrescentou que "da forma em que o edifício estava não podia servir para aquele efeito, pois não era funcional para receber quatro sacerdotes".

Residência para quatro sacerdotes

Segundo o padre Vieira Pires, a casa foi demolida e será construída no mesmo local uma outra que servirá de residência para os quatro sacerdotes que desempenham actualmente funções nos concelhos de Vila Real de Santo António e de Castro Marim.

Quanto à alegada venda e destruição de móveis e outros objectos, o sacerdote garante que "só foram vendidos, a um senhor das velharias, os mais velhos e que estavam com caruncho". Os restantes, assegura, "estão guardados e serão recolocados quando a nova casa estiver construída".

Entretanto, o Jornal do Algarve teve acesso ao referido testamento, no qual não se vislumbra qualquer referência a uma hipotética demolição, já que este diz, apenas, que o imóvel deve servir como casa paroquial. No documento pode ler-se que Suzete Rosa Leiria Aranha "referiu que não tem ascendência nem descendência" e que "lega à Fábrica da Igreja de Vila Real de Santo António o prédio urbano onde reside, sito na rua Manuel de Arriaga número cinquenta e oito (...), com todo o seu recheio, a fim de servir de Casa Paroquial da Igreja de Vila Real de Santo António. Que ele seja sempre para servir a paróquia de Nossa Senhora da Encar-nação de Vila Real de Santo António.

"Na passada semana, na altura da demolição da casa, a nossa reportagem passou pelo local e pôde constatar a estupefacção de alguns transeuntes. "Vejam isto! A senhora deixou a casa à Igreja e já estão a destruí-la ...esperemos que seja para construir casas para os pobres", falava em voz alta um dos passantes. Porém, entre a população, as opiniões divergem: "Já ouvi dizer que há quem não esteja de acordo que deitem a casa abaixo, mas se calhar são invejas por a casa ter sido doada à Igreja...", comentava outro dos populares que assistia à demolição.