Siga-nos

Perfil

Expresso

Regiões

Cirurgia pioneira em doente psiquiátrico

Através da colocação de eléctrodos no cérebro, pretende-se fazer desaparecer os sintomas da doença obsessivo-compulsiva

Os Hospitais da Universidade de Coimbra iniciaram em Portugal a Psicocirurgia Moderna, com estimulação cerebral profunda. Trata-se de um tipo de cirurgia não lesional que consiste na implantação de eléctrodos em áreas cerebrais pré-determinadas, utilizando técnicas estereotáxicas, e foi realizada, pela primeira vez no nosso país, num paciente com doença obsessivo-compulsiva. «Os eléctrodos são ligados a um neuroestimulador subcutâneo, à semelhança do que acontece na cirurgia à doença de Parkinson, e este envia estímulos eléctricos que permitem modificar o funcionamento de determinadas áreas», explicou ao DIÁRIO AS BEIRAS Fernando Gomes, director do Serviço de Neurocirurgia dos HUC, onde foi realizada esta cirurgia pioneira em Portugal.

A intervenção decorreu no passado dia 19, numa colaboração dos Serviços de Neurocirurgia e Psiquiatra dos HUC, com o apoio do Departamento Neurocirúrgico do Hospital Universitário de Lovaina, dirigido por Bart Nuttin, que assistiu à cirurgia. «O doente foi operado há pouco mais de uma semana e até agora está a evoluir bem e os sinais são positivos», referiu Fernando Gomes, salientando que a evolução do doente continuará a ser acompanhada pelos serviços de Neurocirurgia e de Psiquiatria, através do psiquiatra Tiago Reis Marques, e também por especialistas de Lovaina.

O objectivo desta intervenção «é conseguir que o doente fique livre dos sintomas da sua obsessão, que deverão diminuir progressivamente, até que esta deixe lhe provocar a ansiedade anterior», referiu o neurocirurgião, adiantando que nos centros em que é praticada esta cirurgia tem taxas de êxito que rondam os 70 a 75%. Contudo, admite Fernando Gomes, esta intervenção é uma alternativa para pacientes psiquiátricos graves, que «resistem às terapêuticas psiquiátricas, tanto medicamentosas como comportamentais, como era o caso do doente operado nos HUC, e cuja situação é tão dramática que se torna incompatível com a vida». Aludindo à polémica que envolveu a psicocirurgia iniciada por Egas Moniz, o neurocirurgião ressalvou que «as questões de natureza ética estão acauteladas». Por um lado, a Lei de Saúde Mental «impõe que estes doentes sejam presentes obrigatoriamente a uma comissão nacional de avaliação, que tem que se pronunciar favoravelmente à realização da intervenção», explicou, e, por outro lado, «tanto o doente como os familiares prestam consentimento, em termos muitos específicos».

O director do Serviço de Neurocirurgia dos HUC salienta ainda que esta cirurgia pretende ser «o início de um programa com continuidade», admitindo a possibilidade de, no futuro, outros hospitais enviarem doentes psiquiátricos graves para tratamento cirúrgico nos HUC.

HUC entre os centros mundiais

A cirurgia agora realizada nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) é efectuada apenas por quatro centros europeus - Lovaina, na Bélgica, Colónia (Alemanha), Estocolmo (Suécia) e um centro da Holanda -, aos quais se junta agora Coimbra. Nos Estados Unidos é efectuada em três centros universitários. Contactado pelo DIÁRIO AS BEIRAS, o presidente do conselho de Administração dos HUC, Agostinho Almeida Santos, manifestou a sua satisfação pela realização desta cirurgia pioneira nos HUC. «É um novo tratamento, para uma doença grave, que naturalmente enche de júbilo quem pugna pela qualidade e excelência da assistência», referiu Agostinho Almeida Santos. Trata-se de «uma intervenção de alto nível tecnológico e com grande relevância social, para doentes psiquiátricos graves, que ainda não era efectuada em Portugal», salientou também o catedrático da Faculdade de Medicina. «Este novo tratamento, que, através do implante de eléctrodos cerebrais, fará regredir os sintomas da doença e sinais de agressividade, tem o apoio e satisfação do conselho de administração dos HUC, que acompanhará a evolução do doente», referiu Agostinho Almeida Santos.