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Cabarrão festeja Bodas de Diamante

Aos 88 anos, Amaro dos Santos Cabarrão não pensa deixar o pente e a tesoura. Fuma um maço de tabaco por dia e recusa que lhe chamem cabeleireiro.

Natural de Castelo Branco, Amaro dos Santos Cabarrão mantém uma frescura física invejável, apesar de ainda fumar uma média de 20 cigarros por dia. "Embora reconheça que fumar não faz bem à saúde, um cigarrito vai entretendo os tempos mais mortos, e como toda a minha vida fumei, também não é agora com esta idade, que vou deixar de o fazer", refere com uma sonora gargalhada. Simpático e afável, recusa ser apelidado de cabeleireiro, já que considera serem "modernices" com as quais não concorda. "Sempre fui um barbeiro do antigamente, habituei-me a esta actividade, tenho orgulho no meu trabalho e dedico a maior parte do meu tempo a esta profissão, que desempenho com toda a paixão".

Recorda-se das suas brincadeiras de infância e também de ser traquinas. "Era um tipo levado da breca, brincalhão até dizer chega. Por ser assim, os meus pais davam-me porrada todos os dias, e até tinham razão". Após frequentar a Escola Primária do Castelo, onde completou a quarta-classe, o jovem Amaro, quando o pai lhe perguntou que profissão gostava de seguir, de imediato respondeu que queria ser barbeiro. "Comecei por aprender na Barbearia dos Correias, propriedade dos irmãos Antero, Manuel e José Correia, pessoas que muito estimei, porque foram os meus mestres na arte. Gente boa que jamais esquecerei, apesar do meu salário ser um lanche todos os dias, o que não era nada mau naqueles tempos".

Completada a aprendizagem, já com 13 anos, foi trabalhar para a Barbearia de José Maria, localizada perto da Farmácia Grave, onde esteve durante cinco anos. "Naquela altura já era quase um mestre na arte de cortar cabelo e fazer a barba, comecei a conhecer muitos clientes, ganhei experiência e maturidade, e sinceramente o sonho de um dia vir a estabelecer-me por conta própria, começou efectivamente a apoderar-se de mim". E como o sonho comanda a vida, Antero Cabarrão, decidiu abrir uma barbearia na Rua J A Morão, e trabalhar por conta própria. "Naquela altura, como não tinha o dinheiro suficiente, tive que recorrer a um empréstimo de três mil escudos, concedido pelo Banco de Portugal, através do meu fiador, senhor José Barata Gordino. Comprei uma cadeira, um espelho e as ferramentas necessárias para poder trabalhar. Graças a Deus, como já conhecia os clientes, e eles sabiam do meu talento, rapidamente progredi na actividade".

Aos 20 anos, a exemplo de outros jovens, foi cumprir o serviço militar para o aquartelamento de Trem-Hipomóvel localizado na Cova da Moura, em Alcântara. Desse tempo de tropa, guarda as mais gratas recordações, como confessa. "Gostei muito de ter sido militar, porque na tropa aprendemos a ser homens. Eu sou do tempo em que o posto de cabo era muito respeitado, os soldados quando lhe dirigiam a palavra era em posição de sentido. O respeito sempre foi uma coisa muito linda, e que ainda hoje mantenho em todas as atitudes da minha vida".

De regresso à terra natal, Antero mudou a oficina de barbearia para a Rua da Figueira, próximo da Praça Rei D. José, onde ainda hoje se mantém. "Tenho aqui clientes de todas as classes sociais. Sempre fui muito estimado por todos, porque sou um homem que sei estar na vida".

Encartado há 75 anos e com 78 anos de actividade (incluindo os três anos de aprendizagem), o que lhe permite comemorar as «Bodas de Diamante» e com uma longa história de vida, o barbeiro Antero, não esquece também os maus clientes. "Infelizmente também por aqui já passaram, e não esqueço que três deles, quando concluído o meu trabalho, disseram-me que tinham que ir ao multibanco levantar o dinheiro para me pagar, só que até hoje ainda não vi um cêntimo. Recentemente também aqui esteve um jovem que tinha dois brincos nas orelhas, e que igualmente se ''esqueceu'' de me pagar. A partir de agora, sempre que desconfie de alguém, paga adiantado e resolve-se o problema".

Com uma reforma de 200 euros, lembra que antes do 25 de Abril, tinha sido informado que os barbeiros por conta própria não podiam descontar para a chamada Caixa de Previdência. "Agradeço ao senhor Marcelo Caetano, ter conseguido a tal previdência para os barbeiros. Recusei o complemento de reforma, porque não quis estar a incomodar as minhas filhas para o preenchimento da papelada, pelo que quero trabalhar até morrer, porque a pensão que recebo não chega para sobreviver". A concluir, lembra que antes do 25 de Abril, era perseguido pelos fiscais do trabalho, chegando inclusive a pagar uma multa de 125$00 por trabalhar fora da hora. "Esse dinheiro fez-me imensa falta, porque estávamos na altura do Natal, e fiquei à lisa". Já no final da nossa conversa, ainda teve tempo para confessar a sua admiração pelo Presidente da República, Cavaco Silva, "um homem digno e de respeito".