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Ameixas de Elvas sobem no preço e na procura

Apesar do êxito comercial, há cada vez menos fábricas a dedicar-se à confecção do produto regional.

O CHEIRO intenso a doce, o aroma característico da cozedura da ameixa em calda de açúcar, preenche os sentidos assim que se entra na fábrica de Luís Silveirinha Conceição (no centro histórico de Elvas) em pleno mês de Julho, a época alta de transformação daquele produto regional. O fabrico tem Denominação de Origem Protegida (DOP) - abrange a área geográfica dos concelhos de Elvas, Borba e Estremoz -, mas actualmente existem poucos produtores a transformar o tradicional fruto na cidade raiana. Luís Silveirinha Conceição diz ser «talvez o único produtor a nível artesanal», já que continua a utilizar métodos idênticos aos que eram praticados por altura da fundação da empresa, em 1919. A confecção ancestral permite obter «um toque, um sabor e uma cor diferentes, para melhor». Em Estremoz, por exemplo, salienta que é utilizado um sistema industrial. «Eu faço em 15 dias e eles fazem em três. A forma de fabrico é totalmente diferente», defende.

A Ameixa de Elvas continua a ser «muito procurada» e o interesse aumentou consideravelmente depois de ter começado a ser servida com sericá. A combinação dos dois produtos foi feita há décadas pelo pai de Luís Silveirinha Conceição, Mário Conceição, e o então director da Pousada de Santa Luzia, o primeiro local a servir sericá com ameixas.  Actualmente o produto é preferido por uma faixa etária que vai dos 40 aos 60 anos. «O pessoal novo, ou por desconhecimento ou porque é um produto caro, não conseguimos que comprem» , afirma o produtor.

A internacionalização poderá ser uma realidade muito em breve, após um interregno de vários anos. Luís Silveirinha Conceição mantém conversações para começar a exportar o produto regional para Inglaterra, país que foi «um dos grandes consumidores de Ameixas de Elvas» , muito por culpa de Lorde Wellington que durante a sua permanência em Portugal «as exigia sempre» à sua mesa. «As nossas primeiras exportações, noutros tempos, foram para Inglaterra e depois começámos a vender para os Estados Unidos. Estou a tentar retomar Inglaterra. É difícil porque os ingleses querem o nosso produto à maneira deles» , por exemplo, «ainda não utilizam as gramas mas as onças. É isso que está em estudo», revela Luís Silveirinha Conceição.

Preço a subir

A lei da oferta e da procura, utilizada em economia, aplica-se fielmente à situação actual das Ameixas de Elvas. O aumento da procura e a menor oferta de frutos tem levado à subida do preço do produto. «Está a aumentar o preço porque a procura é muito grande e cada vez há menos pomares. Dantes, praticamente eram só as fábricas que compravam ameixas. Agora são as fábricas, os retalhistas e o mercado para as vender verdes. Este ano vou pagar ameixas verdes entre os três e os quatro euros o quilograma, quando há meia-dúzia de anos era comprada entre os 50 e os 60 escudos [25 a 30 cêntimos]. Porquê? Porque estamos a fazer mal uns aos outros. Se eu tenho, o meu parceiro quer e oferece o dobro. Para não ficar sem elas, eu dou mais alguma coisa e entramos neste circuito. Felizmente estou a aumentar a produção porque consigoproduto» , explica Luís Silveirinha Conceição.

«Depois temos os nossos vizinhos espanhóis que gostam muito de vir cá comprar ameixa verde para levar para o mercado de Madrid. Eles têm a mesma ameixa, mas, devido ao microclima, não é igual à nossa», adianta. «Esta zona é privilegiada talvez pela condição do sol, pelas temperaturas, pela humidade reduzida. Ao pé do mar é impossível, a ameixa não se dá. No interior Norte, em Mirandela, também há grandes pomares mas a ameixa não é igual à nossa. Já comprei ameixa perto de Zafra [Espanha], um pomar com ameixas igualzinhas e ao pé das nossas não ferviam. Fui torná-las em passa (ao sol) e demoraram o dobro do tempo das nossas», evidencia.

O empresário possui três ou quatro fornecedores directos. «Não tenho pomares nem compro ao produtor, tenho pessoas que adquirem para mim. As ameixas vêm dos concelhos de Estremoz e de Borba. Borba conseguiu preservar os pomares de ameixas. Devia ser ao contrário. Ali a uva devia ter mais preponderância do que as ameixas e em Elvas estaria obrigada a continuar as ameixas e nãohaver vinha».

Poucos seguidores

«Segundo o meu pai, houve alturas em que havia 32 fábricas de ameixas, familiares, em Elvas, agora estamos reduzidos a três», recorda Luís Conceição.  De acordo com o empresário, a Ameixa de Elvas «continua a ter futuro» apesar de ele próprio ter dúvidas sobre se vai ter continuidade na sua família. «Ainda sou novo e enquanto puder faço», afiança o empresário que deixou a gestão de uma agência bancária para tomar conta da empresa que pertencia ao pai, em 1999. Mário Conceição comprou, em 1970, a fábrica que foi fundada em 1919, por Manuel Joaquim Candeias. Luís Silveirinha adoptou a marca utilizada pelo pai – «Frutas Doces Mário Conceição».