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À espera da luz verde

Semáforos da estrada da Beira estão prontos há mais de um ano, mas continum à espera que alguém os ligue e ponha a funcionar

TAL como como já sucedera em Coimbra, na rotunda do Alto de São João, os semáforos montados há quase um ano na Estrada da Beira continuam desligados. São perto de uma dezena, entre Ponte Velha e Ceira, e mantêm-se apagados porque a obra ainda não foi entregue.
Ao princípio, as reacções foram bruscas. Mas a coisa passou e os semáforos lá estão abandonados, já nem sendo notícia. A verdade, aliás, é que a própria EN17 onde eles se situam deixou de ser notícia, no que respeita a acidentes graves. Nos últimos dois anos, não se registou qualquer morte, no troço entre Coimbra e o cruzamento de ligação à Lousã. Tudo por causa de uma medida há muito reclamada: a sinalização da via, em toda a sua extensão, com traço contínuo permanente.
A interdição de ultrapassagens foi, na altura, recebida com algum cepticismo e até gerou um rol apreciável de protestos. Afinal, uma das principais estradas nacionais de acesso à cidade de Coimbra estava a ser transformada numa rua de uma vintena de quilómetros. Uma rua em que basta um camião lento para levar ao desespero os condutores mais apressados. Mas o traço contínuo não chega. Assim o entendeu a tutela, em 2004, e assim se acrescentou à intervenção global na EN17 uma outra empreitada: a da instalação de perto de uma dezena de baterias de semáforos limitadores de velocidade, entre Ceira (concelho de Coimbra) e a Ponte Velha (Lousã).
As obras tiveram o seu início ainda antes do final desse ano, tendo a empresa adjudicatária, de Pombal, colocado sensores, unidades de transformação de corrente eléctrica e erguido postes metálicos, com os indicadores luminosos. Em paralelo, montou placas de sinalização e pintou sinais no pavimento.
A empreitada foi, no final do Verão de 2004, adjudicada por ano e meio, por um valor da ordem dos quatro milhões de euros. Porém, quase dois anos depois, a obra continua sem ser entregue à dona, a Estradas de Portugal-EP. Pelo meio, refira-se, houve pedido de prorrogação do prazo, com trabalhos a mais, em valor que o Diário As Beiras não conseguiu apurar, mas que uma fonte da EP garante ser inferior a 20% do total.

De acordo com a fonte referida, a situação de impasse, relativamente à recepção provisória da obra, decorre da ausência de resposta, por parte do conselho de administração da EP. É que os adicionais, em trabalhos feitos e, na altura, devidamente autorizados, estão a ser alvo de análise, por uma comissão externa à empresa. Os atrasos na conclusão da obra já têm consequências visíveis: há postes metálicos já amachucados, muitas caixas estão cobertas por silvas e vegetação daninha, que também invade bermas e tapa, até, placas de sinalização vertical.
Há ainda um outro problema: a ligação dos semáforos não é da responsabilidade da EP. Um protocolo, assinado com as câmaras municipais de Coimbra, Miranda do Corvo e Lousã - os três territórios concelhios em que estão instalados -, determina que as autarquias deverão entender-se com a EDP, para que sejam ligados. O que, obviamente, ainda não sucedeu.
Tudo isto levou a Junta de Freguesia de Ceira a protestar, formalmente, junto da EP-Estradas de Portugal. Mas, sem a recepção provisória da obra, a empresa nada pode fazer. O empreiteiro adjudicatário foi notificado para proceder à limpeza das bermas, até meados de Agosto. Uma notificação que significa, também, um ultimato, e que vem, afinal, culminar um processo de difícil relacionamento, que implicou, já, a aplicação, pela EP, de uma multa considerável, por incumprimento contratual.
Os semáforos desligados acabam por suscitar reacções contraditórias: de um lado, os que não entendem os atrasos e exigem rápida conclusão; do outro, os que admitem que o traço contínuo já chega, como limitador de velocidade. Pelo meio, há também quem considere que os postes montados, só por si, já inibem alguns aceleras e, naturalmente, quem caracterize as medidas de segurança tomadas como exageradas e radicais.
Em S. Frutuoso, um residente, empreiteiro da construção civil já reformado, que, todos os dias, percorre a pé umas centenas de metros da EN17, só tem palavras elogiosas para as medidas de redução de velocidade. Até porque, ao contrário de outros, acha que o volume de tráfego «aumenta todos os meses». Quanto aos semáforos, Amaro Fachada Baptista lamenta continuarem apagados: «É mau, sobretudo para os peões, que, assim, não têm hipóteses nenhumas de atravessar em segurança». Já à entrada de Ceira, na última gasolineira antes de Coimbra, o condutor de uma carrinha não esconde a insatisfação. «Agora, que há muita gente de férias e que os garotos não têm escola, ainda vá que não vá, mas basta-me apanhar um camião que não consigo fazer menos de 35 minutos, desde o cruzamento da Lousã». E especificamente sobre os semáforos, Arménio Dias Pedro é peremptório: «Não vão adiantar nada». Ao seu lado, porém, um camionista sentencia que «esta gente fala, fala» mas na Espanha encontram-se «semáforos em todo o lado e ninguém pia».
Noutro registo, os comerciantes há muito estabelecidos à beira da estrada misturam queixas com aplausos. De positivo, falam na redução de acidentes, nas obras de correcção da via e na melhoria geral do pavimento. De negativo, apontam a inflexibilidade do traço contínuo e os desníveis criados, entre os novos tapetes e os acessos laterais. É o caso de Maria Rosa, gerente do Restaurante Cardoso, na Tapada de Ceira, que denuncia, também, a grande quantidade de viaturas que desrespeitam os limites de velocidade e, até, pisam o próprio contínuo.