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CERAS amigo dos animais selvagens

A taxa de sucesso no tratamento de espécies de aves protegidas é das mais elevadas do país.

Recolhido há poucos dias em Vila Velha de Ródão, o jovem grifo, com fractura na asa, acaba de ser tratado na mesa da enfermaria. Vítima de uma colisão, chegou ao Centro de Estudos e Recuperação de Animais Selvagens (CERAS) de Castelo Branco pela mão do Serviço de Protecção da Natureza e Ambiente (SEPNA) da GNR. Esta é apenas uma das muitas aves selvagens que todas as semanas chegam de vários pontos do país. As causas dos acidentes são quase sempre de origem humana.

«O animal chega e é feita a ficha clínica, onde se incluem elementos como o diagnóstico e a origem», explica o responsável do centro, Samuel Infante, que pertence à Quercus e ao Núcleo de Ecologia da Escola Superior Agrária (NEESA). Depois disso, e de acordo com o diagnóstico, decide-se qual o destino a dar à ave. Ou recupera em quarentena, ou segue para intervenção cirúrgica numa clínica veterinária com a qual o centro tem protocolo.

«O grifo foi operado e vai ficar cá entre duas a três semanas. Até ser libertado em Vila Velha de Ródão». Muitos animais são trazidos pelos militares da GNR, mas também por agricultores, particulares e mesmo caçadores. «As causas que originam os ferimentos são quase sempre humanas», salienta Samuel Infante, vincando que «30% das aves vêm de cativeiros ilegais», porque «infelizmente há muitas pessoas que gostam de ter animais selvagens». Há outros que são baleados, atropelados ou envenenados. A estas juntam-se as causas naturais: doenças, migração, subnutrição e juvenis que se aventuram fora dos ninhos.

Inês, com apenas 12 anos, é uma das voluntárias do centro. Pergunta se deve dar figos ou passas a uma ave. Pouco depois, sai para o alpendre casa, onde lava com a água da mangueira uma gaiola para transportar pássaros grandes.

Todo o trabalho realizado no centro é voluntário. As aves que ali encontram protecção são na sua maioria necrófagas. Mas há também abutres do Egipto, corujas e águias. Algumas, quando abrem as asas, medem mais de dois metros de comprimento. Mamíferos como raposas, lontras e porcos espinho também já têm recebido tratamento.

«Ligaram do Douro Internacional. Vem a caminho mais um abutre», diz Samuel Infante aos outros dois colegas, após ter recebido uma chamada para o telemóvel. Depois disso, seguem os três para a enfermaria, onde tratam uma gralha com a perna partida. A sala é uma das valências do centro instalado na antiga casa dos caseiros da Quinta da Senhora de Mércoles, onde hoje está a Escola Superior Agrária de Castelo Branco (ESACB).

«O contacto com os animais é reduzido ao mínimo. Às vezes, o simples manuseamento, é o suficiente para morrerem», explica o dinamizador do CERAS, salientando que «50% é a nossa taxa de sucesso de recuperação de animais, ao passo que a média nacional ronda os 40%». Ao todo, existem seis centros deste tipo em território nacional.

Este ano, o CERAS de Castelo Branco iniciou um projecto de reprodução de espécies, que envolve o abutre do Egipto, integrado numa rede de âmbito europeu criada para proteger esta espécie, que sofreu um declínio acentuado da população nos últimos anos. Em Portugal estima-se que existam apenas 100 casais destas aves que habitam a bacia do Mediterrâneo.

O apoio da ESACB é fundamental para sobreviverem. Sem ele o centro não existia. No início, quando abriu em 2000, a Câmara de Castelo Branco também deu a sua ajuda. O Instituto de Conservação da Natureza (ICN) também ajuda o CERAS e recentemente contratou três veterinários para dar apoio aos seis centros que existem em todo o país.